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Pascal Comelade – Entrevista a propósito de concerto em Lisboa

Pop Rock

1 de Novembro de 1995
ENTREVISTA A PASCAL COMELADE

MEMÓRIAS DE UMA BAILE DEGENERADO


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Pascal Comelade é único e inclassificável. A sua música gira em torne de géneros esquecidos ou menosprezados. “Música de baile degenerada”, como ele próprio a define. Embora não procure ser o “Jimi Hendrix do piano de brinquedo”, as suas notas remetem para um universo de magia e de anacronismos. Miniaturas musicais moídas por uma máquina de fazer café.

Os seus álbuns são colecções de gravuras cobertas pela “patine” de outras eras. Canções esquecidas de Robert Wyatt, Jonathan Richman, Tim Buckley ou dos Yardbirds encostam-se a uma partitura nostálgica de Nino Rota ou a um arrebatamento romântico de Consuelo Velásquez. Pascal Comelade folheou para o PÚBLICO as páginas do seu álbum de recordações.
PÚBLICO – Num dos seus álbuns, “Détail Monochrome”, há um tema intitulado “Petite mélodie”. O conceito de “miniaturização”, desempenha um papel central no seu método de criação?
PASCAL COMELADE – Imagino, como “miniatura”, uma certa forma de pequena arquitectura dos arranjos musicais, um certo despojamento (ir ao encontro do essencial) que pode ser encontrado na época dourada do rock’n’roll inglês, nos Kinks ou na sublime utilização das quatro pistas em “Sergeant Peppers”. Daí a minha tendência para compor temas muito curtos. Outra referência é uma compilação histórica, “Miniatures” [N.R.: organizada por Morgan Fisher], com peças que não ultrapassam um minuto, incluindo a esplêndida “História do rock’n’roll”, por um elemento dos XTC. Há ainda o famoso mal-entendido do “minimalismo”. Dever-se-á falar de “minimalismo” a propósito da pré-história do rock’n’roll, em que era utilizado um mínimo de instrumentação (baixo, guitarra, bateria reduzida)? E quando se toca com um mínimo de notas? Houve alguém – Satie? – que disse: “Pode fazer-se tudo com um ‘fá’!” Refiro ainda a escola de “minimalismo” inglês, na época da série “Obscure”, de Brian Eno, com os primeiros registos de Gavin Bryars, Harold Budd, Michael Nyman, etc. Esquece-se facilmente também o trabalho de Moondog sobre o jazz e a música clássica. E John Cage, evidentemente. Enfim, pode pôr-se em prática um “resumo musical”, através da digestão, depois de uma filtragem? Música para máquina de fazer café?
P. – A mesma ideia está presente num título como “Haikus de Piano”, o “haiku” entendido como miniatura poética que ultrapassa a simples lógica racional. Serão as suas canções “haikus” musicais?
R. – Existe efectivamente uma influência literária mas, mais do que o “haiku” japonês, trata-se de um paralelo com o leitor que não leria mais do que a primeira ou a última página de um livro, o resumo, o prefácio ou o título…
P. – E a utilização de instrumentos de brinquedo, tem de facto necessidade da sua sonoridade? A música não sobreviveria sem eles?
R. – Os brinquedos são utilizados pela sua sonoridade, misturados ou não com instrumentos convencionais. Não tenho, à partida, qualquer teoria para justificar a sua utilização. Tento tocar num piano de brinquedo como se fosse um piano a sério. Para um pianista limitado, como é o meu caso, torna-se um exercício físico bastante interessante. Mas não há uma utilização sistemática. O mais importante é a prática musical, o tratamento e o resultado final. Não procuro ser o Jimi Hendrix do piano de brinquedo.
P. – O “El Primitivismo” de outro dos seus álbuns?
R. – Primitivismo, no sentido de uma prática instintiva, de ouvido, de amadorismo, de autodidactas ou de situações ligadas ao acaso. Trata-se simplesmente da utilização intemporal de músicas populares de todos os tempos, sem a perspectiva de coleccionismo nem a triagem de um esteta: jazz antigo, rock’n’roll dos anos 60, músicas de filme, canção italiana, por exemplo, mas sem me limitar a um passado nostálgico.
P. – A denominada “música mecânica”, das caixas de música e dos realejos, faz parte do seu imaginário musical?
R. – A influência maior verifica-se ao nível das percussões. A “música mecânica” ancestral não é mais do que Kraftwerk acústico! As músicas de feira, de circo ou de fanfarra têm a capacidade de poetizar o instante.
P. – A sua música é inseparável dos títulos. Há alguma ligação directa entre ambos, ao nível da composição?
R. – Puro método de paranóia-crítica! [N.R.: uma invenção do surrealista Salvador Dali.]
P. – “Bel Canto” é o título de um dos seus álbuns e a designação do seu grupo actual, apesar de a sua música ser quase exclusivamente instrumental. É o gosto pela ironia e pelo paradoxo?
R. – É isso exactamente! A vingança de um afónico perpétuo!
P. – Embora camuflado, o rock’n’roll também integra o lote das suas referências, ou trata-se ainda aqui de um paradoxo?
R. – Tento não passar a vida a acumular citações. Procuro fabricar artesanalmente a minha própria linguagem. As referências e os gostos pessoais não são forçosamente influências e vice-versa. De qualquer forma, não é um paradoxo, sou de facto um velho fã de rock’n’roll, de Elvis a Alan Veja, dos Pretty Things aos MC5. Por outro lado, gosto dos músicos que souberam criar um discurso individual, idiossincrático e único, como Thelonious Monk, Sun Ra, Captain Beefheart ou Robert Wyatt.
P. – Por que motivo grava tantos álbuns de uma compilação que, em última análise, não o são, uma vez que mistura temas antigos com originais e novas versões? Para o público, pode ser um bocado confuso…
R. – Aprecio bastante essa noção de “confusão”. Eu próprio sou confuso! Há muito tempo que deixei de analisar ou teorizar sobre a minha prática musical. Os únicos aspectos em relação aos quais permaneço crítico são a encenação, as leis do espectáculo e de distribuição da mercadoria. Não sou um cínico, mas procuro distinguir o “bom” momento do “melhor” momento. Dá muito trabalho, não dá? Enfim, não me preocupo em saber o que é novo e o que é velho.
P. – “Traffic d’ Abstractions”, ainda o título de um dos seus álbuns, pode ser um resumo perfeito de toda a sua música. Concorda?
R. – Os títulos dos álbuns são, em cada caso, uma tentativa de qualificar a tal prática musical que, no fundo, não é mais do que música de baile degenerada. Daí “Traffic d’ Abstractions”, “Cabaret Galactique”, “El Primitivismo” ou “Détail Monochrome”…

PASCAL COMELADE COM BEL CANTO ORCHESTRA, SÁBADO, DIA 4, TEATRO DE SÃO LUIZ, LISBOA, 22H00



“A Arte Total De A(rt) a Z(oyd)” – artigo a propósito de Concerto dos Art Zoyd em Portugal (Lisboa)

Pop Rock

4 de Outubro de 1995

A ARTE TOTAL DE A(RT) A Z(OYD)


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“Nosferatu” e “Faust”, as duas obras-primas do cinema expressionista alemão criadas por Friedrich W. Murnau, respectivamente em 1922 e 1926, vão ser acompanhadas pela música ao vivo do agrupamento francês Art Zoyd. Do cinema de Murnau já se escreveu tudo, ou quase. Dos Art Zoyd, não. Injustamente. Digamos que, para nós, fanáticos incondicionais, é uma das bandas mais obscuras e em contracorrente dos anos 70, a melhor banda do planeta dos anos 80, com tendência para melhorar, nos 90.
Sob vários aspectos, os Art Zoyd são uma banda excessiva, desmesurada na estética e nas intenções, versão wagneriana da música popular deste século. É a partir da segunda metade dos anos 70, isto é, na altura em que a música progressiva entra em agonia e o “punk” inicia a sua operação de limpeza com lixa a broca Black & Decker, que os Art Zoyd emergem como um leviatã. Apadrinhado pelos militantes da editora Recommended, o grupo lidera, juntamente com os Univers Zero, um movimento ao qual se convencionou designar por “rock de câmara”. Ou, como lhe chamou um crítico berlinense, “música de câmara para ‘punks’”.
Captain Beefheart e Frank Zappa (nos primeiros discos), Magma, (banda cuja visão – a de Christian Vander – e prática musicais mais se aproximam das do grupo), Van Der Graaf Generator, Bela Bartok, Wagner, a escola minimalista americana, a “folk” da Europa central, Shakespeare, Friedrich Nietzsche, William Blake e o Apocalipse segundo S. João são alguns pontos de referência que permitem situar o universo multifacetado, pluricultural e interactivo dos Art Zoyd.
A obra discográfica do grupo é indispensável na sua totalidade. Claro que nos dirigimos a quem não considera que a música rock tenha começado com os Nirvana nem que os Blur sejam a melhor banda britânica depois dos Beatles. Em 26 anos de existência (nasceram em 1969), os Art Zoyd gravaram apenas nove álbuns, todos disponíveis em compacto no nosso país, os suficientes para ocuparem um lugar de destaque na música contemporânea deste século: “Musique pour l’Odyssée”, “Génération sans Future”, “Symphonie por le Jour ou Brûleront les Cites”, “Les Espaces Inquiets”, “Phase IV”, “Le Marriage du Ciel et de l’Enfer” (para uma coreografia de Roland Petit), a obra-prima absoluta “Berlin”, “Nosferatu” (composição de Thierry Zaboitzeff e Gérard Hourbette que ouviremos no Auditório Caixa Geral de Depósitos) e “Marathonerre”, em dois volumes, resumo das originais 12 horas “non stop” de ópera electroacústica para os tempos modernos. Em preparação estão “Les Envahisseurs”, de novo em dois volumes, e “Häxan”, banda sonora para um filme sobre “a feitiçaria através dos tempos”.
Os Art Zoyd são Thierry Zaboitzeff (violoncelo, baixo, teclados, percussão, electroacústica, misturas, voz), Gérard Hourbette (viola de arco, teclados, percussão, electroacústica, misturas), Daniel Denis (bateria) e Patricia Dallio (teclados).

ART ZOYD
Dias 7 e 8, Grande Auditório do Edifício-Sede da Caixa Geral de Depósitos, 21h30



Balanescu Quartet – “Luminitza”

Pop Rock

9 MARÇO 1994
ÁLBUNS POP-ROCK

Balanescu Quartet
Luminitza

Mute, distri. BMG port.


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Com “Luminitza”, os Balanescu Quartet deixaram de ser um simples quarteto de cordas (se é que se pode chamar simples a um quarteto de cordas que já tocou a música dos Kraftwerk…) para se transformar em algo mais, por enquanto ainda não muito definido. Para já, parece haver da parte dos seus membros a necessidade de variar a gama sonora disponível, o que na prática se traduziu neste disco na inclusão de teclados e programações electrónicas. O som saiu enriquecido, mas o discurso ainda não possui coerência suficiente que permita definir o quarteto como algo mais do que um colectivo de intérpretes de composições alheias. Em “Luminitza”, as composições assinadas pelos próprios elementos do grupo, deixam perceber até que ponto estes foram influenciados pela música dos germânicos robóticos que lhes serviu de matéria de estudo no álbum “Possessed”. A electrónica não domina por enquanto a música, pertencendo ainda às cordas discorrer sobre teorias sólidas como o minimalismo ou o classicismo de feira de Michael Nyman. Mas os germes de uma nova linguagem estão presentes em “Luminitza”. E sobre o ombro dos Balanescu Quartet sente-se a respiração pesada do clamor industrial. Não admiraria que os Balanescu viessem a engrossar as fileiras da chamada “grey zone” da Mute. (7)

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