Arquivo mensal: Janeiro 2017

Jean Michel Jarre – “Oxygène 7-13”

Pop Rock

26 Fevereiro 1997

Jean Michel Jarre
Oxygène 7-13
DREYFUSS, DISTRI. SONY MUSIC


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Se Mike Oldfield fez a remodelação de “Tubular Bells”, por que o que o marido de Charlotte Rampling e filho do compositor Maurice Jarre não podia fincar o dente na continuação do seu “Oxygène”, álbum que em 1976 fez algum furor no mundo da música electrónica? Se assim pensou, Jean Michel Jarre pior o fez. Vinte e um anos depois, as partes seis a 13 que o teclista – que ao vivo toca para milhões – decidiu acrescentar às seis do primeiro disco são de uma indigência que chega a envergonhar. Alinhando na vaga de regresso à tecnologia analógica, Jarre limpou a poeira aos vetustos sintetizadores VCS3 e ARP 2600, mas é caso para dizer que o homem não esteve à altura das máquinas. Não é nem música de dança, o desculpará toda a face recente da sua discografia, nem, muito menos, o exotismo e ambientalismo de “Zoolook” (com Laurie Anderson e Adrian Belew) e “Waiting for Cousteau” (com uma faixa de 40 minutos de sons subaquáticos numa linha enoiana), mas uma pastilhada sem qualificação. “Bum bum bum”, abaixo do disco sound, abaixo dos Space, abaixo de cão. A capa, com um efeito em três dimensões, está bem esgalhada. (1)



Faust – “You Know Us”

Pop Rock

26 Fevereiro 1997

Faust
You Know Us
RER, IMPORT. ANANANA


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“You Know Us”, “You Know Faust”, “You Know”. O “lettering” permite qualquer destas leituras. Joga-se no reconhecimento. Tudo na embalagem do novo álbum do mítico grupo alemão, da caixa e folheto transparentes à radiografia do punho fechado, como logotipo, remete para a iconografia do primeiro álbum da banda Faust, marco não só da música dos anos 70, como da música popular em geral.
Se o álbum do ano passado, “Rien”, primeiro da “ressurreição” oficial do grupo, agora reduzido ao trio Werner Diermaier, Joachim Irmler e Jean-Hervé Peron, expunha o lado mais cacofónico e “industrial”, resultante da produção de Jim O’ Rourke, o novo “You Know Us” abarca as múltiplas facetas que caracterizam a discografia da década de 70, “Faust”, “So Far”, “The Faust Tapes” e “Faust IV”. Facto a que não será alheia a mudança de editora, da Table of Elements para a Recommended, de Chris Cutler, que durante os anos de interregno sustentou nos seus catálogos a mística do grupo, através da distribuição daqueles quatro álbuns, bem como a edição das colectâneas de material inédito disperso, “Munic & Elsewhere” e “The Last LP”, posteriormente reunidos em “Seventy One Minutes of Faust”.
“You Know Us” não traz nada de novo. O que, tratando-se de um grupo que voltou do avesso a música popular deste século, é quase escandaloso. O reverso da medalha está em que os safados continuam a ser pais na arte da manipulação e da improbabilidade musical. As bandas do pós-rock devem-lhes tudo. E a verdade é que, 26 anos volvidos sobre a bomba que representou a sua estreia, em 1971, na Polydor, os Faust voltam a dar as cartas para o baralho dos mais novos.
Vocês conhecem-nos. Somos os Faust e fazemos as bandas sonoras dos vossos pesadelos mais bizarros. Temos canções pop com sulcos escavadas pelas garras de Freddy Krueger, temos sinfonias de metal, temos “trips” no escuro, temos a contagem das pausas entre os temas como se fossem temas, temos um tango. Temos orgulho de causar hoje tanto ou mais espalhafato do que aquele que provocámos quando chegámos para sobressaltar o progressivo.
São os Faust, de novo com o punho erguido, a saudar a década do caos. (8)



Nick Cave & The Bad Seeds – “The Boatman’s Call”

Pop Rock

19 Fevereiro 1997

NICK CAVE & THE BAD SEEDS
The Boatman’s Call (7)
Mute, distri. BMG


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O canibal tornou-se vegetariano. A esta nova dieta corresponde a interiorização de um estatuto que, álbum após álbum, vem aconchegando o antigo activista dos Birthday Party no altar dos clássicos. “The Boatman’s Call” concede ainda o benefício da dúvida, do tipo “deve haver uma perversão escondida no meio de tanto amor e orações”. O vídeo extraído de “Murder Ballads”, em que Kylie Minogue faz de cadáver afogado e Cave veste a pele do assassino esteta, funcionava ainda na medida dessa ambiguidade. O novo álbum, porém, faz da religiosidade assumida a regra sem excepção, jamais permitindo que a faísca da revolta agite a calmaria da conversão. Leonard Cohen é cada vez mais o modelo a seguir, no estilo em que o líder dos Bad Seeds construía a suas baladas. Mas também Lou Reed (as notas iniciais de “There is a kingdom” remetem de imediato para “Perfect day”), Tom Waits, na imersão sonambúlica em ambientes fumarentos, e o Peter Hammill dos momentos mais calmos, no modo como Cave pronuncia o refrão, “Into my arms, O Lord”, de “Into my arms”. Blixa Bargeld, o desconstrutor-mor dos Einstuerzende Neubatuen, e Mick Harvey reduzem-se a anjos maus a quem cortaram as asas. O papel principal pertence neste disco a um homem só. Perdido no seu solilóquio com Deus e o diabo, em crise de meia-idade ou em crise de vocação, a fé não serve de moeda de troca num bar mal afamado. No álbum mais pessoal da sua discografia, Nick Cave afirma acreditar em Deus, não um Deus intervencionista, mas um Deus que se refugiou nas sombras de uma intimidade impotente. Porque se, como diz na letra de “People ain’t no good”, os homens não prestam, então não vale a pena mexer uma palha e o melhor é mesmo beber a garrafa de cicuta até à última gota e descansar sobre as ruínas. Nick Cave tornou-se no velho pescador contador de histórias que entretém as noites a ruminar memórias. À espera do chamamento que não vem.