Arquivo mensal: Fevereiro 2026

Sharon Shannon, Clare, Broadlahn – “Encontros Musicais Terminaram Em Algés – Sharon Dos Sete Foles”

cultura >> sábado, 08.07.1995


Encontros Musicais Terminaram Em Algés
Sharon Dos Sete Foles


DEPOIS de uma falsa partida, os VI Encontros Musicais da Tradição Europeia terminaram em beleza no auditório do IPIMAR em Algés. Os irlandeses, para variar, fizeram miséria. Sharon Shannon, a acordeonista de Clare, e a sua banda rubricaram o final dos festejos com uma actuação onde mais uma vez ficou demonstrada a infinita vitalidade da “irish tradition”. Sharon, palmo e meio de altura, timidez nervosa, uma simpatia e sorriso irresistíveis, uma autêntica gatinha de sete foles, não deu espectáculo, no sentido teatral do termo. Apresentou rapidamente os temas, agradeceu os aplausos e tocou, de que maneira, o acordeão e o violino.
Navegando maioritariamente nos “medleys” de “reels”, mais adaptados ao fraseado intrínseco das “squeeze boxes” (como na Irlanda chamam aos acordeões, concertinas e tudo o que tem caixa e foles) o grupo fez paragens na música “cajun”, na tradição do Quebeque, no tal corridinho algarvio, numa valsa de “bal musette” e no clássico “Music for a found harmónium” dos Penguin Cafe Orchestra. Com Trevor Hutchinson, ex-Waterboys, no contrabaixo eléctrico, Donogh Hennessy, um guitarrista eficaz mas pouco imaginativo e Mary Custy, uma loura torrada pelo sol, no violino principal, a banda libertou alegria e adrenalina, mantendo um “drive” sem falhas, de verdadeiros “folk-rockers”, desenrolando o mapa de tesouros dos álbuns “Sharon Shannon” e do novo “Out the Gap”. A sala, cheia como um ovo, vibrou e exigiu dois mais do que merecidos “encores”.
Na primeira parte actuaram os austríacos Broadlahn que surpreenderam mais pelo inusitado da proposta do que propriamente pelas suas virtudes musicais. Desde o início, ao som de sirene de navio de uma trompa alpina, a estranheza instalou-se O vocalista principal, mais ou menos vestido de tirolês, foi o cicerone de uma música hibrida onde a tradição vocal do “yodelling” se combinou com um jazz farsola, a música indiana e africana e um certo humor instrumental (palmas, interjeições, uma marimba minimalista, pormenores deslocados). “Música no Coração” tocada por loucos que às vezes pareciam não saber muito bem o que fazer com os instrumentos. Entreteram, justiça lhes seja feita.
Ficou a frustração de não podermos ouvir em Algés os húngaros Mákvirag e os bascos Tomas San Miguel com Txalaparta. Se calhar até eram os melhores… Évora ainda vai poder ver hoje os Broadlahn e Mákvirag e amanhã os Frei Fado d’el Rei e Elementales. Guimarães, que este ano e com todo o merecimento voltou a ser a cidade eleita, assistirá ainda, no dia 10, aos Frei Fado d’el Rei e Mákvirag.

Laurie Anderson – “Laurie Anderson Apresentou ‘The Nerve Bible’ No Coliseu Mãe, Conta-me Uma História”

cultura >> sexta-feira, 07.07.1995


Laurie Anderson Apresentou “The Nerve Bible” No Coliseu
Mãe, Conta-me Uma História



Há quanto tempo não nos contavam histórias? Há quanto tempo não nos manifestavam o amor pelas palavras, não tanto pelo que elas dizem mas pelo calor que delas se desprende? Laurie Anderson pegou no futuro, nas palavras e nas imagens para nos fazer parar no tempo e pensar. Uma questão de evolução.

O Coliseu dos Recreios em Lisboa encheu para ver e ouvir Laurie Anderson e a sua tralha electrónica audiovisual. Esperava-se um espectáculo de pasmar, tecnologia em passagem de modelos, o futuro ali à mão. Bom, foi mais ou menos o que aconteceu sem ser impressionante por aí além. O espectáculo da noite de quarta-feira da “performer” norte-americana, integrado na digressão The Nerve Bible Tour, ponto final no ciclo Mistérios de Lisboa, dividiu-se em duas partes distintas.
Na primeira, Laurie evidenciou os seus dotes de contadora de histórias. Os monólogos substituíram a música. Na segunda, pelo contrário, a norte-americana de cabelo espetado tocou violino, cantou e chegou-se mais ao conceito da artista rock ‘n’ rol da nova idade.
Em termos de tralha esperava-se mais. Houve um painel triplo que abria e fechava, servindo de ecrã a excelentes imagens elaboradas por computador, alguns fumos banais, duas aparições franciscanas de raios “laser” e, na segunda parte, uma esfera e um cubo suspensos onde eram igualmente projectadas imagens. O violino fluorescente e a voz moldada no sexo masculino são “gimmicks” já conhecidos que não causaram qualquer surpresa. Pouco, a este nível, para as expectativas criadas. Mas funcional ao máximo.
O público foi deste modo obrigado a concentrar-se no essencial que, no caso de Laurie Anderson, são mesmo as palavras. O fogo, metáfora cara à autora, como elemento agregador e transmutador no ritual de transmissão da palavra, apareceu logo de início, na imagem de um livro em chamas. “Fahreneit 451, grau de destruição”, o fim e o início de uma nova forma de comunicação que regressou às formas primitivas da oralidade. Logo num dos primeiros temas a artista referiu esse movimento bidimensional do tempo que simultaneamente caminha na direcção do passado e do futuro. Laurie Anderson sentou-se à lareira electrónica e contou-nos histórias onde a credibilidade se confunde com o absurdo. Numa delas, um episódio, fictício ou não, pouco importa, passado no Tibete, a narração foi inteiramente feita em português. Uma história de palavras, do som das palavras e do seu efeito mágico eu terão salvo uma vida. A vibração pura e simples da voz, cordão umbilical de uma humanidade anterior a Babel.

O Fantasma De John Cage

A questão, posta por Laurie Anderson no início e no fim do espectáculo, é só uma: “As coisas estão melhores ou piores do que antes?”.
Convocados o físico Stephen Hawking e o fantasma de John Cage, nem assim surgiu uma resposta conclusiva. O tempo, omnipresente nas imagens de relógios, no som dos batimentos cardíacos, relativizado e transcendido no tempo subjectivo das histórias.
A segunda parte teve uma estrutura mais convencional. Feita de canções, se assim lhes quisermos chamar. Laurie Anderson solou no violino monstruosamente amplificado e distorcido, desafinou como qualquer ser humano vulgar e ironizou sobre o discurso e os jargões da modernidade que se ligam a Internet e ao ciberespaço, fabulosas fontes de lixo informativo que entre outros prodígios nos permitem estar a par, por exemplo, dos boletins meteorológicos de todas as regiões do globo. À saturação das palavras e da pluralidade dos seus sentidos contrapunham-se, no ecrã, imagens de povos e danças primitivas.
E foi assim, alternando histórias de “The Ugly One with the Jewels” com canções de “Bright Red” que Laurie Anderson respondeu, de forma subtil, à tal questão, “Estamos melhor ou pior do que antes?”. A resposta é que estamos na mesma. Ou como dizia John Cage, “estamos mais rápidos mas somos demasiado lentos para o perceber”.

Vários (Frei Fado d’El Rei, E Zezi, Elementales, Klezmatics) – “Encontros Musicais De Tradição Europeia – Ferreiros Do Vesúvio”

cultura >> quarta-feira, 05.07.1995


Encontros Musicais De Tradição Europeia
Ferreiros Do Vesúvio



COM UMA hora e meia de atraso, teve início no sábado, no auditório do Ipimar (Instituto Português de Investigação Marítima), a 6ª edição dos Encontros Musicais da Tradição Europeia.
Uma hora e meia de seca, a olhar para as paredes, é aborrecido. Predispõe mal. Faz espumar pela boca. Um elemento da organização, a Etnia – que não há meio de acertar no melhor modo de promover e realizar esta iniciativa -, explicou que não havia bateria. Também não havia energia. Ou melhor, havia, mas não dava para o som e para as luzes ao mesmo tempo. Optou-se pelo som e o espectáculo decorreu à média luz, sob o amarelo mortiço de umas lâmpadas do tecto. Incompreensível e inaceitável. Como é possível ninguém ter experimentado previamente as condições do recinto?
Já com o tal atraso exasperante em cima entraram em cena os portugueses Frei Fado d’El Rei, para uma plateia escassa mas mesmo assim disposta a passar um bom bocado. Vieram todos de negro. Coitados, tão novos e já de luto. Com eles veio a saudade, o fado, as sombras, o destino. O Portugal para exportação que está a render. Sobre uma base rítmica a atirar para o quadrado, assim ao estilo de quem se esforça por não sair do compasso, mas compenetrados do seu papel de jovens melancólicos que tocam e cantam para afugentar as suas mágoas, os Frei Fado moveram-se entre a pré-primária da música antiga, encostos aos Madredeus e aos Dead Can Dance e um gosto pela folk portuguesa e espanhola. Louve-se a veia criativa de algumas composições e a voz realmente bonita de Carla Lopes, ainda com potencialidades imensas por explorar.
Depois do velório, chegou a festa grossa. Os E Zezi trouxeram de Itália a fúria mas também a celebração de Dionísio, em rituais de batida implacável e cânticos de júbilo ou de denúncia. Oriundos da cintura industrial de Nápoles, fizeram acompanhar a música de constantes acusações à Mafia e comparações entre as realidades de Itália e Portugal: “Na nossa região a mafia destruiu tudo excepto o Vesúvio”, “a mafia acabou com a música tradicional e pôs no seu lugar o Michael Jackson e o Elton John…”, “Em Portugal, como em Itália, há confusão, corrupção, fábricas que fecham!”. Entre uma denúncia e uma analogia, o grupo, onze homens e uma mulher, batia no chão e no cérebro, ora elevando a voz colectiva ora se recolhendo no quase choro da vocalista.
Num dos temas jubilatórios a música explodiu em gestos de libertação orgiástica, os músicos cirandando pelo palco em gritos e incitações, tocando cornetas de brinquedo e soltando no ar bolas de sabão. O ritual estendeu-se à assistência. O movimento ultrapassou os limites do palco. Um dos vocalistas desceu do estrado e convidou uma rapariga da primeira fila para dançar. Estranho e belo, assistir a esta cerimónia onde os gestos arcaicos se confundem com o acto revolucionário do presente. Os E Zezi são os guardiões do vulcão. Ferreiros de uma humanidade que teima em não se deixar devorar pelas mandíbulas do capitalismo.
Segunda-feira foi melhor, em termos organizativos. Já havia luz, cumpriu-se a hora, a sala encheu. Atacaram em primeiro lugar os Elementales um grupo de fusão de Madrid. Engraçada, a mistura, já muito esbatida, do folclore castelhano com um jazz “mainstream” permeado de influências ciganas. Mas engraçada somente ao terceiro ou quarto tema, porque a fórmula se revelou demasiado estática e repetitiva. Numa dose mais forte, este “fusfolk” (folk de fusão) de baixa pressão tem um efeito sedativo, atenuado aqui e ali por algum assomo de energia do violinista Enrique Valino.
A vida no estado desperto regressou com os Klezmatics, banda de música “klezmer” residente nos Estados Unidos. Judeus com ritmo e uma dose de saudável loucura, como já nos tinham sido apresentados nos álbuns, “Rhythm + Jews” e no novo “Jews with Horns”, os Klezmatics entusiasmaram a plateia com os seus “medleys” sacudidos por constantes mudanças de velocidade e impulsionados pelos sopros – sax, clarinete, clarinete baixo e trompete – mas sobretudo pela poesia que se insinua do violino de Alicia Svigals. Uma ou outra fífia do vocalista e execuções instrumentais onde o espalhafato encobre por vezes a ausência de um verdadeiro virtuosismo, não impediram que o público aderisse por completo à extroversão dos Klezmatics, casamento bem sucedido das reminiscências tradicionais com a atitude e o estilo de verdadeiros cultores da “downtown” nova-iorquina.
Os Encontros terminam amanhã em Algés, com os austríacos Broadlahn e a irlandesa Sharon Shannon, prosseguindo até dia 10 em Tondela, Évora e Guimarães.