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Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #3 – “Férias + Péon + Caravan + Fios”

#3 – “Férias + Péon + Caravan + Fios”

Fernando Magalhães
31.07.2001 150329

Entro amanhã de férias. Yuuuuuuuuuuppppppiiiiiiiiiii!

O disco “Isué” da MERCEDES PÉON, mencionado pelo Rui C, (que tem andado por aí a actuar ao vivo, trazida pelo Sete Sóis Sete Luas) é, de facto, muito bom.
Uma abordagem totalmente não convencional da folk galega que, sob certos aspectos, lembra os discos de INGRID KARKLINS ou da australiana MARA (uma raridade a descobrir, o álbum “Images”). E a voz da senhora é mesmo dferente!

ATENÇÃO: Daqui a uma semana, mais dia menos dia, vão estar disponíveis em reedições remasterizadas e com temas extra, os álbuns dos CARAVAN, expoentes do som de Canterbury. Jazz, psicadelismo, canções pop iluminadas, um chá das cinco com Alice num relvado inglês ao pôr-do-sol, vozes de cetim, uma delícia, garanto-vos.

Os discos que vão estar disponíveis são:

– If I Could do it all over again, I’d do it all over you (9/10)
-In the Land of Grey and Pink (10/10)
– Waterloo Lily (8/10)
– For Girls who Grow Plump in the Night (7,5/10)
– Caravan & the New Symphonia (ao vivo – 7/10)
– Cunning Stunts (6,5/10)
– Blind Dog at St. Dunstans (6/10)

saudações FM

PS para o César: sim…sempre que trago ao pescoço uma credencial com fio sinto carregar sobre mim todo o peso do universo. Uma responsabilidade que o Junkas (perdão, ele chateia-se quando lhe chamamos assim, Vítor Juncas é que estyá correcto) jamais sentirá.

Vários – “Poucos Mas Bons” (notícia | artigo de opinião)

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 27 JUNHO 1990 >> Videodiscos >> Notícias


POUCOS MAS BONS

Os melhores discos quase ninguém os conhece. Como assim? Vamos explicar. Um exemplo: os “O Yuki Conjugate” são uma obscura e excelente banda, praticante de uma música misteriosa e fascinante, não facilmente catalogável. Devia ser conhecida no planeta inteiro, mas de facto apenas 268 dos seus habitantes ouviram falar dela, entre os quais cinco são portugueses. Uma ou outra discoteca nacional, daquelas que arriscam e importam, manda vir cinco exemplares. Quatro desses portugueses adquirem o disco, dez segundos após este ter sido colocado no expositor da loja ou mesmo antes. O disco restante é levado por engano por alguém que pensava tratar-se de Yoko Ono. O quinto português conhecedor fica a chuchar no dedo porque vive em Viseu, não soube que o disco estava disponível, ou não foi suficientemente rápido. De entre os contemplados, um escreve para algum lado e faz uma crítica elogiosa. Trinta pessoas leem o artigo e pretendem adquirir o disco. A discoteca em questão vai importando quantidades progressivamente maiores de exemplares à medida que a procura aumenta. Satisfeitos todos os pedidos, passa-se à aposta seguinte. Seis meses depois, uma editora ligada a uma multinacional ouviu dizer que o disco era um sucesso de vendas no mercado independente e resolve importar 10.000 exemplares do dito. Não se vende nenhum. A editora, a braços com um produto que desconhece e que não sabe como promover, diz que o disco é mau e não vende. Segue-se o habitual estendal de lamentações de mais uma história triste do nosso pobre panorama editorial.
Vamos lá ver se conseguimos alterar o estado de coisas. Para já, escrevendo e informando regularmente, neste canto aconchegado, sobre bons e desconhecidos nomes e discos que regularmente por cá aterram, nas tais discotecas especializadas.
Por exemplo, “Title In Limbo” – um estranho objeto vinílico gravado a meias pelos anónimos e bizarros Residents e os Renaldo And The Loaf, ainda mais bizarros e divertidos. “Title” é uma ópera épico-cómica eletrónica em que o cantor principal é Bugs Bunny. Foetus, depois do duplo “Sink”, tem já um novo maxi com três temas: “Butterfly Potion” é o principal. “Smiles, Vibration & Harmony” é uma homenagem de variadas bandas (entre as quais os Sonic Youth) ao ex-Beach Boy Brian Wilson, 30 anos depois, de novo na berra. Finalmente, para os fanáticos do folk, o álbum estreia dos Ad Vielle Que Pourra, dois canadianos, dois belgas e um bretão apostados em tornar a música tradicional de expressão francesa num formidável espetáculo de virtuosismo e inspiração. As discotecas Contraverso e VGM fazem as despesas.

Cabaret Voltaire – “Cabaret Da Morte” (a discoteca)

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 27 JUNHO 1990 >> Videodiscos >> Pop

A DISCOTECA


CABARET DA MORTE

Os Cabaret Voltaire, outrora preocupados com a utilização subversiva e ameaçadora da eletrónica como “mind surgery”, manipulação da mente, criação de fantasmas sintéticos, gravaram agora “Groovy Laidback and Nasty”, álbum rendido a um comercialismo de plástico e à dança como exercício sonambúlico e imbecil. É pena.



Para todos aqueles que têm seguido com atenção e alguma devoção as estratégias ambíguas da dupla Stephen Mallinder/Richard H. Kirk, responsável por não poucos momentos realmente arrepiantes de eletricidade em forma de música ao serviço das artes do demónio, é doloroso assistir à decadência de uma banda que da originalidade e radicalismo iniciais reteve apenas os espasmos e automatismos agora esvaziados de sentido. Sejamos então um pouco saudosistas, voltando atrás e recapitulando os dias de perigo e glória de um grupo de terroristas sónicos que certa vez se lembrou das granadas “dada”, lançadas de um café a que chamaram “Cabaret Voltaire”.

Indústrias Pesadas

Sheffield, Inglaterra, indústrias pesadas, 1973 – berço onde foram criadas aberrações monstruosas, híbridos violentos e vingativos que, anos mais tarde, viriam a impor novas regras aos desorientados “punks”, confusos entre os alfinetes e um niilismo ideológico e musical, cedo esgotado no vazio de alternativas. A chamada “música industrial” resolvia o dilema. Depois da violência e da destruição gratuita, a violência maior da despersonalização e dos totalitarismos infernais. Máquinas gigantescas e trituradoras a reduzir o humano à condição de escravo, numa nova sociedade metálica, inteligente e implacável. E o reino dos senhores, super-homens (o “Empire State Human” dos Human League), máquinas também, para quem Nietzsche era afinal apenas um pobre louco humano que até chorava, comovido, abraçado aos seus irmãos cavalos. Os Cabaret Voltaire e os Human League personificavam esta atitude, utilizando armas diferentes para alvejar um mesmo alvo – a criação de uma música desmesurada ao serviço de filosofias e propósitos sombrios e politicamente inconfessáveis. Os Cabaret Voltaire permaneceram mais tempo no inferno.

Fascinação

“Mix-up” de 1979 abriu as hostilidades, correspondendo à fase experimental de toda a discografia gravada para a Rough Trade. Montagens e desmontagens de ruídos e vozes parasitárias. Fitas magnéticas estragadas, repetindo-se infinitamente, e sequenciadores com o freio nos dentes fazem da audição deste disco uma aventura no reino da escuridão e do horror. Em “Heaven and Hell” uma voz grita em simultâneo as duas palavras; dor e prazer confundidos na vertigem do tempo, acelerado até à imobilidade. Visão terrífica da realidade, transformada em instante fotográfico. Relâmpago de medo.
Depois de um álbum ao vivo, “Live at the Y.M.C.A., 1979”, a obra-chave “The Voice of America”. Manifesto impressionante da estética do pânico (mais tarde cultivada por grupos como os Coil ou Clock DVA) e da manipulação subliminar do inconsciente. “Kneel to the Boss”, “News from Nowhere” ou “Messages Received” são títulos elucidativos das intenções de Kirk, Mallinder e dezenas de homens-sombra, apostados na substituição dos alicerces e símbolos da sociedade ocidental cristã por outros de sinal contrário.
Em “Red Mecca” (1981), o monstro despe a máscara. O nome do diabo é finalmente proferido. “Spread the Virus”. Fanfarra apocalíptica e tenebrosa. O ritmo desumano e inexorável da agonia e das trevas finalmente libertas. Música da morte. Para trás ficavam a elegância e beleza dos computadores dos Kraftwerk e a sedução longínqua e numenal da missa negra celebrada por Bowie em “Low”.
“Three Mantras” é um obscuro exemplar de música eletrónica ritual e “2×45” (1982) investe pela primeira vez num “funky” de tons orientais, apelando à dança como veículo privilegiado de divulgação ideológica. Em 1983, dois discos – “Hai!”, gravado ao vivo no Japão, e “The Crackdown” (primeiro, gravado para a Some Bizarre/Virgin, com honras de edição nacional e já sem Chris Watson, que viria a formar o obscuro Hafler Trio), fracasso artístico rotundo, fruto de uma mal contida e mais mal dirigida ânsia comercial. Nem com “Fascination” (incursão descarada no território dos Human League) ou a capa de Neville Brody, os Cabaret Voltaire lograram alcançar o êxito entretanto atingido pela Human League, já então rainha de discoteca pela mão da sua “pop star” Philip Oakey.

Visão Dupla ou Falta de Visão?

“Johnny Yesno” (1982), banda sonora de um vídeo da “Doublevision”, produzido e realizado por Peter Care, e “Micro-Phonies” (1984) são duas tentativas relativamente bem sucedidas de retorno à linha dura, no segundo o sampler servindo de brinquedo nas técnicas de “scratching” e “cut-up” em que Kirk e Mallinder se tinham tornado mestres. Ganhava-se em sofisticação sonora o que se perdia em inspiração. “The Covenant, the Sword and the Arm of the Lord” (1985, título de uma seita americana neo-nazi) consegue vencer onde outros discos soçobraram – aliando o experimentalismo tornado imagem de marca a uma acessibilidade capaz de alguns cometimentos em termos comerciais. “Code” (1987) e sobretudo o recente “Groovy, etc.” (gravados para a Emi-Parlophone) não oferecem quaisquer dúvidas quanto ao esgotamento do filão. Este último uma autêntica farsa, com a voz de Mallinder a tentar a todo o custo parecer-se com a de Green Gartside, dos Scritti Politti, enganiçando-se inglória e ridiculamente sobre um fundo rítmico “house” oportunista. Como boas recordações da época áurea de todas as perversidades restam ainda “Eight Crepuscule Tracks”, gravado para a editora belga Les Disques du Crépuscule, e o maxi duplo “Drinking Gasoline”. O Cabaret original fechou as suas portas.