Para quem já se roía de saudades dos defuntos Tuxedomoon, estes Ninerain podem ser o melhor bálsamo para curar as feridas da separação. É que o manda-chuva do projecto é nem mais nem menos do que Steven Brown, saxofonista e teclista daquele grupo americano, que aqui se juntou a um colectivo de músicos mexicanos. “Ninerain” soa como um desvio bizarre e transbordante de exotismo dos Tuxedo, embalado numa capa ritual-alucinatória ao estilo de Jorge Reyes, ao volante, afinal, do mesmo veículo em que seguiam Blaine Reininger, Peter Principle ou Winston Tong, em eterna excursão por um planeta desesperadamente em busca do sagrado. Os “samplers”, os saxofones, as percussões carnavalescas dos músicos mexicanos, são instrumentos de uma visão em que não cabem nem o folclore nem a redundância, mas em que também não se vislumbra uma unidade de propósitos. Era assim nos Tuxedomoon, continua a ser nos Ninerain. Uma errância de símbolos e de cores, a corrupção dos grandes espaços por um olhar intoxicado pela decadência urbana, um realismo fantástico depauperado pelo cansaço e pelo desencanto, como o que habita o cinema de Wim Wenders. Projecto curioso, situado à margem do “mainstream”, mas não muito, “Ninerain” pela voz de Steven Brown, pastosa, doente, saturada de literatura e de recordações mortas. O México dos Ninerain não fica longe de São Francisco. O ectoplasma brilha ainda sobre as ruínas dos Tuxedomoon. (6)
A viúva maldita está zangada. John voou. Ono regressou ao experimentalismo meio desequilibrado que caracteriza os seus primeiros trabalhos. Com os Imã, grupo do qual faz parte o filho dela e do Beatle assassinado, Sean Ono Lennon, Yoko grita e grita e grita, alertando para o holocausto, para a peste do século, a sida e para a vida negra que nos espera a todos nos próximos tempos. “Warzone”, a abrir, faz arranhões. É Nine Inch Nails com Diamanda Galas a ensinar como se faz. O mesmo se pode dizer a propósito de “Ask the dragon”, “I’m dying” e “Rising” (e Patti Smith, em “Horses”, lembram-se?), onde a japonesa dá livre curso ora à sua fúria ora à sua dor. Nas entrelinhas há reggae, em “Wouldn’y”, “Scratch””, em “Talking to the universe”, new wave à CBGB, em “New York woman”, baladas hippies, como “Turned the corner”, e, em particular, à Jefferson Airplane (ou, se quisermos, à maneira da sua congénere alemã, dos Amon Düül II, Renate Knaupkrotenschwanz), no caso da belíssima “Where do we go from here”. Oportunidade ainda para ser japonesa aos suspiros em “Kurushi”, declamadora contra o tempo, em “Will I”, ou para lembrar a paranóia melódica de Roger Waters, de “The Wall”, em “Goodbye my love”. As “Revelations” finais soam com ironia suave, mas não fazem esquecer que Ono tem contas a ajustar com a sociedade. Aconselha-se cautelas antes de se entrar na sua “zona de guerra” privativa. (6)
FAUST
“Rien” (8)
Table of Elements, import. Contraverso
É um acontecimento, o regresso, após um interregno de mais de vinte anos, do lendário agrupamento germânico, agora reduzido ao duo Werner Diermaier e Jean-Hervé Peron, que à entrada dos anos 70 colocou em xeque todas as convenções da galáxia pop. “Rien” é o primeiro disco de originais de estúdio desde “Faust IV”, de 1973, descontando duas edições, dos anos 80, de material disperso, compiladas em “Munic & Elsewhere” e “The Last LP” (também conhecido por “Party Tapes”), posteriormente reunidas num compacto simples com selo Recommended: “Seventy Minutes of Faust”. Recentemente, o mercado viu aparecer umas “Peels Sessions” extraídas do programa radiofónico do lendário “dj” britânico.
Para trás ficara o brilho de “Faust” (1971), “So Far” (1972) e “The Faust Tapes” (1973), bem como as colaborações em “Outside the Dream Syndicate”, de Tony Conrad (sério rival de “Metal Machine Music”, de Lou Reed, como disco mais inaudível de todos os tempos), e “Acnalbasac Noom”, dos Slapp Happy (“Casablanca Moon” de trás para a frente, versão simplificada de “Slapp Happy”, segundo álbum, na Virgin, do grupo de Anthony Moore, Peter Blegvad e Dagmar Krause).
“Rien” está à altura da mística dos Faust, desde o ilusionismo da apresentação e do invólucro. Depois da transparência absoluta de “Faust”, do negro retinto do “So Far” (mais as gravuras na edição original e no CD japonês) e de “The Faust Tapes” comercializado ao preço de um “single”, é a piada, a fazer jus ao título, de um livrete de oito páginas em cor de prata sem nada impresso. Nada aí, nada na lombada, “rien de rien”, nada de nada! Apenas um cartão minúsculo com uma foto desfocada do actual duo e, no verso, a mesma radiografia da mão do primeiro álbum.
Na faixa inicial, silêncio total. A segunda começa por contar o tempo de forma decrescente, com alguém a anunciar “C’ est rien, de Faust”, passando depois a avançar em sentido contrário. Na sétima e última, duas vozes desfasadas, uma feminina, outra masculina, fazem a apresentação da ficha técnica, em inglês e alemão. A produção, só então ficamos a saber, pertence a Jim O’ Rourke, activista norte-americano da música electrónica, com obra gravada na Extreme.
É um álbum violento, radical como todos os álbuns dos Faust. Talvez o mais radical e violento de todos. Ferro ferrugento mais broca de dentista. Desapareceram o humor (“Krautrock”, lembram-se?), o romantismo enferrujado e as típicas baladas esvoaçando em melodias do outro mundo, como “Meadow meal”, “On the way to Abamäe” ou “The sad skinhead”. Em 1995 o céu cobriu-se de um tecto de nuvens e o ar é constantemente riscado por estática e jactos de ácido sulfúrico.
“Rien” prolonga a agonia sonora do lado mais experimental e ruidoso da banda até ao ruído rosa. É o “noise” industrial a reivindicar direitos de autoria sobre súbditos como Einsturzende Neubauten, Test Dept. ou Asmus Tietchens. Despertos da longa letargia, os Faust voltaram para inundar de novo o planeta com pesadelos e ácido com muita estricnina. “Rien” é o niilismo elevado à categoria de arte, numa aula de química adulterada. E a demonstração de que os Faust têm mais do que uma alma para vender ao diabo.