Albert Marcoeur
“Sports et Percussions”
CONCORD, IMPORT. PLANETA ROCK
O universo artístico de Albert Marcoeur destina-se a ser saboreado até ao tutano por quem andou pelos anos 70 a entusiasmar-se com as músicas de gente como Henry Cow, Magma, Faust, Gong e outros que tais, e se impregnou da leitura de “Rock & Folk”, ou da BD de “bíblias” como a “Metal Hurlant” e “A Suivre”. Gente, ainda, que gargalhou com o estilo gráfico verdadeiramente genial de Gottlib, autor de pranchas onde o humor dos desenhos e dos textos só encontra paralelo, do outro lado da Mancha, no cinema, nos sagrados Monty Python. Albert Mancoeur já vem muito de trás a fazer álbuns onde a estranheza se confunde com o humor. “Sports et Percussions”, o mais recente, é uma série de “comptines” em torno de desportos como o ciclismo, o boxe ou o automobilismo (fórmulas 1 e 2…), sem esquecer os jogos de azar ou o empate futebolístico de um “Tchecoslovaquie-Écosse 0-0”. Bizarro sem ser obscuro, organizado segundo delírios sonoros que poderiam ter brotado da imaginação do nosso amigo capitão Cap (obrigado, Alphonse Allais!), “Sports et Percussions” alterna a poesia surrealista (ou dada?) com o teatro progressivo à maneira de uns Etron Fou Leloublan, o “muzak” extraterrestre e os nós rítmicos tipicamente “Recommended”. No tal jogo que acabou em empate, encontram-se arremedos de celtismo esmagados por uma pedrada monumental, sobre a gritaria das claques, acabando a função em clima de guerra, ao som dos gritos e rajadas de metralhadora. Demencial. Na consola, um “hacker” de tenra idade andou a fazer das suas, minando com electrónica desaparafusada canções de mil malabarismos. Marcoeur, com o espírito ladino e livre de uma criança, assina os seus números com a superioridade dos não-comprometidos.
FRANK ZAPPA
Läther (10)
3xCD Rykodisc, distri. MVM
O homem continua vivo. O homem e o génio. “Läther” (sem trema, significa baba…) não é apenas mais um punhado de material desenterrado do vaso de cinzas do defunto, mas, de facto, “the great lost Frank Zappa album”, a peça que faltava no imenso “puzzle”deixado para a posteridade por um dos maiores compositores deste século.
Inicialmente pensado por Zappa para ser editado em 1977 na forma de uma caixa com quatro álbuns em vinilo, apenas agora, 19 anos após a ideia original, vê a luz do dia, num triplo compacto reunindo material inédito, entre temas e versões nunca editados e remisturas alternativas, que acabaram por surgir no mercado em quatro álbuns separados, entre 1978 e 1979.
Lá dentro, é o delírio. Nada soa a requentado ou a lixo reciclado, como é costume acontecer com frequência em projectos desta envergadura. Pelo contrário, as múltiplas vertentes da música do autor de “We’re only in it for the money” adquirem aqui um relevo ainda maior, experimentando a cada momento novas hipóteses e fórmulas. Pequenos desenhos animados alternam com ridicularias vocais na fronteira da demência, solos de guitarra iluminada cede o passo a sinfonias de complexidade quase paranóica. Está aqui tudo: as invenções e desinvenções de estilo, os contextos e a sua descontextualização, a forma e o paradoxo cultivados milimetricamente e com a distanciação dos deuses por Zappa.
Frank Zappa transformou as linguagens populares e eruditas – a “surf music”, o “hard rock”, os “blues”, a pop imbecil, o jazz, a canção de variedades, o serialismo, a música concreta, a música de câmara, a electrónica – em espectáculo, metendo-as todas no mesmo saco. Um saco sem fundo onde o seu cérebro fervilhante ia buscar alimento, moendo e deglutindo, ironizando e destruindo, desmontando e remontando de novo, até transformar toda essa matéria-prima num ser sonoro e conceptual autónomo que deixou em ruínas e sem capacidade de resposta a concorrência.
Talvez por esse motivo, Frank Zappa teve sempre a sua música arrumada num compartimento sem vizinho do lado, resguardando-se, ou protegendo-se, para construir sem entraves uma obra que até ao fim se regeu por normas que a mais ninguém se aplicavam e que apenas aproveitaram a quem tinha uma visão, pelo menos, de tão longo alcance como a sua. Frank Zappa, repetimo-lo com uma reverência aumentada e reavivada pela audição de “Läther”, era um génio.
Foram então dois grupos igualmente geniais os únicos capazes de assimilar algumas das suas regras para construírem, por sua vez, obra própria e intransmissível pelo lado das aparências: Faust e Henry Cow. Ambas as formações marcaram a música sem rótulos, mas avançada e desestabilizadora dos anos 70, fazendo escola pelas décadas seguintes (Negativland e todo um séquito de mentes bizarras, no caso dos germânicos; a imensa legião “Recommended”, no caso dos ingleses, liderada por Fred Frith e Chris Cutler).
Zappa foi o director, o professor e o contínuo da universidade. A matéria que leccionou e com a qual brincou durante toda a vida foi a música em estado puro. E é música em estado puro que percorre “Läther” da primeira à última faixa. Impossível destacar pormenores. Quando pensamos estar num lugar, já estamos sem remédio noutro. Quando pensamos poder descansar no conforto de um assento de um auditório clássico, somos abanados por uma anedota. E quando nos dispomos a rir da anedota, já o universo se modificou de novo e o cenário tanto pode ser um “blues” de alta voltagem como a visita, sem guia, pelo interior de uma construção barroca.
“Läther” exige que se lhe preste atenção. “Läther” torna banais as caganitas sonoras que, passados 20 anos, nos infestam os ouvidos a cada instante. “Läther” obriga a consultar, uma vez mais, toda a discografia do músico. “Läther” reduz a pó o tempo. “Läther” ficará, como ficou a maioria dos álbuns de Zappa (sim, porque há coisas dispensáveis, sobretudo nos anos 80…), connosco para sempre, obrigando-nos a reflectir. A capa de “Läther” é uma vaca, a mais louca das bovinas. Uma exagerada vaca de brinquedo, sobre um pasto exageradamente verde, sob um céu exageradamente azul. Porque Zappa sempre foi exageradamente Zappa.
Progressivo. O termo seduz muitos e assusta alguns. Hoje, porém, já há quem escreva, sem vergonha, coisas como “progressive house”, “progressive techno”. Mais do que uma estética ou um estilo, o Progressivo foi – é -, antes de mais, uma atitude que vingou em Inglaterra, entre 1970 e 1975. Todas as modas que atravessaram a década seguinte não foram suficientes para apagar aquela que foi uma das épocas mais originais e produtivas da música popular. É assim que 1996 assiste à consagração de velhos dinossauros como os Jethro Tull, este ano nas comemorações do seu 30º aniversário, mas também ao ressurgimento de fenómenos como “rock alemão”, ou Krautrock, na expressão agora recuperada por Julian Cope, no seu livro “Krautrock Sampler”, tornado bíblia do Progressivo. Grupos como os Faust, Amon Düül II, Can e Neu! voltaram a gravar e a tocar ao vivo, com os primeiros a assinarem um dos grandes álbuns do ano passado, “Rien”. O facto ganha maior relevância quando se sabe que bandas recentes como os High Llamas ou Stereolab reivindicam os papas do rock alemão como uma das suas principais influências. Quem se aproveitou do período de sombra que cobriu o Progressivo, em Inglaterra, ao longo da década de 80, foram os chamados “neo progs”, aprendizes bem-intencionados mas de magros recursos no que respeita a criatividade e personalidade próprias, que copiaram sem moderação os modelos antigos. “Neo progs” como Marillion, Twelfth Night, Pallas, I. Q. ou Pendragon. Pelo contrário, editoras como a Cuneiform ou Recommended, mantiveram acesa a chama, com muitos dos seus artistas a passarem por uma quase clandestinidade sob o caudal das modas, enquanto outras, como a francesa Musea, a Si-Wan coreana ou a Repertoire alemã, se têm dedicado sobretudo à reedição tanto de clássicos como de trabalhos mais obscuros do Progressivo, preenchendo um mercado em franca ascensão. Os verdadeiros “progressivos”, posteriores aos anos 70, de um e do outro lado do Atlântico, davam por nomes tão estranhos como Univers Zero, Art Zoyd, Birdsongs Of The Mozosoic, Aksak Maboul, 5 Uu’s ou Motor Totemist Guild. Por outro lado, a implantação das chamadas “músicas do mundo” provocou um interesse renovado pelas bandas pioneiras do folk “progressivo”. Numa altura em que cada vez mais bandas novas descobrem as virtudes da electrónica analógica, o PÚBLICO apresenta o seu manual de orientação, de A a Z, do Progressivo.
PROGREDIR DE A A Z
Americanos – Foram eles que deram má reputação ao Progressivo, conotando-o com o “rock sinfónico”. Mas a decadência vingou, nos Boston, Kansas, Journey e quejandos.
Bandas – Na década de 70, o colectivo sobrepôs-se ao individual. Foram os grupos que ficaram para a História. Era difícil a uma pessoa só tocar 40 instrumentos ao mesmo tempo… Personalidades, houve Robert Wyatt, Kevin Ayers, Daevid Allen (os excêntricos de Canterbury), Brian Eno, John Martyn, Nick Drake, Neil Ardley, Mike Oldfield e o seu parceiro das orquestrações David Bedford, Roy Harper, Robert Fripp. E David Bowie e Peter Gabriel, mundos à parte. E Peter Hammill, um mundo ainda maior e mais à parte.
Canterbury – Em 1961, um grupo de estudantes de arte – Robert Wyatt, Mike Ratledge, Kevin Ayers e Daevid Allen – formava na pequena localidade de Canterbury, no Sul de Inglaterra, um grupo, os Wilde Flowers, que estaria na origem do subgénero mais importante e “cool” do Progressivo e ficaria para sempre designado pelo seu local de origem. O som “canterbury” caracterizava-se por vocalizações pastoris, experimentalismo pop, jazz diletante e um órgão electrónico saturado de “fuzz”. Soft Machine, Gong, Egg, Caravan, Hatfield and The North, Gilgamesh, Matching Mole, os primeiros Camel, National Health, Soft Heap, Khan são nomes de ponta de um movimento que nos Estados Unidos se prolongou pelos Happy The Man, However e Muffins. No Japão, os Ain Soph são os representantes oficiais de Canterbury. Na Internet, existem pelo menos dois sítios que lhe são dedicados – Calyx e Musart.
Dean, Roger – Não se falava em crise e as capas dos álbuns desdobravam-se em metros e metros de papel. Álbum “progressivo” digno desse nome era obrigado a ter uma capa de abrir. Entre os desenhadores de capas que fizeram escola, Roger Dean distinguiu-se pelo onirismo e originalidade dos seus traços, criando um estilo inconfundível que outros, depois dele, copiaram. Ficaram célebres as capas dos Yes, mas também os Budgie, Greenslade, Gentle Giant, Uriah Heep e Osibisa tiveram a sua música embrulhada nos sonhos gráficos de Roger Dean. A capa do “Mellon Collie”, dos Smashing Pumpkins, é “progressiva”.
Electrónica – Fez escola na Alemanha, mas também em Inglaterra (David Vorhaus/White Noise, Seventh Wave, Ron Geesin, Tonto’s Expanding Head Band), Itália (Franco Battiato, Pierrot Lunaire), Estados Unidos (Ned Lagin, Beaver & Krause) e, sobretudo, em França, sob a tutela de Pierre Henry (Pôle, Heldon, Lard Free, Bernard Szajner, Alan Markusfeld). A parafernália electrónica posta à disposição dos músicos favoreceu igualmente o aparecimento de monos como os de Hot Butter, primeiro grupo a levar a pop electrónica ao 1º lugar do “top” de singles britânico, com “Popcorn”.
Folk “progressivo” – Nasceu da fusão do psicadelismo com a folk tradicional, casando bem com a inventividade do Progressivo. Steeleye Span, Fairport Convention, Pentangle e Strawbs inventaram o “folk rock”, deixando para as bandas “menores” a missão de se perderem em sons menos catalogáveis. Trees, Dando Shaft, Spirogyra, Mellow Candle, Dr. Strangely Strange, Tudor Lodge, Magna Carta, Trader Home, Forest, C.O.B., Fuchsia… Os Incredible String Band constituem uma lenda à parte. Na altura eram “hippies” e loucos. Em 1996, começa-se a compreendê-los.
Gentle Giant – Os estetas do movimento. Fizeram a síntese da música contemporânea, das polifonias medievais, no minimalismo, da “folk”, do “hard rock”, do psicadelismo, de tudo, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Os manos Shulman e o teclista Kerry Minnear tocavam todos os instrumentos e todas as culturas, “Gentle Giant”, “Acqiuring The Taste”, “Three Friends”, “Octopus” e “In A Glass House”, os cinco álbuns da fase inicial, são obras-primas do Progressivo que ainda hoje se escutam como se fossem novidades.
Harvest – Selo célebre, dos poucos a poder competir com a Vertigo. O seu maior troféu são os Pink Floyd e as capas da Hypgnosis, que se juntaram no marco do Progressivo, “Atom Heart Mother”. Albergou uma chusma de lunáticos: Tea & Symphony (“Na Asylum For The Musically Insane” deve ser o álbum mais esquizofrénico de todo o Progressivo ou lá o que for…), Battered Ornaments, Pete Brown & Piblokto, Quatermass, The Greatest Show On Earth, Third Ear Band, Forest…
Italianos – Em Itália, os “progressivos” liam pela pauta, não desdenhando a sua herança clássica. Van Der Graaf Generator, King Crimson e Emerson, Lake & Palmer foram os modelos eleitos por grupos como Premiata Forneria Marconi, Banco, Celeste, Le Orne e Il Balletto di Bronzo. Bastante mais interessantes são as propostas radicais dos Area, Arti & Mestieri, Dedalus, Stormy Six ou Picchio Dal Pozzo, que preferiram expor-se à audição de Zappa e dos Henry Cow.
Jazz – Miles Davis aproximou-se do Progressivo em “Pangaea”. E Sun Ra, nos álbuns com lados inteiros com solos de Moog, como a gravação ao vivo “Nuits de la Fondation Maeght” e “It’s After the End of the World”.
Krautrock – Julian cope recuperou para a actualidade um termo que designa uma infinidade de propostas musicais originárias da Alemanha. A “kosmische Muzik” de Klaus Schulze, Ashra e Tangerine Dream. O rock anarquista dos Guru Guru, Grobschnitt, Amon Düül II e Floh de Cologne. O romantismo dos Wallenstein, Hoelderlin e Parzival. O tribalismo dos Can e Embryo. O jazz-rock híbrido dos Release Music Orchestra, Annexus Quam e Kraan. O misticismo dos Popol Vuh e Yatha Sidhra. O industrial “avant la lettre” dos Cluster e Kraftwerk. O minimalismo dos Neu!, Harmonia e La Dusseldorf. A revolução total dos Faust. Pete Namlook, Jeff Greinke, Peter Frohmader, Holger Hiller e Asmus Tietchens são alguns dos seus actuais sucessores.
LSD – Lucy desceu do céu e trouxe diamantes. O consumo baixou, em comparação com a gulodice dos psicadélicos que na década anterior provocaram a ruptura de “stock”. Os “progressivos” também tomaram a pastilha mas a necessidade de rigor não se compadecia com as desbundas do “acid rock”. Os filósofos “sérios” e a literatura fantástica e de ficção científica foram dissecados enquanto Timothy Leary ficou guardado para os feriados. Era preciso ter a cabeça no lugar, para juntar o onirismo a um perfeccionismo por vezes quase maníaco. Os Gong nunca tiveram esse problema…
Moog – Durante o Progressivo, o reinado das guitarras cedeu ao dos teclados electrónicos. O sintetizador Moog e o “mellotron”, um órgão de cassetes que reproduz sonoridades orquestrais, funcionaram como símbolos da aventura sonora de uma época. Actualmente, assiste-se à recuperação destes dois instrumentos. Nenhum “sampler” conseguiu igualar o calor do LFO (Low Frequency Oscillator) do velhinho Moog analógico. É preciso ouvir “Lucky man”, dos Emerson, Lake & Palmer.
Nórdicos – Apanharam a tempo o comboio. Jazz, pop transviada, folk, minimalismo. Wigwam, Tasavallan Presidentti, Burnin’ Red Ivanhoe, Sammla Mammas Manna, Day of Phoenix, Bo hansson. Lars Hollmer e Pekka Pohjola são dois dos maiores compositores europeus da actualidade. A Resource tem estado atenta no capítulo das reedições.
Orquestras – Nunca casaram bem com o Progressivo, paradoxalmente um movimento que muitos, de forma errada, definiram como “rock sonfónico”. As experiências dos Moody Blues, Procol Harum, Deep Purple e Rick Wakeman ficaram como curiosidades.
Peel, John – O papa do éter britânico. Passou no mítico Top Gear da Radio One (vencedor crónico dos “polls” da imprensa musical na década de 70) os grupos todos. Criou a sua própria editora, Dandelion. Algumas das suas “Peel sessions”, gravadas ao vivo no estúdio, são pérolas do Progressivo, como as dos Can e Soft Machine.
Quantidade – De instrumentos, de cartão para as capas, de títulos incríveis, de tendências absurdas, de palavras incompreensíveis, de golpes de génio. O Progressivo foi o reino da quantidade e do excesso. Uma cornucópia a jorrar para os anos 90.
Recommended Records – A editora mais “progressiva” dos anos 80, fundada pelo baterista e teórico dos Henry Cow, Chris Cutler. Nela estão registadas algumas das propostas mais arrojadas deste período: Art Bears, Cassiber, Wha Ha Ha, After Dinner, Steve Moore, Biota, Jocelyn Robert, Univers Zero, Negativland, Charles W. Vrtacek. Tem editoras irmãs espalhadas pela Europa: Rec Rec, Woof, These, No Man’s Land, Points East (dedicada à música do Leste)…
Segunda linha – Se os grupos principais, ingleses, do movimento, Genesis, Camel, Gentle Giant, King Crimson, Van Der Graaf Generator, Yes, Jethro Tull e Gryphon, foram aqueles que ficaram nos registos, outros houve, com menor projecção mediática, que definiram as linhas menos ortodoxas do Progressivo. É por estes que o coleccionador se interessa, idiossincrasias às quais o tempo conferiu uma aura de mistério. East of Eden, Ben, Tea & Symphony, Secondhand, Gracious, Gnidrolog, T. 2, Stackridge, The Greatest Show On Earth, Clarck Hutchinson, High Tide, Comus, Spirogyra, entre muitos outros, mais do que os consagrados, sustentaram a mística do Progressivo.
Tantra – A banda de Manuel Cardoso foi a única, em Portugal, a levar o progressivo às últimas consequências, juntando o profissionalismo e a teatralidade em álbuns como “Mistérios e Maravilhas” e “Holocausto”. José Cid gravou “Dez Mil Anos depois, entre Vénus e Marte”, muito considerado nos meios coleccionistas internacionais. Os Petrus Castrus ficaram-se por “Mestre” e os GNR desistiram, depois de “Avarias” de “Independança”. Os Beatnicks nunca chegaram a gravar o épico “Cosmonicação”. Ainda hoje se segreda aos ouvidos o nome dos Ephedra.
Uma vez – Era uma vez uma palavra que se julgava enterrada para sempre. Não estava porque a atitude que lhe estava subjacente nunca morreu. Venham de lá os que nos anos 90 primeiro se aproximaram do Progressivo, embora deixando cair a alma pelo caminho. Main, My Bloody Valentine, Spacemen 3, A. R. Kane.
Vertigo – A editora clássica da primeiro fase do Progressivo. Foi a primeira editora a apostar em exclusivo no mercado dos longas-durações. As reedições excelentes, têm estado a ser efectuadas de forma metódica pela Repertoire. Gentle Giant, Nucleus, Ben, Cressida, Fairfield Parlour, Affinity, Beggars Opera, Catapilla, Gracious, Tudor Lodge, Bob Downes Open Music, Manfred Mann Chapter Three, Keith Tippett Group, os melhores. E coisas raras, esquisitas e valiosas como Still Life, Hokus Poke, May Blitz, Nirvana (não confundir com…), Dr. Z, Clear Blue Sky, Warhorse, Legend…
White Noise – Reparem bem neste nome. “An Electric Storm”, álbum de 1969, é um dos maiores rasgos de futurologia que se conhecem. Pop saturada de LSD, electrónica espacial, surrealismo “bubblegum”, vozes astrais, risos de pulgas e uma missa negra, debaixo de trovoada, celebrada no Inferno.
X – “Mister X Gets Tense” e “Saculty X”, de “Get Tense Ph7”. “Xmy Heart”, o álbum mais recente. Até quando Peter Hammill terá a energia necessária para se manter como porta-voz da voz mais profunda e perturbada do Progressivo dentro de uma cabeça só? A incógnita…
Yes – Sim… Talvez… Não… Nenhum outro grupo congregou em igual percentagem o ódio e a veneração como os Yes. Simbolizam em simultâneo o lado melhor e pior do Progressivo. Em termos de virtuosismo instrumental, eram imbatíveis. Os excessos, praticaram-nos todos. O duplo “Tales Of Topographic Oceans”, com os seus quatro longuíssimos temas, é para alguns uma obra-prima, enquanto para outros representou o pior pesadelo do Progressivo. Sobre a voz andrógina de Jon Anderson, há quem, só de a ouvir, jure que sobe ao céu, e quem vomite.
Zeuhl – Termo que designa o universo estético e ideológico criado em França pelos Magma. Antes deles eram os Ange que lideravam o Progressivo em França, mas foi a banda de Christian Vander a definir a linha mais forte e original do movimento. Deixaram uma legião de discípulos “zeuhl” como os Zao, Weidorje, Xalph, Eskaton, Shub Niggurath, Musique Noise, cuja característica comum era a paixão por Nietzsche, Wagner e Coltrane. Em oposição a tudo andaram os Etron Fou Leloublan e Albert Marcoeur.