Arquivo da Categoria: Críticas 2000

Thomas Brinkmann – “Rosa”

Y 24|Novembro|2000
escolhas|discos

THOMAS BRINKMANN
Rosa
Max Ernst, distri. Ananana
8|10



Dentro do espírito “back to basics” não há quem bata Thomas Brinkmann, com assinatura própria, ou como Soul Center. “Rosa” reúne uma coleção de EP já editados em vinilo, cada um com um nome de mulher. A embalagem não poderia ser mais minimalista, com a informação e o grafismo circunscritos a quase nada. Ao contrário do pendor funky dos Soul Center, “Rosa” resvala para a abstração analítica, servindo-se das programações para criar um segmento sónico de 74 minutos do qual, uma vez apanhados pelo ritmo, só conseguimos sair no fim. “Grooves” matemáticos ao serviço de uma tecno minimal cuja eficácia se comprova na absoluta irredutibilidade rítmica segundo a mesma estética de Vladislav Delay ou Rechenzentrum. Depois de nos enredar no centro da alma, Brinkmann aprisiona-nos nas certezas da máquina.



LA! NEU? – “Year Of The Tiger”

Y 22|DEZEMBRO|2000
discos|escolhas


LA! NEU?
Year of the Tiger
Captain Trip, import. Ananana
8|10



Klaus Dinger, sobrevivente do krautrock da geração de 70 (integrou os Kraftwerk, Neu! e La Düsseldorf), prossegue a remontagem do passado com os La! Neu?, neste disco com Rembrandt Lensink, Rüdiger Elze e Viktoria Wehrmeister. “Year of the Tiger” é um “tour de force” composto por dois temas com mais de meia-hora de duração cada. “Autoportrait Rembrandt mit Viktoria + Apache”, adaptação de um tema original de Lensink, é um tratado de motorika cósmico como nunca os Neu! se atreveram a fazer, enquanto em “Notre Dame” (também título de um tema dos Harmonia) Dinger sustenta com batida tribal a voz “eletricificada” de Viktoria a dizer inanidades psicadélicas em francês, e guitarras em estado de acidez alucinatória. No papel parece de fugir, na prática “Year of the Tiger” constitui um desafio à disciplina do corpo e do espírito.



Mouse On Mars – “Instrumentals” + Microstoria – “Model 3, Step 2”

Y 29|DEZEMBRO|2000
discos|escolhas


MOUSE ON MARS
Instrumentals
Sonig, distri. Ananana
8|10

MICROSTORIA
Model 3, Step 2
Sonig, distri. Ananana
7|10

Criaturas da entropia



Colónia, final dos anos 90. Um dia de trabalho como outro qualquer. Homens e mulheres de expressão vazia no rosto percorrem sem parar corredores sem fim, descem e sobem elevadores, entram e saem de escritórios ao som aconchegante de máquinas úteis ao bom funcionamento do edifício. Poder-se-ia ver neste movimento auto-suficiente de corpos, luzes, paredes, maquinismos, plástico, tubagens e monitores, unidos numa simbiose atómica, a dança que nem sequer os Kraftwerk conseguiram profetizar na sua dimensão mais demoníaca. A música de “Instrumentals”, álbum dos Mouse on Mars (Andi Toma e Jan St. Werner) compreendido cronologicamente entre “Autoditacker” e “Niun Niggung”, até agora apenas disponível em vinilo, e “Model 3, Step 2”, dos Microstoria (Markus Popp, dos Oval e, de novo, Jan St. Werner) são a banda sonora encravada deste filme mudo onde apenas os gestos, repetidos até ao absurdo, sinalizam as margens entre a vida e a morte.
“Instrumentals” difere em absoluto de qualquer outro dos álbuns da discografia recente dos Mouse on Mars. É um mundo de abstrações e aberrações sónicas que emergem para logo se dissolverem numa massa amorfa de programas a funcionar em circuito fechado, até a entropia finalmente os reduzir a uma sucessão infinita de zeros. Entre os miasmas digitais assomam aqui e ali fragmentos de “groove” dispersos (“Owai” mantem-se a funcionar quase sem falhas durante nove minutos), como órgãos separados do corpo que, à semelhança da cauda arrancada do lagarto, se agitam ainda em movimentos reflexos. Um mundo morto, sem dúvida, mas ainda assim repleto de despojos e peças soltas que giram e acendem e apagam num simulacro de festa, como as filas de lâmpadas coloridas que decoram o antro de demência e agonia dos monstros em “The Texas Chainsaw Massacre”.
Mas se “Instrumentals” é uma selva de criaturas incompletas e anti-natura, a eletrónica residual dos Microstoria é um deserto onde já só rastejam vermes digitais alimentando-se de restos de energia. Popp e St. Werner constroem, como sempre, as suas paisagens artificiais a partir de polaridades invertidas ou simplesmente distorcidas. Uma falha do sistema, ilustrada pelo erro de impressão propositado do grafismo da capa. Em “Model 3, Step 2” a corrente elétrica circula mole e devagar, como pasta de dentes, por entre resistências, filtros e interruptores ocultos no teto, no chão e nas paredes de edifícios doentes, misturando-se com a poeira, acumulando-se nas frestas e interstícios, formando nós e abcessos até provocar curto-circuitos. Seria dramático catalogar esta música como música ambiental da cidade ocidental moderna. Mas de que outra maneira se poderá conviver com este sons que, em definitivo, parecem dispensar o convívio com o humano?