Arquivo mensal: Janeiro 2017

Labradford – “Labradford”

Pop Rock

19 Fevereiro 1997

Labradford
Labradford
BLAST FIRST, DISTRI. SYMBIOSE


lab

Os Labradford são uma das partes visíveis do gigantesco “iceberg” de bandas do “post-rock” que, lenta mas seguramente, vão emergindo na cena alternativa norte-americana. “Labradford” é o terceiro álbum da sua discografia, sucedendo a “A Stable Reference” e “Prazision”. À semelhança de outras formações da mesma área – Tortoise, Trans AM, Ui, Bowery Electric, Magnog, Jessamine, Rome, Gastr Del Sol, Fuxa, C Clamp – fica a sensação de estarmos perante uma música ainda em formação que se refugia na criação de ambientes enquanto não descobre arquitecturas de maior definição. Daí o fascínio, que exerce, de assistir à gestação de algo novo que tem a modéstia de dar ouvidos à tradição. Curiosamente, é possível estabelecer uma correspondência entre o que se passa actualmente com a música electrónica nos Estados Unidos da América – na oposição entre as bandas do “post-rock” e a escola californiana representada por nomes como Steve Roach, Robert Rich e Michael Stearns – e a cena alemã dos anos 70. Nesta medida, os Labradford e os Tortoise estao para Steve Roach e Robert Rich como os Faust e os Cluster estavam para Klaus Schulze e os Tangerine Dream. “Labradford” balança entre atmosferas instrumentais intoxicantes, reminiscentes dos This Heat (banda de Charles Hayward que é também referência obrigatória dos Tortoise, tendo feito, no final dos anos 70, de charneira entre o “krautrock” e a música industrial), guitarras carregadas com a depressão do eixo Joy Division-Durutti Column e canções sonambúlicas misturadas no ventre de uma baleia. Música fria, como as estruturas de metal da capa, “Labradford” anuncia a nova glaciação. (7)

Trance Mission – “Head Light”

Pop Rock

12 Fevereiro 1997
poprock

Trance Mission
Head Light
INTUITION, DISTRI. STRAUSS


tm

No mesmo território anexado aos Lights in a Fat City, O Yuki Conjugate, Steve Roach, Mo Boma ou Jon Hassell, a música de transe dos Trance Mission distingue-se pela vasta gama de instrumentos que utiliza, não se confinando aos habituais “clichés” que, com indesejável frequência, dão má fama ao género. O didgeridu de Stephen Kent (também elemento dos Lights in a Fat City e Beasts of Paradise, e cada vez mais figura de proa do movimento) ocupa, obviamente, o centro do palco sonoro. Ao seu lado estão as percussões, “samples” e vários artefactos exóticos de outro músico importante, Kenneth Newby, autor, a solo, de uma obra tão fascinante como fora dos parâmetros mais vulgares da música electrónica, “Ecology of Souls”. “Head Light” acata ainda o fraseado jazzístico dos sopros de Beth Custer, suavizando a componente “etno techno” (por uma vez, não “etno seca”…) do álbum. Há nos Trance Mission uma abertura solar pronunciada e uma amplitude de ambientes que contrastam com a sensualidade dos ritmos. Não é música de dança, mas música que dança. Missão cumprida. (8)



Ryuichi Sakamoto – “Smoochy”

Pop Rock

12 Fevereiro 1997
poprock

Ryuichi Sakamoto
Smoochy
MILAN, DISTRI. BMG


rs

Como David Bowie ou Peter Gabriel, Ryuichi Sakamoto evoluiu de criador de uma música original que influenciou algumas correntes musicais deste século para o cidadão do mundo, atarefado na promoção de um estilo e imagem de marca. A música que qualquer destes autores faz hoje, sendo, por norma, no mínimo, interessante, é, quase sempre, irrelevante. No caso de Ryuichi Sakamoto, que ainda no final dos anos 70 extrapolou o mecanicismo dos Kraftwerk para um contexto simultaneamente anacrónico e futurista, cirando a música de baile perfeita para robôs apaixonados, aquilo que faz hoje é conservar-se a par das últimas tendências da moda, mantendo, embora, em relação a estas, a elegância e uma certa distanciação. Apaixonado pela música brasileira, essa influência é evidente apenas enquanto componente subjectiva de um discurso que aparece demasiadamente aprisionado às estruturas rítmicas do trip-hop, as quais, curiosamente, poderiam ser invocadas no trabalho pioneiro dos YMO. Mas Sakamoto tanto é um adepto das aplicações da cibernética aos ritmos de dança, como um apaixonado pelos compositores impressionistas do início do século e é essa síntese entre a nostalgia e a vontade de inovação que fica por resolver em “Smoochy”. Se temas como “Bring them home” e “Manatsu no yo ana” vêm na linha classicista do que Sakamoto já propusera no anterior “1996” e “Aoneko no torso” cede ao velho fascínio por Satie, a maioria dos restantes hesita na direcção para onde seguir, perdido entre um psicadelismo passadista e crepuscular “made in Rio” e o sonambulismo de canções que ora se refugiam no legado dos YMO, como “Poesia”, ora se afogam num movimento, o trip-hop, que o japonês jamais consegue ultrapassar. (6)