Arquivo mensal: Junho 2018

Bernardo Devlin – “Circa 1999 – 9 Implosões”

(público >> y >> portugueses >> crítica de discos)
5 Dezembro 2003


BERNARDO DEVLIN
Circa 1999 – 9 Implosões
Ed. e distri. Extremocidente
8|10



Devlin é um músico estranho, habitante de constelações geladas e com os olhos demasiadamente abertos para a noite. “Circa 1999” faz em absoluto jus ao complemento “Nove implosões”. A voz deste antigo elemento dos Osso Exótico situa-se algures entre o romantismo sombrio de Scott Walker e o tom operático de Peter Hammill, neste caso num registo próximo do de “The Fall of the House of Usher”. Entre a declamação, o lamento e a litania, Devlin fala da “Hora morta e outros segundos”, “À altura dos olhos” e de um “Novo alvor”, segundo uma gramática de secretas cifras interiores na qual “olhos” e “luz” são termos recorrentes. É dessa visão, alucinada (mas não é a alucinação a visão do invisível?) que nos fala e que nos esconde, sobre impenetráveis paisagens electrónicas que devem tanto à música industrial como à toca sem entrada nem saída de “Tilt”. Não é psicadelismo, porque a evasão onírica não é permitida, antes o desvario de poder de uma estranha cerimónia de sado-maso astral, em que a música – pianos tumulares, saxofones febris e eletrónica fabril, percussões dos abismos, naipes de cordas fúnebres – determina o mais pequeno gesto na encenação desta paixão infernal em forma de estátua.

Zappanoia – “Portuguese Extraction”

(público >> y >> portugueses >> crítica de discos)
5 Dezembro 2003


ZAPPANOIA
Portuguese Extraction
Ed. e distri. ReflectRir
7|10



O projeto é tão louco como qualquer outro: interpretar exclusivamente a música de Frank Zappa. Faz sentido, se considerarmos que o guitarrista e compositor deixou um vasto acervo com lugar no das grandes músicas do século passado. Faz menos, quando a réplica pretende ser, como neste caso, o mais fi el possível ao original. Tarefa ingrata, porque a música de Zappa é feita à imagem do seu autor: única e original. Daí a difi culdade, mas também o desafi o, que se pôs ao quarteto português (ao vivo, a formação alarga-se para sexteto e septeto, com metais e a inclusão de uma vibrafonista). As notas estão no lugar certo, importante numa música que exigiu sempre dos seus executantes o máximo de virtuosismo, mas falta o nervo, a paranóia, o golpe de asa. “Information is not knowledge”, lê-se, aliás, na capa. Eduardo Cunha não se coíbe de solar na guitarra mas a principal falha reside nas suas vocalizações, demasiado “lisas” e num inglês a que falta o acento americano do mestre. Ao mesmo nível do guitarrista estão igualmente os desempenhos instrumentais de Diogo Sotto-Mayor, nas teclas, Rui Soisa, no baixo, e João Luís Lobo, na bateria, em clássicos como “Cosmik debris”, “Dirty love”, “Zoot allures”, “Love of my life” e “Peaches in regalia”. Zappa continua a deixar crescer o bigode em Portugal.



Tjak – “Viajando”

(público >> y >> portugueses >> crítica de discos)
28 Novembro 2003


TJAK
Viajando
Ed. e distri Última
6|10



Victor Bandeira, Pedro Sotiry e Gabriel Gomes armaram-se com samplers e sintetizadores para esta viagem de fusão que tomou como ponto de partida as recolhas efectuadas por Bandeira na África, América do Sul, Sudeste Asiático e Nova Guiné. São quatro temas longos, inspirados em sons e rituais primitivos como uma invocação a Buda, cantos dos Dogons do Mali e dos índios Karajás, da Ilha do Bananal, no Brasil, ou uma cerimónia religiosa tibetana. Juntam koras, flautas, vozes de Pai de Santo e de pássaros, registados em arquivo, a “grooves”, glissandos de sintetizador e programações, mais próximos do etnotrance dos Trance Mission, Sabres of Paradise e Banco de Gaia que do conceptualismo de Musci/Venosta ou dos Lights in a Fat City, Tuu e O Yuki Conjugate – todos pertencentes a uma família que integra ainda Loop Guru e Transglobal Underground. Infelizmente, a par da correcta utilização dos sons samplados, os temas pecam por alguma facilidade rítmica, como numa ”A orientação perfeita”, regulada pela bússola de Jean-Michel Jarre, ou um “Caminho africano” que após uma irresistível dança de Kora descamba para coros e batida vulgares. Entre a “new age” exótica e ideias a pedir mais ousadia, “Viajando” não se atreve a ir ao âmago dos lugares que visita.