Arquivo mensal: Junho 2018

Faust – “Patchwork”

(público >> y >> pop/rock >> crítica de discos)
10 Janeiro 2003


FAUST
Patchwork
Staubgold, distri. Matéria Prima
7|10



Os velhos ativistas não desistem. Mas o que era lenda foi trocado pelo esforço em manter viva a subversão que, há mais de 30 anos, fez de “Faust”, “So Far” e “The Faust Tapes” a trindade maldita e, depois de Zappa, a segunda principal revolução do rock moderno. “Patchwork” repete a fórmula que deu origem à obra-prima “The Faust Tapes”. Mas se essa imensa colagem tem a consistência de um gigantesco organismo com vida, o novo álbum limita-se a recolar excertos da discografia prévia dos anos 70, 80 e 90, remisturando-os de maneira diferente. Para os incondicionais pode ser um jogo delicioso redescobrir segundos de ruídos familiares ou pedaços de canções como “It’s a rainy day, sunshine girl”, ocultos sob um denso manto de cacofonia. Trata-se, afinal, de pôr em prática o que o produtor Uwe Nettelbeck já preconizava em 1973: “Sempre gostámos da ideia de editar discos que pareçam inacabados; em que a música soe como um ‘bootleg’, como se tivesse sido gravada por alguém que ao passar por um grupo qualquer a ensaiar gravasse e montasse tudo de forma selvagem.”



Concertos Em 2003 – “Pop E Rock Para Todos Os Gostos, Mas Porque Não Experimentar O Jazz?” (artigo de opinião / concertos)

(público >> cultura >> pop/rock >> concertos)
sexta-feira, 3 Janeiro 2003


Pop e rock para todos os gostos, mas porque não experimentar o jazz?

CONCERTOS EM 2003

Red Hot Chilli Peppers, Sigur Rós e Massive Attack são alguns dos nomes agendados para os cinco primeiros meses deste ano



Os Massive Attack regressam em Maio a Portugal para dois concertos no Coliseu de Lisboa

Na altura de ser feito o anúncio dos concertos em Portugal para os próximos meses, a regra é escrever-se que os haverá para todos os gostos. Pois bem, podemos adiantar que relativamente aos primeiros cinco meses do novo ano haverá em Portugal muitos concertos e para todos os gostos. Senão vejamos.
Já este mês, a agenda tem apontados nos dias 24 e 25 espectáculos dos The Misfits, respectivamente no Paradise Garage, em Lisboa, e no Hard Club, em Gaia. Os The Misfits são uma banda ao gosto dos apreciadores de rock pesado. Virão com dois convidados vagamente especiais, Marky Ramone, dos Ramones, e Dez Cadena, dos Black Flag.
Exatamente nos mesmos dias, só para baralhar e tirar público aos Misfits, os Red Hot Chilli Peppers vão fazer-se ouvir alto e bom som no Pavilhão Atlântico, em Lisboa. São uma das bandas do momento e uma das favoritas dos filhos de quase toda a gente que gostaria que os seus filhos gostassem de outro tipo de música. Mas não há nada a fazer: pais, vão começando a pensar em comprar os bilhetes. O álbum mais recente chama-se “By The Way”.
Ainda antes destes dois concertos, terão lugar outros, ostentando o selo de qualidade dos Morphine. Falamos dos Twinemen, ou seja, Morphine menos o malogrado Mark Sandman. Três datas a não perder: dia 16 em Coimbra, no Le Son, Hard Club no dia seguinte, dia 18 no Paradise Garage.
Ainda a 16, Andrew Weatherhall, produtor do mítico “Screamadelica”, dos Primal Scream, e mentor dos Sabres of Paradise e Two Lone Swordsmen, estará no Lux, em Lisboa. Janeiro fecha com os islandeses Gus Gus, naturais de Reykjavik e, como seria de esperar, dada a latitude, praticantes de electrónica pop a baixas temperaturas. Nota final elevada para o concerto de Janeiro do programa “Jazz ao Centro”, iniciativa a realizar em Coimbra ao longo de todo o ano (parte do programa oficial de Coimbra Capital Nacional da Cultura 2003), com o quinteto do contrabaixista William Parker, grupo ao qual se deve “Raining on the Moon”, um dos álbuns de jazz mais apelativos de 2002.

Dos Sigur Rós a todo o jazz
Passemos a Fevereiro, com fama de mês de todas as calamidades. Esperemos que não, apesar de ser o escolhido para a visita a Portugal da seita ideológica/religiosa/musical que dá pelo nome de Current 93, filhos de Aleister Crowley, o mago negro, e projecto liderado há cerca de 20 anos por David Tibet. A música dos Current 93 já passou pelo industrial e por uma imitação de folk, consoante as alucinações pessoais do seu líder. Trazem como convidado alguém muito especial, alguém que Laurie Anderson e Diamanda Galas consideram o “crooner” perfeito – o nova-iorquino Antony Johnson. Rituais marcados para 7 e 8 no Teatro Ibérico, em Lisboa.
Nem de propósito, Fevereiro foi igualmente o mês escolhido por outro grupo islandês, os Sigur Rós, para o seu regresso a Portugal. A Islândia será provavelmente a região do globo com mais bruxas por metro quadrado. Quanto aos Sigur Rós, foi num ápice que passaram do experimentalismo de “Von” para o ambientalismo paisagístico de “Agaetys Byrjun” e deste para o novo “( )”, cuja música tenta fazer jus ao título. Datas marcadas: 28 de Fevereiro e 1 de Março, respectivamente nos Coliseus do Porto e Lisboa.
Menos sinistro (opinião obviamente discutível), o canadiano de 43 anos Bryan Adams, autor de êxitos como “Run to you” e ilustre representante, nos anos 80, do chamado “rock sentimentalão”, actua a 24 no Coliseu do Porto e a 25 no Pavilhão Atlântico, em Lisboa. Os Zwan, projecto novo de Billy Corgan, ex-Smashing Pumpkins, tocam no Coliseu de Lisboa, no dia 22. O mês de Fevereiro começará aliás com a figura solar de Ney Matogrosso, que regressará aos Coliseus do Porto (dia 3) e Lisboa (dia 5) para fazer a apresentação do álbum “Ney Matogrosso interpreta Cartola”, preenchido com sambas do compositor Cartola.
Entretanto, o jazz contemporâneo continuará a marcar pontos. Com o “Jazz ao Centro” a trazer o DKV Trio, formado por três notáveis da cena de Chicago: Ken Vandermark (saxofones), Kent Kessler (baixo) e Hamid Drake (bateria).
Março não tem que saber. Vai ser o mês do “hard rock”, “heavy metal” e sonoridades afins. Os Satyricon tocam dia 6 no Hard Club e, no dia seguinte, no Paradise Garage. Os Paradise Lost, mais electrónicos, trocam a ordem das salas – dia 17 no Paradise, dia 18 no Hard. A 23 chega o “black metal” dos Cradle of Filth, no Paradise.
Absolutamente imperdível será o concerto do “Jazz ao Centro”, protagonizado pelo quarteto do saxofonista David S. Ware, com Matthew Ship (piano), William Parker (contrabaixo) e Guillermo E. Brown (bateria). Ware é um coltraniano no ascetismo e um ayleriano no ardor das labaredas e na intensidade do grito. A sua obra “Godspellized” (1996) é prima. Sangue e luz. Experiência arrasadora. Ao vivo também será assim.
Em Abril haverá blues. Ligeiramente loucos. Por Bob Log III. Performance marcada para dia 24, no Le Son, em Coimbra. E “Jazz ao Centro”, claro, com o quinteto de Jemeel Moondoc, saxofonista alto situado estilisticamente entre Ornette Coleman e Marion Brown. Os alemães Guano Apes farão a apresentação do novo álbum, ainda sem título, nos Coliseus de Lisboa (dia 16) e Porto (dia 17).
Maio receberá Joe Jackson, o “new waver” que se converteu ao jazz que se converteu à música de câmara (dia 15 no Coliseu do Porto, 16 na Aula Magna, em Lisboa), e os Massive Attack, a 21 e 22 no Coliseu dos Recreios em Lisboa, na apresentação do novo álbum “100th Window”.
Lou Reed também se espera que esteja cá no dia 21. Não se sabe ainda é em que sala. No “Jazz ao Centro”, outro concerto de arrancar os cabelos, pelo trio do tenorista e pianista Charles Gayle, um dos proscritos do jazz a quem a história, alguma história, fez por fim justiça. O seu “free” é mais que livre. Com Coltrane, uma vez mais, no horizonte, em “Touchin’ on Trane” (1991).
E pronto, poderá dizer-se que, em matéria de concertos em Portugal para os próximos meses, os haverá para todos os gostos. Com fortes aplausos para o jazz.

Pedro Ayres Magalhães / Madredeus – “A História Dos Madredeus É Uma Longa Canção” (entrevista a Pedro Ayres Magalhães)

(público >> cultura >> portugueses >> entrevistas)
sexta-feira, 12 Dezembro 2003


“A HISTÓRIA DOS MADREDEUS É UMA LONGA CANÇÃO”

ENTREVISTA COM
PEDRO AYRES DE MAGALHÃES

Os Madredeus tocam hoje na Feira, pondo termo em Portugal à digressão “Movimento” que nos últimos três anos os levou a 25 países e a dar cerca de 150 concertos. Mas a missão, garante Pedro Ayres de Magalhães, irá continuar.



Começou em Abril de 2001 no Porto e termina hoje a digressão, em salas portuguesas, perto do local de origem, em Santa Maria da Feira. Três anos na estrada durante os quais o álbum “Movimento”, último de originais do grupo, foi ouvido nos quatro cantos do mundo. Só este ano, França, Bélgica, Inglaterra, Alemanha, Macedónia, Cabo Verde, Itália, Espanha, Hungria, Polónia, México e, claro, Portugal, renderam-se a uma música que já foi catalogada de “popular portuguesa”, “world”, “clássica” ou “de câmara” mas que acima de tudo é música portuguesa. Na perspetiva saudosista de “uma mulher que espera”.
Apresentado ora em quinteto ora, excecionalmente, com o acompanhamento da Flemish Radio Orchestra, nos arranjos sinfónicos escritos pelo maestro Victorino d’Almeida, que ficaram registados no álbum ao vivo, “Euforia”. Agora é tempo de descompressão mas também de cuidar dos pormenores dos próximos discos, já agendados, um dos quais dedicado à cidade de Lisboa. Pedro Ayres de Magalhães, guitarrista, autor das letras e das músicas, cérebro e principal operário dos Madredeus, fez o balanço e falou do futuro.

PÚBLICO – Ao longo da digressão, mudou alguma coisa no espírito ou na forma dos Madredeus?
PEDRO AYRES DE MAGALHÃES – Continua a ser a dramaturgia de uma mulher que está a espera. A dramaturgia da saudade. A voz e a figura dela têm sido em grande parte responsáveis pela simpatia e pela notoriedade que o grupo conquistou.
O facto das letras serem cantadas em português não dificulta a recepção da vossa mensagem, no estrangeiro?
A maioria das pessoas não compreende a mensagem, pelo menos a verbal. Mesmo em Portugal, as pessoas não conhecem sequer dois terços das canções. Ao vivo, com a confusão das luzes, o espetáculo, poucas seguirão o texto… Mas no Japão, onde as pessoas têm um cérebro diferente, por causa da linguagem que falam e por terem uma percepção analítica da linguagem e, portanto, também da música, resolveram o problema pondo legendas de tradução simultânea, como na ópera. Se virmos bem, a história do grupo é como um longa canção. Uma canção que as pessoas vão descobrindo. Muita gente só descobriu os Madredeus a partir de “O Paraíso” ou da canção do vídeo da Greenpeace [“Anseio”, na versão de Craig Armstrong, incluída no álbum de remisturas “Electrónico”] . Agora é mais fácil, basta ir ao “site”, madredeus.com.
Como surgiu a ideia de tocarem com uma orquestra?
A ideia de tocarmos com a Orquestra Flamenga surgiu durante a digressão “Movimento”. Por coincidência, a música do álbum já tinha sido concebida com muito espaço instrumental. As próprias “masters” foram gravadas em “overdubbings” sinfónicos, com outros instrumentos. Inclusive o disco foi captado dois graus acima do diapasão porque é essa a afinação das orquestras. Depois, não faz sentido amplificar um grupo acústico para plateias de 30 mil pessoas. Sugeri, tanto à orquestra como ao arranjador, que não se tocasse na estrutura das canções. Nos arranjos, o maestro Victorino d’Almeida optou por seguir o modelo do “concerto grosso” italiano, que privilegia o diálogo entre um grupo de solistas e a orquestra.
É verdade que entrou em euforia, nessas ocasiões?
Sim. Sobretudo durante a gravação do primeiro concerto. Mas foi barra pesada, fazer concertos com 70 músicos em palco. Sobretudo a produção é proibitiva. No teatro de Brugges, na Bélgica, por sinal a primeira sala estrangeira onde tocámos, com o estúdio montado lá fora, tudo pronto para ser gravado e filmado – atenção – era bastante! À medida que via cada uma das canções a sair bem, ia ficando aliviado e, a seguir ao alívio, alegre. Nesse dia acabei o concerto realmente eufórico.
É um projeto para continuar?
Já mais orquestras nos convidaram. Mas a verdade é que é uma coisa complicadíssima, já para não falar em que destruiria a fluência e a organização das nossas vidas. Pusemo-nos essa questão mas não sei até que ponto será plausível. Acho que não é. Manter sempre essa possibilidade em aberto. Se o voltarmos a fazer vamos ter que partir de novo do zero. E contar com o apoio de uma orquestra e de uma companhia de discos. Que não seja a nossa mas a deles! (risos). Mas foi uma experiência incrível. Os músicos da orquestra, no Porto, choraram. Eles, flamengos e valões, até ali viam aquilo apenas como um reportório bizarro. Foi preciso chegarem a Portugal, ao Porto, para perceberem que as canções, na língua estranha que a Teresa cantava, era a mesma língua de um povo, com o público do Coliseu a cantar em uníssono o “Haja o que houver”. Ficaram estarrecidos. A emoção de encontrarem um sentido coletivo naquele projeto instrumental.
Houve quem dissesse que o universo sinfónica não casava naturalmente com a música do grupo…
Esse universo, se quisermos, é nosso. Como em tudo na vida. O grupo Madredeus é também uma escola de escrita de música e não apenas uma escola de arranjos para um quinteto. Não somos um grupo que faz coleção de música tradicional e depois inventa uns arranjos para teclados que têm muito sucesso. Não, fomos aprendendo a escrever mais e melhor música. As canções que escrevemos em língua portuguesa, um diadema de canto saudoso, podem efetivamente ser visitadas e revisitadas por ensembles sinfónicos ou de percussões ou seja do que for. É uma questão de fantasia e iniciativa, nada mais.