Arquivo mensal: Fevereiro 2016

Telectu – “Telectu, Cutler, Berrocal”

POP ROCK
15 de Novembro de 1995

Álbuns portugueses

Telectu
Telectu, Cutler, Berrocal

ED. FÁBRICA DE SONS, DISTRI. MOVIEPLAY


telectu

Quem porfia sempre alcança, diz-se, e Jorge Lima Barreto tem porfiado bastante. O mais recente “opus” da dupla Barreto/Rua reúne actuações ao vivo com os convidados Chris Cutler, nas percussões e electrónica, e Jac Berrocal, trompete e electrónica, realizadas o ano passado, no Teatro S. Luiz, em Lisboa; só com Berrocal, no mesmo ano, na Casa de Serralves, no Porto; e com Cutler, há dois anos, no Teatro Gil Vicente, em Coimbra. Os 42 minutos e 13 segundos da “performance” em Lisboa constituem o prato forte da improvisação em quarteto, onde o principal atractivo consiste em tentar descortinar onde termina o aleatório e começa o discurso previamente, pelo menos em parte, estruturado. O caos mostra deter as rédeas de comando neste périplo pela cacofonia que substitui os anteriores “mimetismos” da dupla portuense. Há sons estranhos, encadeamentos com a duração de segundos onde os músicos se surpreendem a tocar juntos, instantes de poesia, até de silêncio. É óbvio que tanto Rua como Barreto assimilaram convenientemente algumas das cifras correntes da chamada “new music”. A maior virtude dos Telectu tem sido, desde sempre, a de tirar o máximo partido das limitações próprias. Por fora, este disco tem um néon a piscar “novidade” e “experimentação”. Difícil, a exigir esforços da imaginação, é descortinar nele um sentido mais além, um dizer algo que não se esgote no próprio instante interpretativo. Por ora os Telectu parecem comprazer-se nas delícias do fugaz. Guardamos na memória o bom entendimento de Rua com Cutler no tema do Gil Vicente, e o “tour de force”, entre o litúrgico, o magmático e a música concreta, de Lima Barreto, nos sintetizadores do terceiro e último acto. O invólucro pictórico leva a assinatura, como de costume, de António Paolo. (7)

Rafael Toral – “Wave Field”

POP ROCK
15 de Novembro de 1995

Álbuns portugueses

Rafael Toral
Wave Field

ED. E DISTRI. MONEYLAND


rt

“The Wave Field está situado algures numa região longínqua do território ambiental, junto à fronteira de uma área pantanosa onde vibrações abstractas de rocha líquida se dissolvem sob nuvens carregadas de ruído, ecoando alguma irradiação eléctrica”, diz o autor a propósito da sua obra. Nem mais, escrito em inglês e tudo, sem esquecer uma dedicatória (em inglês) a Alvin Lucier e outra, em letras mais pequenas, aos My Bloody Valentine, nem o indispensável aviso (em inglês) aos ouvintes de que “não foram utilizados sintetizadores, mas apenas filtros”. Bom, são três longas composições, sem sintetizador, apenas com filtros, uma do ano passado, as outras deste ano, nas quais Rafael Toral põe a guitarra a ressonar num “continuum” perpétuo. Ao pé dele, a “infinite guitar” do Michael Brook parece uma ejaculação precoce. A bíblia da guitarra demoníaca, “Evening star”, de Robert Fripp com Brian Eno, continua a ser o ponto de referência. Ouvido com muita atenção e com dez quilos de LSD no bucho consegue-se mesmo descortinar o som de “vibrações de rocha líquida dissolvidas sob nuvens carregadas de ruído, ecoando alguma irradiação eléctrica”. Ou será o ruído do motor do leitor de compactos? (4)



Gaiteiros De Lisboa – “Invasões Bárbaras”

Pop Rock

18 de Outubro de 1995

GAITEIROS DE LISBOA
Invasões Bárbaras

Ed. Farol, distri. BMG


gl

Numa primeira audição, esta “invasão” provoca algum desconforto. Não é um disco fácil. Os Gaiteiros de Lisboa confundem e incomodam. Preferem arriscar a petiscar. Lutadores, empunham uma espada do mesmo calibre da que em vida empunhou José Afonso. Desbravar o que ainda não existe e, com o impossível, fazer obra.
O arranque não podia ser mais “naturalista”, ao som de piares campestres. Paz que é pura ilusão. As gaitas surgem de imediato a reivindicar o espaço, abraçadas a uma polifonia vocal, tipo corso. Em “A ribeira do sol posto” – heresia das heresias -, o “cante” alentejano recebe a companhia “desavergonhada” de um bordão de sanfona, ambos embalados pelo tamborilar de sonho da água que teima em não chover na planície. A utilização em força dos bordões, tanto da sanfona de Carlos Guerreiro como das gaitas-de-foles de Rui Vaz, Paulo Marinho e José Manuel David é, aliás, uma das características que reforçam a imagem “telúrica” do disco. O que mais uma vez acontece como pano de fundo de “Se eu soubesse que voando…”, híbrido África/Beiras/Banda do Casaco, com passo negro conferido por um “kessange” (também conhecido como “mbira” ou “kalimba”, consoante as paragens). Nesta, como nas restantes doze faixas do disco, é notório o dedo de José Mário Branco, na produção, nos arranjos e na direcção musical. Presença que se faz sentir na estética de subtracção do supérfluo, característica deste compositor-intérprete, mas também ao nível da postura radical adoptada pelo grupo, na sua relação pouco pacífica com a música tradicional.
No limite extremo desta viagem de “fuga” em direcção aos limites mais improváveis de uma música cujo imaginário radica no mito e numa estética de confronto, passando sobranceiramente ao lado de toda e qualquer tentativa de gestos e relações por essência irrepetíveis fora do seu contexto natural – estão a experiência formal de “Cinco por quatro” ou a versão de “La sarandillera”, bastante mais ousada que a de Né Ladeiras, em “Traz os Montes”. Disco pretensioso, sem dúvida, no modo como escapa a qualquer catalogação e se distancia com orgulhos dos caminhos mais fáceis e mil vezes trilhados de fazer “música de raiz tradicional”. Disco experimental, também. Os Gaiteiros, mais do que usar, abusam do legado tradicional, entregando-se a cirurgias de parto capazes de originar os mutantes de uma nova tradição ou, em termos gráficos, a instrumentos como a “besta-de-foles” da capa. E se temas como “Talvez que sonhando” ou “Décimas” surgem marcados pela influência, respectivamente de José Mário Branco e Fausto, outros, verdadeiramente de antologia, como “O menino está na neve”, erguem a nossa música popular a patamares nunca antes atingidos. Música “bárbara”, sem dúvida, pela heresia formal que a enforma, e porque fremente e virgem dos maneirismos que deitam tudo a perder e fazem nascer o preconceito.
Depois de Né Ladeiras, da Brigada e do manifesto premonitório dos Vai de roda, “Invasões Bárbaras” assinala novo e decisivo momento num ciclo que, esperamos, venha deitar por terra o império do conformismo, do fingimento e da palmadinha das costas que sempre foram o serão sinais de decadência. (9)