Arquivo mensal: Janeiro 2017

Morphine – “Like Swimming”

Pop Rock

5 Março 1997

Morphine
Like Swimming (9)
RYKO, DISTRI. MVM


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Não é “pós-rock”, mas “low rock”, como Mark Sandman gosta de chamar à música dos Morphine. Chamem-lhe o que quiserem. A dose de Morphine que o trio formado por Sandman, Dana Colley e Bill Conway vem injectando desde “Good” nas veias da música pop atinge aqui o seu “flash” mais intenso. Os Morphine assimilaram, intuitivamente ou dos compêndios, não importa, a tradição das franjas mais fumarentas e polposas dos “blues”, do “rhythm’n’blues”, do “cabaret” e do “jazz” mais cambaleantes, baixaram-lhes as rotações e deitaram-lhes picante para cima. A cabeça não tem direito a nada. O corpo é que paga, obrigado a pegar ou largar esta energia que parece brotar do baixo-ventre, canalizada pelo sax barítono, cada vez mais visceral, de Dana Colley e as cordas, do baixo ou da “tritar”, de Mark Sandman. Mais ainda do que nos álbuns anteriores, “Good”, “Cure for Pain” e “Yes”, “Like Swimming” atira pelas colunas um som quase palpável resultante de uma produção que, mais do que nunca, privilegiou o espaço e as dinâmicas, sem se esquecer de abrir as portas aos sintetizadores e outros artefactos electrónicos, que agora ganham uma maior margem de manobra. Parece simples o modo como o grupo põe em prática a sua teoria de “mais subtracção e menos produção”, mas nesta aparente simplicidade esconde-se um trabalho de escultura sonora que neste álbum adquire uma concisão quase maníaca. É o “swing” aliado ao espectáculo de variedades e ao exotismo, num comboio dos duros com a mesma força e eficácia de um terrorista como Clint Ruin-Jim Foetus, mas sem o demonismo e infiltrado por uma descomunal carga de sensualidade. É como nadar n um mar de energia ou numa piscina de fogo. Uma facada nas costas dos narcodependentes anónimos.



Tarwater – “Eleven/Six Twelve/Ten”

Pop Rock

26 Fevereiro 1997
Tarwater
Eleven/Six Twelve/Ten
KITTY-YO, DISTRI. SYMBIOSE


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Antes de mais: alguém se quer dar ao incómodo de nos dizer quem são os Tarwater? E, já agora, sobre a editora? É que não existe qualquer espécie de informação. Valeria a pena esmiuçar a vida, já nem diríamos íntima, do grupo, porque o disco que agora nos chegou às mãos é um objecto bastante especial. De concreto, sabe-se que “Eleven/Six Twelve/Ten” é o segundo trabalho de uma série intitulada “Solar Money System”, sucedendo a “John Donne – Death’s Duell”. O próximo já tem nome: “Rabbit Moon”. O álbum foi gravado em Berlim e tudo aponta para que a banda seja alemã. A embalagem é um “digipak” estreitinho que afixa a letra, completamente impenetrável, de um tema chamado “Rome”. “Analytic Paget saw an inn in a waste-gap city, Lana. A new order began, a more roman age bred Rowena.” Estao a ver o género? Uns novos Residents, poder-se-ia pensar? Nada mais longe da verdade do som dos Tarwater. “11/6 12/10” (duas datas? Que raio…) reduz a estilhas o “trip hop”, avançando por terrenos onde o próprio Tricky se sentiria pouco à vontade. O som é denso, sem perder a noção de espaço tridimensional, preocupado com a escultura dos silêncios. “Samples” obliquamente clássicos introduzem ritmos de avestruz sobre os quais as vozes vão descarrilando, de maneiras sempre surpreendentes, ora com o peso de um camião a descarregar cimento, ora etéreas como anjos à deriva em cânticos galácticos. É como se os Tarwater tivessem interceptado o “continuum” do espaço-tempo, sintonizando numa frequência do futuro, e provocando uma descontinuidade na lógica das coisas. Há um hiato que os Tarwater saltaram por cima. Cabe-nos a nós chegar lá e decifrar os signos. (8)

Simeon Ten Holt – “Canto Ostinato”

Pop Rock

26 Fevereiro 1997

Simeon Ten Holt
Canto Ostinato
EMERGO CLASSICS, IMPORT. VGM


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São precisas mãos, pianos e o domínio do tempo. Duas, quatro, seis mãos, tantas quantas forem precisas para multiplicar a harmonia e “Canto Ostinato”, peça-chave inscrita na corrente minimalista, cuja primeira interpretação data de 1979. Ou seja, em pleno reinado da escola americana, Simeon Ten Holt, compositor holandês, aluno de Honegger e Milhaud, avançava com um percurso paralelo que, na Europa, apenas viria a ser seguido – de maneira bastante mais pobre, diga-se – por Wim Mertens. “Canto Ostinato” é uma longa composição de 75m29, 106 secções indexadas em 92 partes – em que, como o próprio título sugere, uma frase de piano, ou dos pianos (neste caso, trata-se de uma versão gravada ao vivo, no ano passado, na Igreja Maria Minor, em Utrecht, por Kees Wieringa e Pólo de Haas), é manipulada até ao infinito, numa estruturação contínua do tempo e do silêncio. O efeito tanto pode ser o tédio absoluto como a entrada gloriosa no templo da música das altas esferas, onde a acumulação subliminar dos harmónicos concede a graça da audição de melodias celestiais suspensas num estado de semi-sonho, entre a vibração do ar e a vibração mental. Tudo o que LaMonte Young teorizou e, nesta obra, Simeon Ten Holt materializou. Observado do exterior, vislumbram-se em “Canto Ostinato”, sobretudo na cadência final, recrudescências do romantismo, assim como há quem veja em Ten Holt o Satie do minimalismo, pressentindo nesta música a mesma progressão extática das notas e das pausas do autor das “Gnossianas”. Para aqueles que já não conseguem ouvir falar, sem uma náusea, de “música minimal repetitiva”, sugere-se que interrompam, por momentos, o enfado e escutem, de espírito aberto e orelhas limpas. Porque, como alguém diz nas notas da capa, “uma interpretação de ‘Canto Ostinato’ é mais um ritual do que um concerto”. (9)