ALAN VEGA, ALEX CHILTON, BEN VAUGHN
Cubist Blues (8)
Last Call, distri. Megamúsica
Morrer de morte lenta parecia ser até há bem pouco tempo o destino artístico marcado para o antigo vocalista dos Suicide, desde a separação do seu comparsa Martin Rev. Longe vão os tempos em que, sobre uma serração rítmica de martírio, Alan Vega atirava cadeiras para o meio da assistência ou queimava os mais agitados com pontas de cigarros acesos. A Vega restava seguir o caminho da decadência, vestindo até às últimas consequências a pele de um Elvis Presley desamparado num casino virtual. “Cubist Blues” surge não tanto como a ressurreição, mas antes como a sua redenção, de um género, o “rockabilly” industrial, que Alan Vega procurou retomar, sem sucesso, a solo, depois da dissolução dos Suicide, embora o grupo tenha regressado nos últimos anos à actividade, gravando em 1989 o álbum “A Way of Life”.
A gravação teve lugar em duas noites, num segundo andar dos estúdios Dessau, na zona baixa de Nova Iorque, recorrendo deliberadamente a escassos meios de produção (um dos temas, “Lover of love”, aproveita, inclusive, um erro de gravação…). Desta opção resultou um som directo e destituído de truques, que extrapola o minimalismo electrónico dos Suicide para fatias de carne crua cortadas a sangue frio pelas guitarras, o baixo, o piano e o sintetizador de metal de Alex Chilton, um ex-Big Star, e a batida obsessiva de Bem Vaughn, antigo colaborador de Kim Fowley, o maior e mais prolífico lunático de toda a história do rock.
Se o som dos Suicide é reproduzido praticamente na íntegra de cada vez que Chilton se agarra ao sintetizador, como é o caso gritante de “Freedom”, derivação em ritmo de massacre de “Cheree”, na maioria dos temas, porém, é a alma dorida dos “blues” que vem à tona, travestida nas intermitências vocais de um “robot” em curto-circuito. Os Velvet Underground já tinham sintonizado antes na mesma frequência, domando o caos a golpes de heroína, para soltar a poesia da desumanidade e da mecanização, mas foram os Suicide que afiaram a faca da crueldade e a cravaram no peito dos anos 80. Alan Vega corporiza o grito e os suspiros dessa dor e “Cubist Blues” a sua deslocação para a arena do rock ‘n’ roll. Entre a memória dos Doors, em “Fat city”, a devoção anedótica de “Come on Lord”, as descargas de electricidade e cimento de “Promised Land” e os “blues” em mármore frio de “Sister”. A cerimónia termina com “Dream baby revisited”, num cabaré vicioso, palco privilegiado em que os sonhos de Vega o transformaram em “the king”.
VÁRIOS
In Memoriam – Gilles Deleuze (8)
2xcd Mille Plateaux, distri. Symbiose
Folds and Rhizomes for Gilles Deleuze (7)
Sub Rosa, distri, Symbiose
Gilles Deleuze, autor de “Rhizome” e “Mille Plateaux” (aproveitada para nome da nova editora), entre outras obras, suicidou-se em Novembro do ano passado, pondo termo a uma longa doença. Sempre foi figura cara aos experimentalistas das sonoridades electrónicas de sinal ameaçador. De uma só assentada, fizeram-lhe duas homenagens. A primeira é estimulante, aliando a teoria filosófica à prática musical. A segunda é mais modesta mas não menos interessante, de um ponto de vista exclusivamente musical.
No tema inicial de “In Memoriam”, o filósofo em pessoa enuncia a metáfora fundamental: “Começar pelo primeiro princípio é um pouco um método que evoca o modelo da árvore: procura-se em primeiro lugar a raiz. Mas existe um segundo método, ou um segundo modelo, que é o da erva. A erva cresce pelo meio.” É vago mas sugestivo, adaptando-se a todo um conceito sobre a origem e a funcionalidade da música. Aparece tudo escrito, de forma convincentemente complexa e confusa para um leigo, no texto assinado por Achim Szepanski, que acompanha a edição grossa em digipak.
O tema central é o da máquina, logo, do corpo, biológico e da obra de arte. Logo, da música electrónica. Vinte e seis nomes, entre os quais os Zoviet France, Cristian Vogel (da escuderia Recommended), Atom Heart, Chris & Cosey (dois ex-Throbbing Gristle), Trans AM, Jim O’Rourke (produtor de “Rien”, o novo álbum dos Faust), DJ Spooky, Oval (autores de uma recente remistura dos Tortoise) e Scanner, estendem a música electrónica para além dos limites do ambientalismo, do industrialismo e da música computacional, criando fórmulas onde a sistematização matemática se alia à linhas energéticas do acaso. Música de máquinas. Música do corpo. “O que significa fazer música electrónica? Que a matemática é a base de toda ela, a regra, o algoritmo? Que é música que acontece no universo dos sintetizadores, monitores, midis, computadores? A outra questão é: como é que a música electrónica funciona? Esta segunda questão não é redutível à primeira, antes segue um modelo paradoxal: tornar audível o inaudível (…) lidando com coordenadas como ‘retardamento’, ‘velocidade’, ‘sobreposição’, ‘desfasamento’, ‘condensação’… ou seja, com as funções e componentes do som.”
Compreende-se. A vibração electrónica faz parte do domínio virtual, não existindo na natureza. A criação no universo electrónico processa-se – ou é – através da manipulação de ondas e de informação. Manipulação do tempo e do caos. Na música electrónica (como é perspectivada neste disco, bem entendido) o meio confunde-se com o corpo sonoro, escultura sónica, criando no instante as suas próprias regras e os seus acidentes.
Curiosamente, o título do segundo álbum – da série “Diários utópicos”, da Sub Rosa (com quatro longas faixas dos Mouse on Mars, Main, Oval e Scanner, terminando num pósfacio de David Shea com Tobias Hazan) – complementa a metáfora da árvore. O rizoma é o caule subterrâneo, coberto de escamas em vez de folhas, que cresce no subsolo. Ou na “interzone” mental, zona virtual de poder que Burroughs e Cronenberg formalizaram em “O Festim Nu”. “On the edge of a grain of sand” é o título sintomático da contribuiçao dos Zoviet France, pioneiros do obscurantismo sónico que veio pôr um novo (e mais sombrio) acento na música concreta, no ambientalismo e nos novos acusmáticos (Biota, Steve Moore, PGR, Jocelyn Robert). Implosão e explosão. Ordenamento das moléculas musicais em redor de um buraco negro central. O sentido é o das forças e pulsões organizacionais da máquina e da energia, mas também o da “rautschen” (“murmúrio”) subliminar, deleuziano. Não confundamos esta estética da divinização da máquina (Deus “ex machina”) com o aparecimento de outra corrente recente da música electrónica que evoluiu a partir do ambientalismo, a sugestivamente designada “Sombient” ou “Ambient noir”, localizada nas margens do silêncio e do vazio siderais, derivação da new age da Hearts of Space para o subsom da “Fathom”, presente nos últimos trabalhos da Robert Rich (com Brian Lustmord) e Steve Roach. “Sombient”, que possui já o seu manifesto na colectânea “The Throne of Drones”, sobre a qual escreveremos proximamente.
Geograficamente, “In Memoriam” posiciona-se nos antípodas de Brian Eno. Uma e outra música elabora sobre o tempo e a sua anulação/transgressão. Mas enquanto o autor de “Apollo Atmospheres” encara a eternidade, concertando o fluir dos acontecimentos sonoros num dispositivo sem princípio nem fim, evoluindo a partir de uma noção de intemporalidade, os maquinistas da sombra jogam, com idêntico objectivo, em conceitos como repetição (seria útil a análise da obra de Deleuze “Diferença e Repetição”, ciclicidade e programa.
Na música de Eno a máquina tende a anular-se. O som tem como limite ideal o desaparecimento do sujeito que o produz. Nos homenageantes do filósofo, a despersonalização funciona de maneira inversa. A máquina é o centro, a voz, o ‘fiat lux’ e o filtro condutor de toda a “praxis” sonora (e filosófica…). Eno representa, na terminologia deleuziana, o método da árvore que cresce em direcção à luz. Os seus discípulos músicos seguem o modelo do rizoma, evoluindo de forma tentacular rente ou debaixo do solo. Qualquer destas duas concepções ambiciona, como já referimos, a criação de um corpo novo. O corpo crístico, num caso. A mutação do corpo, tornado apenas carne, no sentido cronenberguiano, no outro.
“In Memoriam” é um manifesto perturbante e musicalmente arrebatador do Apocalipse mediático visualizado por McLuhan e desmontado por Deleuze. A máquina, o homem-máquina são, então, o órgão e o veículo que, extrapolando as palavras do filósofo, “libertam um puro acontecimento, livre de acidentes da vida interior e exterior, isto é, da subjectividade e da objectividade do que acontece”.
VÁRIOS ARTISTAS
Eyesore: A Stab at the Residents (7)
Vaccination, import. SYMBIOSE
Há mais de 20 anos que os Residents permanecem incógnitos. À proximidade do milénio, estão mais activos e subversivos do que nunca. Três dezenas de nomes, quase todos desconhecidos, responderam ao pedido da editora Vaccination e apresentaram as suas versões pessoais de temas destes anjos do bizarro, como lhes chamaria Edgar Allan Põe. É a homenagem “oficial”, de genérico “Eyesore: A Stab at th Residents”. Um objecto tão absurdo como fascinante.
Homenagem aos Residents? Estão a brincar! Será a reacção mais provável a este “digipak” com cores de cadáver e de sangue que a Vaccination Records, uma pequena editora californiana vocacionada para a ruína, acabou de lançar no mercado. As bandas e os nomes avulsos de “Eyesore” foram convidadas, d acordo com aquela companhia, através de métodos como a “persuasão”, a “tramóia” e a “boa vontade”. Os que responderam à chamada fizeram-no por piro amadorismo (“por amor à música dos Residents”), não recebendo quaisquer lucros em troca, nalguns casos financiando eles próprios as gravações. Alguns declinaram a oferta, por falta de fundos. Stan Ridgway, o ex-Wall of Voodoo que encerra o compacto, usou como “tema” a gravação da sua voz, via telefone, a desculpar-se por não apresentar uma única nota de música, nem dele nem dos “fabulous four” (perdoem o sacrilégio…) com cabeça em foram de globo ocular. Há ainda um “bonus track” secreto. Tudo com o selo “Residents approved” e o conveniente tom d conspiração.
A lista das bandas e solistas participantes é como segue: Only a Mother, Idiot Flesh, Heavy Vegetable, Frank Pahl, Thinking Fellers Union Local 282, Borgia Popes, Ubzub, Mooseheart Faith, Spatter Trio, Amy Denio, U-Totem, Greg Roe, Giant Ant Farm, Charming Hostess, Richie West & Bomb Factory, Silica Gel, Mommyheads, Supercollider, Snakefinger, Fibulator, Dramagold, Shakin’ Ray Levis, Poxy Boggards, Big Butter, Cracker, Pink Floyd the Barber, Non Credo, Lungpigs, Eskimo, Primus e o já citado Stan Ridgway. Alguns parecem invenção mas não são.
Deste rol de inanidades, conhecemos os U-Totem, de James Grigsby, banda conotada com o som Recommended, e os Negativland, os (Segundo cremos) suiços Non Credo, outra banda da estética Recommended, Snakefinger (guitarrista que, durante anos, participou nos álbuns dos Residents, entretanto falecido), os Cracker e Amy Denio, “performer” habitual da Knitting Factory que já actuou entre nós. Os Idiot Flesh e os Giant Ant Farm já têm álbuns da Vaccination. Outras bandas estão em agenda para gravar. A grande maioria, porém, compõe uma grande incógnita, embora alguns disponham já de endereços próprios na Internet. Todos os temas estão interligados, formando uma longa peça sonora, de maneira idêntica à dos primeiros álbuns conceptuais dos homenageados, como “The Third Reich ‘n’ Roll”, “Not Available” ou “Eskimo”. Os álbuns repescados em “Eyesore” abrangem um período temporal que vai do EP de estreia, de 1972, “Santa dog”, ao álbum do ano passado, “The Gingerbread Man”. No total, 76 minutos de incongruência, caos, loucura, paródia, devoção, paranóia e algum humor, numa para de “freaks” desejosos de agradar aos progenitores.
Os sons e os ruídos, os decalques e as variações, a acumulação de citações e desvios, a estranheza pela estranheza ou a assunção séria da diferença que se derramam em “Eyesore” fazem deste produto – que seria perturbante se a ânsia de esquisitice não fosse, em muitos casos, gratuita – algo de impenetrável, quase anedótico. A estética das várias bandas confunde-se e contagia-se mutuamente, a alucinação acústica esbarra na derivação electrónica mais esotérica, as vocalizações tanto seguem as estratégias fonéticas que, segundo os Residents, lhes teriam sido ensinadas por uma misteriosa personagem de nome N. Senada, como inventam elas próprias novos e insanos vocabulários. Seria despropositado destacar temas, uma vez que o princípio da identificação não funciona aqui. As bandas, mesmo aquelas cuja discografia é do nosso conhecimento, fazem questão em soar como se fossem outras, esmagadas pela sombra imensa que sobre elas paira.
Seria o equivalente à (des)montagem sistemática de canções dos anos 60, de êxitos dos Beatles, Roilling Stones e Beach Boys, empreendida em “The Third Reich ‘n’ Roll” se não pecasse pela ausência de um objectivo preciso e perverso como era o dos Residents nesse álbum, primeiro de uma longa série (que hoje inclui outros formatos como o vídeo e o jogo em CD-ROM), de destruição, inversão e contágio da música popular deste século.
Os Residents sabem – e os participantes de “Eyesore” não – que não se destrói um organismo com o poder do rock, à martelada, a tiros ou à bomba, como fizeram, por exemplo, e com idêntico projecto, os Einstuerzende Neubauten, mas de outra forma, mais subtil, operando por dentro uma mutação genética. “Eyesore” é um “cartoon”, banda desenhada convulsa mas pueril de uma operação de maior gravidade. Um ovo de pequenas criaturas parasitas posto, mas não chocado, pela besta-mor.
P.S. – Na capa de “Eyesore”, um tal Penn Jilette conta uma história. Amigos de longa data dos Residents, conhece o nome dos seus músicos, o tal segredo mantido inviolável há mais de duas décadas. Durante um concerto de estádio dos Talking Heads, no Texas, um par de jovens à sua frente suspira. O se maior desejo, dizem, é conhecer os nomes, os tais nomes… Penn Jilette, atrás deles, grita e pronuncia claramente os nomes e apelidos de cada um dos Residents. Os jovens ouvem o som mas não prestam atenção. A decifração do segredo passa-lhes ao lado. Há uma moral qualquer a extrair deste episódio.