PETER BLEGVAD & JOHN GREAVES
Unearthed
Sub-Rosa, distri. Megamúsica
Textos de Peter Blegvad, excêntricos à boa maneira britânica, declamados pelo próprio, com a ajuda do seu antigo companheiro nos Slapp Happy e Henry Cow, John Greaves. Quem estiver a pensar na anterior colaboração da dupla, o magnífico “Kew. Rhone”, pode tirar os cavalinhos da chuva. É tudo falado, sobre um fundo sonoro que acompanha a estranheza das palavras. Pelo meio, uma canção, “The only song”, pois claro, a meio caminho entre os Beatles e os Faust. (6)
HECTOR ZAZOU
Chansons des Mers Froides (8)
Columbia, distri. Sony Music
Afastada a pesada cortina tecida numa lista interminável de convidados (Bjӧrk, Lightwave, Barbara Gogan, Mark Isham, Budgie, Brendan Perry, Suzanne Vega, John Cale, Sara Lee, Marc Ribot, Jerry Marotta, B. J. Cole, Lone Kent, Jane Siberry, Siouxsie, Harold Budd e Balanescu Quartet, mais, da área tradicional, Lena Willemark, Ale Moller, Angelin Tytot, Catherine Ann-McPhee e Vӓrttina, entre outros…), o que une estas “Chansons des mers Froides” é a organização de signos e correntes musicais de sinal divergente num corpo musical que Hector Zazou define como um instrumento de “mudança do mundo”. Ou seja, dito por outras palavras, mais uma tentativa de criação de uma música global, Babilónia ou biblioteca Borgiana onde se arrumam todas as músicas conhecidas. Tarefa hercúlea na qual Hector Zazou possui no entanto já alguma experiência. Das experiências surrealizantes com os ZNR até à colagem do psicadelismo dos anos 60 com a música africana e a polifonia electrónica de “Reivax au Bongo”, passando pela etnopop computorizada de “Noir et Blanc” e o “disco” mutante de “Guilty” até ao neoclassicismo de “Géographies” e “Géologies”, Hector Zazou demonstrou sempre a mesma sede de síntese, necessariamente estabilizada a partir de um ponto de fuga situado por norma em conceitos extramusicais ou ao nível de leituras imaginárias de um pretenso folclore universal. No primeiro caso, está “Sahara Blue” numa vertente literária centrada na figura do simbolista Arthur Rimbaud, enquanto no segundo se inclui a experiência com as novas polifonias corsas. “Chansons des Mers Froides” é um projecto de trabalho, curiosamente gravado em 1992 mas só agora lançado no mercado, sobre as músicas tradicionais da Sibéria, Alasca, Gronelândia, Ilhas Hébridas, Suécia, Finlândia, e Japão, cuja matéria-prima são as canções de marinheiros, “airs” de localização e data que “se perdem na origem do tempo” e “melodias ainda vivas no quotidiano das populações tribais do Grande Norte”. Projecto do qual os posteriores “Les Nouvelles Polyphonies Corses” e “Sahara Blue”, apontados mais para Sul, seriam o contraponto “quente” deste novo lote de canções agora editado em conjunto com uma colecção de gravuras fotográficas alusivas às regiões frias. Claro que há uma dose enorme de humor em tudo isto e que tanta teorização pode ser encarada como uma monstruosa “boutade”, já que Zazou se diverte a confundir as pistas e a jogar em vários tabuleiros ao mesmo tempo. “Chansons des mers Froides” é uma hidra de múltiplas cabeças que se agitam em várias direcções, da música de dança às colisões industriais, do ritualismo ao jazz, do canto étnico à cançoneta, da electrónica ambiental ao concretismo bem comportado. Um truque de prestidigitação com as cores de uma aurora boreal.
Zao
Osiris (7)
Kawana (8)
MUSEA, DISTRI. PLANETA ROCK
Os Zao formam o colectivo mais consistente saído do domínio do polvo Christian Vander, profeta dos Magma. Antigos companheiros de Vander, o pianista François “faton” Cahen e o saxofonista Yochko Seffer formaram desde sempre a sua espinha dorsal, aqui na companhia de outros dois nomes importantes da música alternativa francesa, o baterista Jean-My Truong e o baixista Joel Dugrenot. “Osiris”, de 1974, sucede à estreia “Z=7L”, em que os Zao não se tinham conseguido ainda libertar do amplexo asfixiante da garra dos Magma. É uma obra de transição entre a estética “zeuhl” (aplicável a todos os grupos com ligações a Kobaïa, planeta imaginário nascido das congeminações loucas de Christian Vander) e o posterior jazzrock vulcânico equidistante da visão convulsiva dos Magma (sobretudo de “Údu Wúdú”) e das geometrias jazzrock dos Soft Machine, da fase compreendida entre os álbuns “4th” e “Seven”. “Kawana”, de 1976, apresenta uma personalidade mais vincada, feita do equilíbrio entre a pulsão telúrica do baixo de Gérad Prévost e o lirismo do novo recruta, o violinista Didier Lockwood, outro ex-Magma exausto que não suportou a desmesura do mestre. Yochko Seffer, por seu lado, tornava progressivamente mais complexo o discurso do seu sax soprano, tendência que exploraria em pormenor no seu próprio projecto denominado Neffesh Music, ainda uma derivação orgânica da mundivisão “zeuhl”, registada num álbum como “Ghilgoul”. O êxito de vendas alcançado pela reedição de toda a discografia dos anos 70 dos Zao (devido em grande parte ao trabalho de pós-produção e promoção de Richard Pinhas, velho activista dos Heldon) levou a que o grupo se voltasse a reunir para gravar, o ano passado, um álbum novo (e bastante convencional, diga-se de passagem), com o título “Akhetanon”, entretanto já editado pela Musea. A juntar a estes encontra-se ainda disponível “Shekina”, cuja novidade reside numa interessante experiência com um quarteto de cordas.