Arquivo mensal: Setembro 2022

Dominion – “Lost”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 12 DEZEMBRO 1990 >> Pop Rock >> LP’s


DOMINION
Lost
LP e CD, KK



Estafadas as fórmulas, a “electronic body music” agoniza, incapaz de se libertar dos seus fantasmas. Mil bandas do género parecem uma só. A normalização assinou a sentença de morte de um género que hoje tem como fiéis apenas os sadomasoquistas convictos, os adeptos da dança sonambúlica ou simplesmente os surdos. Os Dominion (formados por Andrew Szava-Kovats, membro fundador dos Data Bank A) incluem-se na ala mais experimental do movimento, ao lado dos Klinik, Vomito Negro e Delerium (há mais algumas centenas de nomes, mas talvez não valha a pena referi-los a todos…), e o seu álbum de estreia, “Manhunt”, conseguia minimamente perturbar (o principal objetivo de todos estes grupos), através de monstruosas cadências repetitivas que os situavam em lugar privilegiado na seita dos “papões”. Em “Lost” alternam peças “experimentais” (ruído + “samples” + ruído) com temas mais “dançáveis” (computadores de ritmo + vozes graves e ameaçadoras, neste caso curiosamente semelhantes à de Frank Tovey/Fad Gadget). Desta vez, nem sequer pequenos sustos. O terror encontra-se hoje noutros comboios-fantasma. **

Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #76 – “The United States of America (César Laia)”

#76 – “The United States of America (César Laia)”

Fernando Magalhães
19.02.2002 150339
GRUUUNF. Um dos Cds que estavam na mala que me foi roubada na passada e fatídica sexta-feira, era precisamente dos KALEIDOSCOPE, que um amigo meu me arranjara e que, deste modo, não cheguei a ouvir. Tem por título “Beacons from Outer Space”, qualquer coisa assim e parece que é muito bom.

Já conhecia o “Side Trips” (à venda na Discolecção, nos Restauradores) mas este, confesso que não me impressionou. É uma mistura de elementos demasiado díspares – psicadelismo, blues, pop, música egípcia (!!), etc – que nunca chega a produzir um todo verdadeiramente coerente e convincente.

De resto, prefiro os KALEIDOSCOPE ingleses que depois mudaram de nome para FAIRFIELD PARLOUR e gravaram para a Vertigo um álbum delicioso: “From Home to Home”, combinação psicadélica/rural/pop/folk onde são visíveis conotações com os Incredible String band, Beatles e Pink Floyd (de Syd Barrett) mas com uma mística e suavidade únicas.

FM

Suzanne Vega – “A Autora De ‘Luka’ Canta Hoje Em Cascais E Amanhã No Porto – Os Encantos Da Casta Suzanne” (concerros | antevisão | artigo de opinião)

PÚBLICO SEXTA-FEIRA, 7 DEZEMBRO 1990 >> Cultura


A autora de “Luka” canta hoje em Cascais e amanhã no Porto

Os encantos da casta Suzanne


Suzanne Vega canta hoje à noite no Pavilhão de Cascais e amanhã no Coliseu do Porto. O PÚBLICO foi ouvi-la a Madrid e antecipa o que pode suceder nos concertos portugueses da cantora nova-iorquina. Os madrilenos gostaram muito.



Suzanne Vega entusiasmou os cerca de dois mil que se deslocaram, quarta-feira, a uma discoteca erguida num cenário de Disneylândia durante pouco mais de uma hora. Na voz da cantora, Nova Iorque pareceu uma cidade onde apetece sonhar.
Para falar verdade, nem sequer foi em Madrid, mas sim no Parque Sur, local de diversão, uma espécie de Disneylândia, situado a sul da capital. O concerto propriamente dito realizou-se numa discoteca algures no interior do Centro Comerical do Parque, a Universal Sur. “Madrid es Universal”, explicavam os dizeres impressos nas “t-shirts” da organização, tentando compensar, com o trocadilho, o desinteresse a que o acontecimento foi votado, na capital. Em Madrid, nenhuma excitação. Nem um cartaz.
Steve Rooker era o nome agendado para a primeira parte (e não Peter Blegvad como se espera que aconteça, hoje à noite, no Pavilhão de Cascais e, amanhã, no Coliseu do Porto), que afinal não tocou. Ninguém deu pela falta, entretidos que estavam todos a acompanhar, num ecrã gigante instalado no local, a transmissão direta do encontro de futebol Barcelona-Real Madrid. Ganhou o “Real” por um a zero e Suzanne teve de esperar.
O ambiente da “Universal” ia-se compondo e aquecendo gradualmente. Enquanto o espetáculo não começava, cada um fazia o que podia para dar nas vistas, com a discoteca transformada em “passerelle”. Eles, maioritariamente de jeans e blusão de cabedal ou kispo “Michelin”. Elas, de casaco comprido de pele, (des)cobrindo saias quase inexistentes. Tudo farpelas impecáveis, com ar de terem sido acabadas de comprar no “Corte Inglês” ou nos “Preciados”. Entre a Madrid Universal e o que se espera para Lisboa e Porto, interpõe-se a Europa e a sobranceria da peseta…
Contrastando com a ousadia das “chicas”, Suzanne Vega surgiu em palco envergando um vestido de grávida, ar casto e a pose “Bon Chic Bon Genre” que a caracteriza. “Atacou” em força com dois temas do recente “Days of Open Hand”, “Dust in the Pipeline” e “Tired of Sleeping”, num registo mais duro do que no disco. Pausa para cumprimentar o público, com o “Olá Espanha” da praxe. Quando mencionou a sua proveniência nova-iorquina todos aplaudiram, mostrando, uma vez mais, até que ponto são exigentes “nuestros hermanos”.
Não foi preciso muito tempo até a assistência se render sem condições, acompanhando com palmas cada canção, uma delas cantada por Suzanne Vega sem qualquer apoio instrumental, como que querendo demonstrar por que motivo é hoje considerada uma das melhores vozes da música popular americana, pesem embora, na ocasião, as deficiências do som e a pobreza de um show de luzes limitado aos triviais focos coloridos.
Se Suzanne Vega consegue cativar, não é decerto pelo lado do espetáculo, mas somente pela comunicação que a sua voz consegue estabelecer e pela excelência das canções. Confinando o jogo cénico a um tímido bailado sobre o palco, as atenções concentram-se no rosto pálido e no corpo franzino, presas às entoações encantatórias da voz. A autora de “Luka” sabe como criar uma atmosfera intimista, não fazendo jus ao apelido de estrela, apelando ao invés à participação da assistência.


Sem sombra de pecado

Ao referir-se a Nova Iorque como cidade emblemática do medo e da violência, Suzanne fez um sorriso suave e afirma que é isso que a excita. Cultiva, por outro lado, a aparência frágil e a pose cândida que a tornam como que a emanação angelical do caos urbano. Nela, temas ou palavras mais duras ganham uma carga poética e uma consistência quase irreal; como se toda a violência do mundo pudesse ser vencida, por força do cantar.
Conquistando o público, só faltava o golpe final traduzido na sequência final, com “Luka”, “Solitude Standing”, “Book of Dreams” e “Men in a War”. Voltou ao palco para dois “encores”, num deles cantando de novo sem o resto da banda, em contraponto com uma frase rítmica, marcada (no tempo certo) por todos os presentes, em coro.
A Madrid Universal despediu-se da cantora, em apoteose. Se bem conhecemos o calor e o comportamento habitual das audiências portuguesas, é caso para acreditar que por cá vai ser ainda melhor. “Seguramente”…