Arquivo mensal: Abril 2022

Suzanne Vega – “Days Of Open Hand”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 2 MAIO 1990 >> Videodiscos >> Pop

FEITIÇO


SUZANNE VEGA
Days Of Open Hand
LP e CD A&M, Warner Bros, edição Polygram



Vega é nome de estrela. “Fria” e cintilante como a voz de Suzanne, possuidora da estranha capacidade de nos prender nos confins do seu firmamento. Voz que lentamente se insinua e vai escorrendo pela alma adentro, aos poucos revelando recessos desconhecidos, inundando de luz o que antes era escuridão, como uma brisa fluindo por entre neblina e céus azuis. As canções de “Days of Open Hand” são leves como pólen, suaves e difusas como nuvens, transparentes, límpidas e com a cor de bolhas de sabão. Canções que não compreendemos mas sentimos, “Between the pen and the paperwork, I know there’s a passion in the language, between the muscle and the brain work, there must be feeling in the pipeline” (“Big Space”). Afastando-se de alguns terrenos mais concretos, como os da denúncia social, exemplificados no célebre “Luka” do anterior álbum, “Solitude Standing”, Suzanne Vega opta, neste seu novo trabalho, por uma abordagem mais difusa, entrecruzando sentimentos e pensamentos num “puzzle” de sons e palavras, apontando para múltiplas direções e tecendo uma complexa rede de formas e sentidos, como as de um caleidoscópio girando nas mãos de uma criança. O disco permanece, de ponta a ponta, fiel a um ambiente de mistério e serenidade, que nem as palavras mais fortes, de temas como “Men in a War” ou “Fifty-Fifty Chance”, conseguem quebrar. Suzanne esconde, ao mesmo tempo que revela, as suas preocupações e sonhos, em canções que se esvaem em vapores inebriantes, agarrando-nos por onde é mais difícil fazê-lo: por dentro, sem reservas e, por vezes, sem sequer nos darmos conta do feitiço. Para a construção de tal clima contribuíram, em grande parte, a produção da própria Vega, em conjunto com Anton Sanko, o homem das teclas e dos computadores, e a escolha criteriosa de um naipe de músicos, do qual sobressaem os nomes de Michael Blair, percussionista habitualmente ligado às experiências de fusão nova-iorquinas, Glen Velez e Richard Horowitz, respetivamente nos tambores e na flauta egípcia (no tema “Room Of The Street”) e John Linnell, dos They Might Be Giants, que toca acordeão no tema de abertura “Tired Of Sleeping”. Philip Glass, que, a par de Michael Nyman, parece apostado em investir em força no negócio da música pop, mil vezes mais rentável que o das óperas, assina os arranjos das cordas em “Fifty-Fifty Chance”, ajudado de perto pelo inevitável Kurt Munkacsi. Estes e mais uma mão-cheia de músicos, presentes na sessão, influíram decisivamente, de forma discreta mas incisiva, no resultado final de “Days Of Open Hand”, terceiro e, até agora, melhor disco da cantora. Uma palavra final para a capa, um belíssimo arranjo gráfico de uma fotografia de Suzanne, que talvez nunca tenha tocado no famoso clube CBGB, mas que, desde agora, se integra em definitivo como membro de pleno direito no não menos disputado BCBG, “Bom Chic Bom Genre”.

Lou Reed E John Cale – “Songs For Drella – A Fiction”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 2 MAIO 1990 >> Videodiscos >> Pop

FICÇÕES


LOU REED E JOHN CALE
Songs For Drella – A Fiction
LP, Warner Bros, import. WEA



Andy Warhol, a quem este disco é dedicado, é Drella, junção de Drácula e Cinderella, na mesma pessoa. Warhol, já se sabe, é um mito, referência obrigatória de uma certa cultura, outrora “underground”, americana, e, mais especificamente, nova-iorquina. Personagem vampírica de modas, estilos e escândalos de uma cidade fotografada em rápidos “polaroids”, no seu aspeto mais artificial e decadente. Isto, claro, se não quisermos considerar Nova Iorque como o símbolo máximo do artificialismo e da decadência, a realidade feita imagem.
Warhol compreendeu isto mesmo, ao transformar uma lata de sopa ou a estrela Monroe em simples imagens, repetidas “ad infinitum”, em múltiplas variantes, a aparência sempre se sobrepondo ao sentido essencial – ou, dito de outro modo, reduzindo a essência à imagem exterior e fotográfica que adquire, por este processo, um sentido autónomo do ente que lhe deu origem. Simples objeto de consumo doméstico (a lata de sopa) ou gente de carne e osso (Marilyn), são, afinal, exemplos paradigmáticos de uma mesma atitude redutora do real a imagens de marca, réplicas que, paradoxalmente, se elevam, por força da repetição e ampliação sucessivas, à superior condição de mitos.
Warhol executou a sua obra de arte suprema ao aplicar a si mesmo o método, à custa de uma constante e criteriosamente controlada sobrexposição, diante dos mecanismos transformadores dos “media”. Se foi “Cinderella”, como personagem emblemática da passividade, foi-o, decerto conscientemente e de forma calculista. Warhol vampirizou-se a si próprio, através dos outros, sabendo como se constrói o mito a partir do vazio. “My life is disappearing from View”? – tanto melhor, diria Drella.
Sedimentada a ilusão, o processo inverteu-se. John Cale e Lou Reed, partindo da imagem mítica do artista, procuram, neste disco biográfico, atingir através de uma simplicidade de meios idêntica à dos Velvet numa primeira fase, o âmago, a pessoa real “escondida” atrás da personagem. Para descobrirem, por fim, que, por baixo da máscara, existe sempre outra máscara, num infinito jogo de espelhos.
Cale e Reed, desde o início de carreira, com os Velvet Underground, procuraram sempre as vias opostas às do sonho, tentando permanecer apegados a uma certa materialidade do real, avançando contra todos os pressupostos estéticos da época. Nos anos em que se cantava ainda as alucinações coloridas do LSD, Lou Reed esperava à esquina pelo seu “dealer” e erigia a heroína como verdadeira “esposa”, única capaz de facultar a visão autêntica, brutal e a negro e branco, da realidade concreta da rua e, por extensão, da América destituída da ilusão de todos os sonhos.
Talvez não se tenha compreendido ainda a importância crucial, na obra de Lou Reed, do duplo “Metal Machine Music”, das poucas tentativas, na arte do nosso século, de ultrapassar a forma estética, para chegar à nudez absoluta da abolição de todos os sentidos. A realidade é, deste ponto de vista, o que está para além da arte. Se há uma lição a tirar de “Songs For Drella”, é o fracasso a que estão condenadas tais tentativas. Os dois expoentes dos Velvet são (ou têm sido) então, precisamente o oposto de Warhol, procurando, no cerne da ilusão, a impossível saída para o que julgam existir para além dela. Reconheceram finalmente, após largos anos apostados em permanecer “gente real” que – pelo simples facto de terem escolhido a música e a fábrica de sonhos que é a pop – todos os esforços nesse sentido resultaram afinal nos mitos em que também eles se transformaram.
Visto desta maneira, “Songs For Drella” é uma homenagem, na aceção mais profunda do termo, rendição incondicional à visão warholiana, compreendendo-se agora melhor o verdadeiro significado do “A Fiction” (Warhol, a ficção em pessoa) aposto no título. Passados 24 anos, os Velvet Underground regressam, com a mesma força e invertendo o sentido inicial. Suprema ironia, desistência apoteótica ou manifesto definitivo da arte como suprema forma de ilusão, cabe a cada um decidir, consoante a perspetiva.

Sérgio Godinho – “Sérgio Godinho Canta Aos Amores E Desamores” (concertos)

PÚBLICO TERÇA-FEIRA, 1 MAIO 1990 >> Cultura


Sérgio Godinho canta aos amores e desamores

Sérgio Godinho, “escritor de canções”, iniciou na sexta-feira à noite, no Instituto Franco-Português, uma série de espetáculos que continuará até 19 de maio. Excelente oportunidade para escutar, num ambiente diferente do habitual, as canções do trovador dos nossos desamores.



Sala cheia e uma enorma expetativa rodeavam a apresentação ao vivo de Sérgio Godinho no novo desafio e desempenho que este se propôs encetar, devolvendo aos nossos sentidos, memória e coração as canções que fizeram parte integrante da vida de toda uma geração e que parecem querer seguir connosco pela vida fora. A música de Sérgio Godinho tem essa capacidade única de conseguir transpôr vivências pessoais para um contexto mais lato, em que cada um faz suas as experiências do poeta. É também o espelho com que se confronta uma Lisboa marcada pela nostalgia do tempo perdido, afogada em Fado e nevoeiros, copos e vielas de má fama, sonhos de grandeza eternamente adiados na miséria do quotidiano. Circulando por entre o labirinto de bairros e emoções da cidade, cada um procurando nos encontros com a imagem (ou miragem) do Amor também perdido, a pausa de descanso, a ilusão compartilhada, que por vezes “sabendo a tanto”, quase sempre “sabe a pouco”.

Guardar silêncio

Por isso e porque Sérgio, além de saber construir palavras com música, sabe, como ninguém, cantá-las com a voz, o olhar, os gestos e, o que é mais difícil, o próprio silêncio, aqueles que ainda conservam em si uma criança, sabem também, “com um brilhozinho nos olhos”, comover-se e guardar silêncio.
A assistência desta noite, composta por gente de todas as idades, reconheceu, compreendeu, vibrou, calou, riu, se calhar chorou, ou simplesmente acompanhou, consoante o estatuto etário e diferente grau de envolvimento, os pedaços de vida que Sérgio, como ator de um passado presente, foi desfiando, ao longo de uma arrebatadora atuação, sabiamente encenada até ao mais ínfimo pormenor.
Os vários aspetos que constituíram a atuação do cantor foram estudados e postos em prática de molde a cumprir um objetivo previamente definido: despojar as canções de todo e qualquer excesso formal, despindo-as do artificialismo de arranjos e produções envernizadas, e revelá-las na sua força e beleza originais. Como refere o compositor: “Quando há coisas a mais, a linha do horizonte fica menos nítida”. Para o efeito, foram escolhidos, como únicos acompanhantes, Nani Teixeira, no baixo elétrico, e Manuel Faria, nas teclas. Toda a movimentação de palco e encenação dos temas foi organizada e comandada, com mão de mestre, por Ricardo Pais. O cenário, simultaneamente negro e ofuscante, jogando no par de opostos, escuridão/luz, inseparável e indissociável da arte e da vida, foi imaginado por Paulo Graça. A produção é de Paulo Pulido Valente.

Um espetáculo diferente

Ao longo de mais de hora e meia de atuação, o autor de discos brilhantes como “Sobreviventes”, “Pré-Histórias” ou “Pano Cru”, marcos da moderna música portuguesa, declamou, conversou e sobretudo cantou (por vezes acompanhando-se simplesmente à guitarra acústica) antigas e recentes canções (estas do último álbum, “Aos Amores”), apresentando pela primeira vez dois temas inéditos, “Circunvalação” e “Notícias Locais”, este já num dos dois “encores” finais exigidos pelo público.
Sérgio Godinho arriscou um espetáculo diferente e ganhou. Alternou momentos intimistas, desvelando mágoas e alegrias, fugas e avanços na difícil arte de estar vivo, com explosões de extroversão, dando espaço instrumental aos restantes músicos e aliviando tensões e, quem sabe, culpas, entretanto acumuladas. Viagem por paisagens exteriores e interiores que passou e culminou, nos últmos versos e acordes do concerto, no tom de abandono e despojamento, angústia e acordar de todos os sonhos, de “Alice no País dos Matraquilhos”. Depois o silêncio e o exorcismo final expresso numa imensa e reconhecida salva de aplausos.