Arquivo mensal: Setembro 2022

Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #78 – “Pensamentos sobre o rock – parte 2 (Victor Afonso)”

#78 – “Pensamentos sobre o rock – parte 2 (Victor Afonso)”

Fernando Magalhães
19.02.2002 170559
quote:
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Publicado originalmente por Victor Afonso

“Satie (ainda que as peças deste para piano pareçam brincadeiras de crianças). ________________________________________
Olá Victor

No essencial concordo com (quase) tudo o que escreveste. Com uma ressalva, porém, e sobre isto aproveito a frase sobre o Satie, com a qual não estou de acordo.

Prende-se então esta minha “dúvida” sobre o que é ou não complexidade. É que me parece redutor analisar esta conceito unicamente à luz da forma/estrutura/arquitetura musical de uma dada peça, ou seja, à matemática pura e simples.

Esta complexidade pode ser – e é-o muitas vezes – um vetor emocional, sentimental ou psicológico. Algo, apenas percetível ao nível da interpretação (não necessariamente técnica) ou da escuta subjetiva. Por isso cada maestro ou cada executante sentirá/interpretará a mesma peça musical de forma diferente.

Precisamente, no caso de Satie a complexidade não está na pauta propriamente dita mas na densidade emocional da sua música (o tipo era maçon, não o esqueçamos…).
Qualquer pianista de meia tijela, é verdade, conseguirá tocar AS NOTAS de uma Gymnopédie ou de uma Gnossienne mas poucos são os que conseguem fazer a transposição do universo interior contido na música do compositor.
Há versões absolutamente pindéricas e “light” da sua música.

Mas se ouvires a interpretação dos temas mais clássicos e conhecidos de Satie por um pianista como REINBERT DE LOWE (que conheci há muitos anos através do “Em Órbita”) perceberás melhor o que quero dizer com esta outra forma de entender o termo “complexidade”.
O jogo de tensões/silêncios, o modo como cada tecla é percutida (como se tivesse sido exigida uma vivência de anos, para o fazer…), modo como cada pausa é estendida revelam uma coisa difícil de atingir: sabedoria. De tal forma esta interpretação exigiu tudo do pianista que este voltou novamente às mesmas peças, cerca de 20 anos depois, como se a música de Satie continuamente lhe sugerisse a necessidade de aprofundar mais e mais a sua abordagem.
20 anos para tocar “peças que parecem brincadeiras de crianças” !!!????. Não me parece…

Da mesma forma, há peças clássicas tecnicamente extremamente complexas que contém uma enorme parcela de vazio…Ou seja, na prática não são complexas na medida em que o vazio nunca é complexo.
Um computador pode escrever uma peça formalmente mais complexa que qualquer humano, ao ponto de ser impossível a sua execução.

A música de BRIAN ENO é complexa? Que valor tem um álbum como “Discreet Music”, por ex,, criado de forma aleatória por um sistema de produção sonora praticamente independente da componente humana? E, lá está, surpreendentemente, as sobreposições harmónicas dos vários loops postos “a correr” adquirem insuspeitos detalhes, de uma inultrapassável riqueza/complexidade. A dado ponto, como no minimalismo, a música passa a desenrolar-se sobretudo no cérebro do ouvinte, onde tudo se torna possível.

A música de Mozart na interpretação de Waldo de los Rios continua a ser complexa?

Chegamos ao nó da questão: O que é ou não música, afinal de contas? : )

saudações musicais complexas : )

FM

Philadelphia Five – “Trilogy”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 12 DEZEMBRO 1990 >> Pop Rock >> LP’s


ROBOPOP

PHILADELPHIA FIVE
Trilogy
LP e CD, KK



A história é a seguinte: há dois anos a KK Records editava o single de 12 polegadas, “Bump! Jerry”, previsto para ser o primeiro de uma série de três discos representativos dos cinco anos que a banda levava já de carreira. Para surpresa de todos, o tema tornou-se um êxito, subindo mesmo ao Top 5 das listas de dança, nos Estados Unidos. Seis meses depois, saía o segundo, um mini-Lp contendo meia dúzia de temas, intitulado “Heaven”. O terceiro e último, por motivos desconhecidos, nunca chegaria a ser editado. “Trilogy” seria, enfim, a peça que faltava, em alternativa ao projeto original.
Dela fazem parte remisturas de temas dos anteriores discos, bem como outros considerados pela banda como “uma espécie de anexo à série inicial”. Desde as batidas iniciais de “Primal Screen” até à mensagem derradeira de “Brain” que as pulsações cardíacas e os circuitos cerebrais desatam a funcionar em registos e a velocidades difíceis de sustentar. Se os Kraftwerk soubessem o que iriam provocar quando se resolveram a fazer música para “robots”… Os Philadelphia Five levam os sequenciadores e os computadores até aos limites da mecanização absoluta.
A matemática ao serviço do ritmo. A dança como estado de hipnose. A emoção, o resultado da acumulação e da repetição. Implacável. O amor é sexo. O prazer, dor. A comunicação humana tornada possível apenas no círculo infernal da relação senhor/escravo. Engrenagens postas a funcionar pelos comutadores Throbbing Gristle e Cabaret Voltaire (da fase inicial), acionados por Giorgio Moroder. A “electronic body music” levada ao extremo da monotonia assumida e da violência como estímulo orgástico que sintoniza os corpos na frequência da dança cibernética. Em “I am Shared”, Eros aloja-se no córtex, onanista na solidão a dois, latejante nos múltiplos orgasmos do Inferno: “Vamos ter um orgasmo que até você pode compreender” (“Heaven”). Os maquinismos trituradores apenas cessam quando nascem as palavras – absurdas e trágicas na sua lógica desumana: “Espera um momento, já alguma vez viste o teu cérebro?/ Bem… eu…/ Tu, ou outra pessoa qualquer?/ (…)/ Então o que te leva a pensar que tens um?”. Antes da eletricidade, a dança do diabo era a valsa… ***

Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #77 – “Free Jazz [ Ayler . Coltrane . Sun Ra ] (Pedro Gomes)”

#77 – “Free Jazz [ Ayler . Coltrane . Sun Ra ] (Pedro Gomes)”

Pedro Gomes
20.02.2002 180630
no index da página encontras escritos sobre Sun Ra e mais gente . incluindo textos sobre a vinda dele e da sua Arkestra em Portugal . alguém os foi ver ?

Fernando Magalhães
20.02.2002 180637
Eu estive nesse concerto do SUN RA. Mais teatro e festa africana do que música.
Os músicos passaram grande parte do tempo a dançar e a marchar pelo recinto. Quanto ao Sun Ra praticamente limitou-se a fazer as introduções de cada tema, ao piano. 15 ou 20 segundos e parava, para se remeter ao papel de maestro da sua orquestra de “loucos”!
Mas lembro-me de que…gostei. 🙂

FM