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Al Di Meola, Paco De Lucia, John McLaughlin, Vicente Amigo – “Corrida De Guitarras No Campo Pequeno, Em Lisboa Meola, O Triunfador”

cultura >> domingo, 27.06.1993


Corrida De Guitarras No Campo Pequeno, Em Lisboa
Meola, O Triunfador


Mais de cinco horas foi quanto durou a maratona de guitarras realizada na noite de sexta-feira, em Lisboa. Vicente Amigo e Paco de Lucia acenderam os ânimos com o fogo do flamenco. John McLaughlin deu uma triste imagem do guitarrista inflamado que no passado também foi. Melhor faena deu Al Di Meola, que acabou por ser o grande triunfador na monumental do Campo Pequeno.



Vinham aureolados de mestres da guitarra: Vicente Amigo, Paco de Lucia, Al Di Meola e John McLaughlin. Dos quatro, só McLaughlin traiu as expectativas, frecebendo vaias e gritos de “vai-te embora”, enquanto os outros arrancaram aplausos e, no caso de Al Di Meola, o entusiasmo delirante.
Vicente Amigo, acompanhado de um quarteto (diga-se desde já que a organização não forneceu, nem antes nem durante o espectáculo, qualquer informação sobre o nome dos músicos), foi o primeiro a actuar numa praça do Campo Pequeno a abarrotar de gente, com outra tanta a protestar do lado de fora, no desespero de quem não conseguiu comprar bilhete. Mesmo assim bvoltaram a acontecer cenas que se estão a tornar habituais nos espectáculos ao vivo em Portugal, devido ao número de bilhetes impressos exceder largamente a lotação do recinto (ver caixa).
Sem que a organização tivesse feito alguma apresentação e quase sem se dar por isso, Amigo deu início à sua actuação, por entre o ruído e as movimentações da assistência, preocupada em arranjar um lugar, à custa de muita persistência e algumas cotoveladas.
Tocou sozinho o primeiro par de temas. De forma virtuosística, compensando com garra e toneladas de técnica o que ainda lhe falta em interiorização e ouvido para o silêncio. Aos poucos juntaram-se-lhe um segundo guitarrista/flautista, um percussionista, um dançarino e uma cantora. Bons os dois primeiros, espalhafatoso em demasia o bailarino – pesadão, martelador do estrado, mais em jeito de carro de assalto que de toureiro citando a fera imaginária. Quanto à cantora, sofreu os efeitos de uma amplificação que lhe tornou demasiado estridente a voz, tyransformando os típicos “ayayayayays” ciganos em sirene de alarme. Mas foi agradável sentir a emoção levada a tal extremo, os cabelos da nuca a eriçarem-se, os tímpanos recolhyendo-se em súbita introspecção.
Paco de Lucia foi tudo isto e muito mais: mais músicos em palco – seis, fora ele – mais sentimento, mais profundidade, mais música, em suma. O flamaneco serviu-lhe de base para infindáveis (por vezes demasiado infindáveis) divagações pelos terrenos do jazz, com chegadas e partidas constantes. Destoou a intromissão de um saxofone soprano, morno e sem grandes explicações a dar. O dançarino de serviço fez o que o outro, antes dele, não conseguira: voou, entrou em choque com o solo e com o ar, dançou com o corpo inteiro. Do que Paco de Lucia conseguiu fazer da guitarra, estamos conversados: simplesmente tudo.
E mesmo assim, Al Di Meola, em trio com um segundo guitarrista e um percussionista, conseguiu fazer melhor. Sentado, sem ostentar a mínima pose de malabarista, o autor do recente “Heart of the Immigrants” deixou-se habitar pelo génio que, anos antes, John McLaughlin encarnara. Músico de fusão, sem dúvida, mas sempre em fuga aos lugares comuns, que teve em Di Meola intérprete inspirado. Ora em velocidade, ora na revelação do segredo mais íntimo, o guitarrista passou do telurismo à levitação, percorrendo o calor latino, as escalas indianas, mostrando um domínio completo do tempo e das possibilidades do contraponto. Teve nos seus dois companheiros parceiros à altura, com destaque para o percussionista, próximo da escola de Airto Moreira e Naná Vasconcelos.

Toque De Finados

Já passava das duas horas da madrugada quando John McLaughlin deu início a uma prestação que viria a ser desastrosa. Envelhecido, encenando poses de “guitar hero” despropositadas, o que mais chcou neste homem que no passado em parceirou com Miles Davis e ajudou a criar o “jazz rock” foi uma imensa tristeza, a ausência de chama, a imagem de um corpo e de gestos reduzidos a cinzas. Como se o fogo que ateara os Mahavishnou Orchestra e, mais tarde, nos Shakti, o tivesse consumido.
Depois, a sua banda também não ajudou. Um organista (e numa ocasião que se pretendeu de “grande jazz intimista”, na trompete) “louco”, no velho Hammond, sem controle nos dedos, e um baterista quadrado deram a ideia de uma “jam session”, quase de um ensaio, à boa maneira do que nos anos 60 se realizavam no clube de Ronnie Scott, em Londres. Chegou a ser confrangedor assistir ao modo penoso como o guitarrista tentava alinhar um solo, ao ponto de, numa das vezes, desistir, intimidado com os apupos e os gritos de “vai-te embora!” do público, refugiando-se na retaguarda do palco. A tentaiva desesperada de cativar o público agravou ainda mais a situação, através do recurso a truques que já não enganam ninguém: o órgão à procura do “rhythm ‘n’ blues”, a bateria em descontrole total num solo dos longos (àquela hora, caiu mal), dos que dão direito a ir tomar uma bica e a passar pelas brasas antes que algo de interessante aconteça. Foi tanta a fúria de agradar que o baterista derrubou um dos pratos, perante a hilariedade geral. McLaughlin ainda agradeceu, titubeante, abandonando o palco sem glória nem proveiro.
Ainda haveria tempo para um último equívoco. Quando o público pediu a reunião final dos quatro guitarristas, possibilidade que a organização deixara em aberto e que acabou por não se concretizar, e McLaughlin percebeu mal, julgando, na sua alucinação, que o pedido lhe era dirigido. Claro que mal regressou ao palco foi recebido com mais uma monumental assobiadela. Coitado. Um fim triste para uma corrida diferente que teve duas confirmações, a “morte” de um mito e um grande triunfador. Afinal sempre houve vencedores e vencidos.

Jean-Michel Jarre – “Chronologie”

pop rock >> quarta-feira, 16.06.1993


Jean-Michel Jarre
Chronologie
CD Dreyfuss, distri. Polygram



Entre dois megaconcertos para plateias de milhões, Jean-Michel Jarre lá vai gravando, para gigantones electrónicos, as suas peças com tanto de desmesuradas como de inconsequentes. Há excepções e essas mostram que o francês, quando quer, até consegue fazer valer a sua música com o recurso a outro tipo de argumentos. É o caso de “Zoolook”, com a participação de Laurie Anderson e Adrian Belew, ou do recente “Waiting for Cousteau”, que inclui uma faixa ambiental de cinquenta e tal minutos capaz de fazer Brian Eno corar de vergonha. “Chronologie”, peça única, ambiciosa do alto das suas oito subdivisões, não pertence infelizmente a esta categoria sendo, antes, mais um daqueles pastéis em que os sintetizadores lutam uns com os outros para ver qual grita mais alto e as melodias se revolvem até à náusea na fórmula, raramente ultrapassada, de “Oxygène”. “Chronologie 4”, uma das partes dançáveis, foi repescada por uma série de grupos “rave”, entre os quais os Sunscreen, através das habituais “mixes” e “remixes” em que a única função é fazer dar ao pé com o piloto automático ligado. Deve ser difícil ser-se casado com Charlotte Rampling e ainda ter tempo para fazer música interessante. (4)

Popol Vuh – “Nosferatu”

pop rock >> quarta-feira >> 02.06.1993


Popol Vuh
Nosferatu
CD Mantra, import. Lojas Valentim de Carvalho



Em plena viagem do “Kosmische Rock” alemão empreendida nos anos 70, a música dos Popol Vuh, através das visões orientalistas do seu líder e teclista Florian Fricke, optou pela serenidade de um piano acústico e pela contemplação de uma flor de lótus, em vez dos impulsos electrónicos dos sintetizadores e das guitarras transformados em máquinas de transe. Florian Fricke foi, curiosamente, um dos músuicos introdutores do sintetizador Moog na Alemanha, nos dois primeiros álbuns, “Affenstunde” e “In den Garten Pharaos”. A partir daí, o piano reservou para si o direito exclusivo das orações – até hoje e ao cabo de mais de trinta álbuns, a maior parte dos quais, infelizmente, não resistiu à passagem do tempo. O cineasta alemão Werner Herzog fez dos Popol Vuh compositores oficiais das suas bandas sonoras, de que este “Nosferatu”, subintitulado “On the Way to Little Way”, é exemplo. Predomina a veia mântrica do grupo, presente na combinação “sitar”-tampura-tablas, intercalada por texturas electrónicas reminiscentes das primeiras obras atrás referidas, culminando em coros de “mellotron” e no rock com mensagem mística, rezada alto pela guitarra de Danny Fiechelcher. Mas, como acontece em muitos álbuns dos Vuh, sobressai uma sensação de algo incompleto, como se à música faltasse qualquer coisa. Neste caso, talvez o filme. (6)