Arquivo da Categoria: Rock Psicadélico

Pink Floyd – “A Caixa Sem Segredos” (box – Nove compactos, um livro encadernado, uma colecção de postais, iconografia a granel)

Pop Rock >> Quarta-Feira, 18.11.1992


A CAIXA SEM SEGREDOS

É só brilho, do título à apresentação. Parte da música também atinge o brilhantismo do embrulho. “Shine On” é um objecto de luxo, uma extravagância, um deleite, tanto para os olhos como para os ouvidos. “Shine On” pretende ser o testamento audiovisual definitivo dos Pink Floyd: Nove compactos, um livro encadernado, uma colecção de postais, iconografia a granel. O aspecto geral é sedutor e convida á posse de quem se deixa impressionar pelos enfeites.
Aos oito compactos correspondentes aos álbuns “A Saucerful of Secrets”, “Meddle”, “Dark Side of the Moon”, “Wish You Were Here”, “Animals”, as duas partes de “The Wall” e “A Momentary Lapse of Reason”, junta-se uma compilação original, à laia de bónus, de dez “singles”. Em cinco destes, pontifica a presença mítica de Syd Barrett: “Arnold Layne”, “See Emily Play”, “Candy and a current bun”, “Scarecrow” e “Apples and oranges”.
Os compactos vêm arrumados em caixas negras opacas, com a reprodução das capas originais coladas por cima. O alinhamento das respectivas lombadas, por ordem cronológica, revela a imagem de “Dark Side of the Moon” – um raio de luz branca refractado por um prisma nas cores do arco-íris. “Shine On” equivale, deste modo, à edição brochada das obras completas de Eça de Queiroz pelo Círculo dos Leitores, ou a uma série de Enciclopédias Verbo sobre as catatuas da Amazónia. São obras de arte de peso, ideais para impressionar o olhar alheio, do alto das prateleiras, onde, altaneiras, nos contemplam.
A colectânea recupera, sob novas roupagens, peças (importantes umas, medíocres outras) da vida e obra de uma banda marcante dos anos 70, que se arrastou em demasia pela década seguinte. Começa por ter de se lamentar, logo à partida, a não inclusão de dosi álbuns fundamentais: “The Piper At The Gates of Dawn”, único saído directamente da visão e do génio torturado de Syd Barrett e “Atom Heart Mother” – um dos dois álbuns “experimentais”, que foram, por muitos, considerados como os melhores (do outros, a obra-prima “Ummagumma”, há que aceitar ter sido derixado de fora, por ser duplo – sendo preterido a favor de “The Wall” – e porque o primeiro disco é preenchido por versões ao vivo de canções do álbum anterior). Por outro lado, é discutível a inclusão de “Animals” – primeira tenativa gorada de Roger Waters de fazer dos Pink Floyd o divã de psiquiatra para as suas paranoias existenciais – e, por razões emparte opostas, de “A Momentary Lapse of Reason”, um disco anódino, totalmente falho de inspiração, que procura dar vida ao cadáver de uma banda que conseguiu sobreviver sem Barrett, mas que finalmente sucumbiu após o abandono de Waters. Indiscutíveis, pelo papel determinante que desempenharam na evolução da música dos anos 70 e na própria banda, todos os outros.
De “A Saucerful of Secrets” basta referir que foi um marco do psicadelismo, saído das entranhas do “U.F.O. club”, reunindo a poeira residual que Syd deixara a pairar no ar, com as incursões cósmicas-planantes que viriam a determinar a direcção dos álbuns seguintes.
“Meddle”, e em particular a longa faixa do segundo lado, “Echoes” constitui por seu lado a bíblia inspiradora da escola planante alemã, coincidente com a descoberta das virtudes do sequenciador e das potencialidades do espaço sideral. “Phaedra” e “Rubycon”, dos Tangerine Dream, mostraram como era possível levar, até às últimas consequências, a estética que, em primeira mão, os Floyd enunciaram.
Na altura em que “Dark Side of the Moon” foi editado, em 1972, a rádio encarregou-se da divulgação, até à náusea, de temas como “Money”. O disco ainda hoje se agita, no fundo dos “tops” mundiais. Reescutado à distância, tem que se reconhecer que, independentemente das vendas astronómicas, é um bom álbum. Há quem considere melhor o seu sucessor, “Wish You Were Here” – uma homenagem a Syd Barrett lavrada no céu, no tema “Shine on you crazy Diamond”.
Roger Waters tem razões para se orgulhar de “The Wall”, derradeiro álbum conceptual, que encerrou com chave de ouro os anos 70, quando se acreditava que todas as histórias tinham música para as contar. Passa por ser a autobiografia oficial de Roger Waters. Musicalmente, é um disco brilhante. Contém o hino de todos os estudantes do mundo, “Another brick in the Wall” e pavorosas encenações de pesadelo, de que “One of my turns” ficou para a posteridade, como uma das mais perturbantes. Não fossem os Pink Floyd, e o muro nunca teria caído.
Feitas as contas, música num dos pratos da balança, apresentação, livro e postais no outro, chegou-se a uma média de (7).

O LIVRO COM SEGREDOS



“Shine On”, o livro, fornece material suficiente de reflexão e entretenimento aos apreciadores, e não só, dos Pink Floyd. Capa forrada a pano negro. Ao centro, uma espécie de mandala cabalística, desenhada a prateado. Também a prateado, ao alto, a inscrição lapidar: “Pink Floyd Shine On”. São 114 páginas profusamente ilustradeas a cor. Óptima impressão. O conteúdo divide-se em oito capítulos. No primeiro traça-se a cronologia, ano a ano, de 1967 a 1992, do quarto de século de carreira do grupo. Os sete restantes dizem respeito, cada um, ao compacto respectivo e incluem as letras, notas críticas aos discos e a alguns concertos, fotografias raras e extractos de uma entrevista com David Gilmour, entre outros “fait divers”. Dão-se a conhecer coisas curiosas. Por exemplo, a existência de uma banda desenhada, intitulada “The Pink Floyd Experience”, cujos personagens são os membros da banda. Ou de um “Super all-action official music programme for boys and girls”, editado por altura de “Dark Side of the Moon”.
Ficam imagens e recordações de uma banda amada por muitos e odiada por outros. E, para sempre, o espectro de um génio franzino, “morto” ainda em vida: Syd Barrett. A propósito de “Wish You Were Here”, gravado pelos Pink Floyd em sua homenagem, a descrição de um momento irrepetível: “Durante a gravação do disco, nos estúdios Abbey Road, exactamente no dia escolhido para fazer os apoios vocais para “Shine on you, crazy Diamond”, quem havia de aparecer senão o próprio Syd Barrett?! A música de “Shine On” flutuava pelos corredores do estúdio e lá estava ele, em pessoa. Não era visto havia sete anos. Apareceu, simplesmente, sem se fazer anunciar – gordo, careca e com ar assombrado. Alguns elementos da banda nãoo reconheceram imediatamente, outros ficaram comovidos. Roger Waters confessou mais tarde que chorou. A determinada altura, Syd perguntou se podia ajudar nalguma coisa; ele estava disponível, se fosse necessário. Ninguém o vira nos últimos sete anos! E desde esse dia não voltou a ser visto.”

Julian Cope – “Julian Cope Actuou Em Lisboa E No Porto – O Santo De Calções”

Cultura >> Domingo, 15.11.1992


Julian Cope Actuou Em Lisboa E No Porto
O Santo De Calções


O prometido é devido. Julian Cope cumpriu a promessa feita na conferência de imprensa e apresentou-se no Coliseu, em Lisboa, de calções e “collants”. Num “show” de rock psicadélico que incluiu misticismo, totós e algum teatro. O ex-vocalista dos Teardrop Explodes recriou mitos e pedras. Cantou canções antigas e temas do novo álbum “Jeovahkill”. O público preferiu as primeiras.



Não é vulgar um santo, um místico, vá lá, alguém interessado pela religião e pela salvação da humanidade, apresentar-se em público de cações. É que a um santo (título ganho após a gravação do álbum “Saint Julian”), pede-se pelo menos que não deixe cair a auréola. Ultimamente Julian Cope tem-se interessado por pedras. Pedras monumentos, tipo Stonehenge e Sé de Braga, carregadas de simbolismo. Aqui sim, manifesta-se uma coerência de princípios, uma continuidade em relação ao outro tipo de pedras que ao longo dos anos lhe tem moldado a cabeça e mostrado os caminhos do oculto. Há 25 anos, arriscava-se a que lhe chamassem “hippie”.
Palco a condizer, sexta À noite no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, com a atmosfera de profundo recolhimento e descoberta espiritual que marcou discos recentes como “Peggy Suicide” e o novo “Jeovahkill”, no qual Cope mistura os Faust com os celtas, e cruzes com serpentes. O mesmo deverá ter acontecido ontem no Coliseu do Porto. Sobre um pano preto, um sol e uma lua, símbolos dos princípios masculino e feminino, Yang e Yin, enxofre e mercúrio para os alquimistas. Por baixo uma montanha – o planeta Terra – e uma luz bruxuleante no centro, o fogo de Agartha, o coração da Mãe. Colunas de som cobertas por pinturas douradas de cromeleques em forma de cruz. Para o pessoal que enchia a plateia do Coliseu apenas para curtir a deles, abanar o capacete e passar uns momentos agradáveis, foi simbologia a mais. Até porque Julian Cope fez questão de preencher a primeira parte do concerto com temas de “Jeovahkill” que, para ouvidos habituados à papinha feita, soam assim a atirar para o esquisito. Não faltou então o coro de assobios, a excitação de quem não compreende nem aceita a novidade, enfim, o arraial do costume.
“Upwards at 45°”, “No hard shoulder to cry on” e “Slow Rider”, temas de “Jeovahkill”, complicaram com os nervos dessa parte do público que apenas se lembrava dos Teardrop Explodes. “Slow diver” acabou mesmo por dar razão a Julian Cope quando se refere à influência dos Faust – grupo experimental alemão dos anos 70 (ver suplementoPop Rock de 11 de Novembro) – na música de “Jeovahkill”. Neste tema, a utilização vocal bizarra das bochechas, seguida de um delírio “free” guinchado pelo saxofone de Rosster Cosby (Julian Cope substitui-o na bateria) remeteu de facto para uma sequência semelhante dos Faust, em “The Faust Tapes”.
Depois de uma intervenção enigmática (“obrigado, o.k.”9 de Cope, foi a vez de uma dose reforçada de “Peggy Suicide” e de psicadelismo ecológico: “East easy rider”, “Jelly Pop”, “Safe Surfer”, “Pristeen, take one”, “Beautiful Love”, intercalados do hit “Sunspots” (do álbum “Fried”). Momentos houve de grande psicadelismo, com holofotes apontados à cara da assistência, “feedbacks” de guitarra cósmico-alucinantes e gritos de Pop existencial. Tudo isto, mais os calções preto amarelos, os “collants”, o cabelo preso por totós, ultrapassou de longe o significado de Woodstock e quase levou a pequena multidão ao delírio.
Então a loucura deu lugar à pausa de três temas acústicos, interpretados por Cope sozinho na guitarra: “The greatness & perfection of love”, “Saint Julian” e “Passionate friend” (do clássico “Wilder”). Já hipnotizadas, psico-seduzidas, rendidas à influência magnética e aos adereços do santo, as pessoas não protestaram e até aplaudiram. Milagre. Milagre!

Varina Psicadélica

Sucederam-se a partir de aqui os instantes de pura magia. Julian Cope acocorou-se junto à plateia e conversou com os da frente. Aplausos. O pessoal aprecia o diálogo. Cope dobrou-se sobre o microfone, circulou pelo palco como se deslizasse em patins, pôs-se de gatas, traseiro voltado para a assistência. Apesar dos calções serem curtos, não houve abusos. Meneou as ancas, braços na cintura, qual varina psicadélica. Finalmente rematou a faena com um elegante “espeta cu”, de novo voltado de costas para o público, querendo decerto através desta sequência mítico-teatral simbolizar o lado feminino do ser humano (lua, Yin, mercúrio, Guida Scarlatty, etc.).
Findo o ritual de homenagem à Mãe, “Bouncing babies”, “Books” (de “Kilimanjaro”, primeiro álbum dos Teardrop Explodes), “Dope & speed”, “Books”, “Bloopy assizes” e “Space hooper” deram lugar ao tema de encerramento, “Reynard the Fox”, pretexto para uma explosão final de telurismo, “strobe lights”, uma batida infernal e nova lição de arte gestual que culminou com Cope de braços abertos, de costas voltadas para a audiência, mártir em entrega sacrificial aos irmãos planetários.
Cumpridas as exigências do contrato, Julian Cope regressou ao palco para mostrar outros calções, distribuir algumas garrafas de água (alusão ao bíblico maná?) e despachar dois “encores”: “World shut your mouth” (título significativo) e “Reward” (título ainda mais significativo). Tudo terminou em encantamento e elevação espiritual, o que prova que Cope conseguiu fazer passar a mensagem, com um grupo de putos possessos pelo frenesim divino, a distribuir pontapés pelas latas de cerveja espalhadas pelo chão. Assim dá gosto. Aum.

Faust – “Faust” + Faust – “So Far” + Faust – “The Faust Tapes” + Faust – “Seventy Minutes Of… (“Munich & Elsewhere + The Last LP)”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 11.11.1992

REEDIÇÕES


REGRESSO DE UMA LENDA

FAUST
Faust (10)
So Far (10)
CD Polydor, import. Contraverso
The Faust Tapes (10)
Seventy Minutes Of… (“Munich & Elsewhere + The Last LP) (7)
CD Recommended, import. Contraverso


Na década de todos os regressos, coube a vez aos Faust de ressuscitar da sepultura. Seria impossível imaginá-los, 17 anos volvidos sobre a sua extinção, a actuar de novo ao vivo. Mas foi o que aconteceu, a 23 de Outubro passado, quando a lendária banda germânica pisou o palco do Marquee Club, em Londres. De novo tudo volta a ser possível. Os discos, com lugar reservado na eternidade, foram reeditados em compacto.
Coincidindo com a onda de renovado interesse pelos Faust, a Polydor japonesa reeditou em compacto dois álbuns da banda germânica, que, à entrada dos anos 70, criaram uma alternativa credível ao “rock sinfónico”: “Faust”, de 1971, e “So Far” (inclui reproduções das gravuras que faziam parte do pacote da primeira edição), de 1972. Estas reedições vieram juntar-se a “The Faust Tapes” (1973) e “Seventy Minutes Of…” (junção inéditos dispersos contidos em “Return of a Legend: Munich & Elsewhere” e “The Last LP” ou “The Party Album” como também é conhecido) que a Recommended já havia lançado, no mesmo formato, anteriormente no mercado. À época, a crítica inglesa arrumou o grupo alemão no compartimento geral do “krautrock”, onde cabiam tendências estéticas tão diversificadas como a ala cósmico-planante, representada por Klaus Schulze, Tangerine Dream e Ashra; os “místicos” classicistas como Popol Vuh, Wallenstein, Parzival, Höelderlin, Yatha Sidhra e Mythos; os “rockers” mais ou menos radicais, Guru Guru, Jane, Amon Düül II, Grobschnitt; os electrónicos / industriais / repetitivos Kraftwerk, Cluster, Neu, Harmonia, La Düsseldorf. E os Can, que não se pareciam com ninguém. Hipotético denominador comum entre todos, o psicadelismo levado aos limites. Da vibração cósmica pura (Klaus Schulze), por um lado, ao telurismo tribal (Can), por outro. Em qualquer dos casos, a vontade de transe hipnótico, à custa da repetição e da exploração exaustiva de timbres. A par de uma concepção totalitária da música, à maneira romântica, que encontrou inspiração nos clássicos, sobretudo Wagner, e em mestres da música contemporânea erudita – do minimalista Terry Riley ao concretista Stockhausen. Formados em 1971 por Werner Diermaier, Rudolph Sosna, Gunther Wusthoff, Joachim Irmler e Jean-Hervé Peron, a banda, logo no álbum-estreia, “Faust”, conseguiu surpreender tudo e todos. “Faust” era, em múltiplos aspectos, um disco revolucionário. Desde a apresentação (capa original, vinil e folha informativa transparentes) até à música, totalmente original, construída a partir de colagens sonoras, que aliavam a música concreta, electrónica em estado bruto, guitarras “velvetianas” no limite da distorção, vagas instrumentais wagnerianas, declamações fonético / melódicas plurilinguísticas, citações dilaceradas dos Beatles, Rolling Stones e Beach Boys, e fragmentos de canção pop que se colavam irremediavelmente ao ouvido. Neste disco os Faust inauguravam fórmulas musicais até então inéditas na pop (exceptuando talvez o caso dos Mothers of Invention), que viriam a ser compreendidas e recuperadas, melhor do que ninguém, do outro lado do Atlântico, pelos Residents e, no seu país natal, por um dos alquimistas de som dos anos 90, Holger Hiller. Se “Faust” era a transparência absoluta, “So Far”, o álbum seguinte, era o oposto. Capa e rótulo interior negros. Em separata, gravuras coloridas alusivas a cada tema. “So Far” começa por uma sinfonia de martelo-pilão e acaba num “pastiche” ao jazz de New Orleans. Pelo meio, melodias sobrenaturais, ritmos de pesadelo, uma contenção máxima do vocabulário favorável a mil ambiguidades, “riffs” de guitarra saturada na melhor tradição dos Velvet Underground, um humor que não se julgaria possível em alemães (explorado em maior extensão em “Acnalbasac Noom”, “Casablanca Moon” ao contrário, com os Slapp Happy de Anthony Moore, Peter Blegvad – que chegou a integrar uma das formações dos Faust – e Dagmar Krause) e uma síntese final que, a cada segundo, apontava novas orientações estéticas passíveis de exploração.
“The Faust Tapes”, lançado em 1972, primeiro para a Virgin, foi posto à venda no Reino Unido por 49 pence – o preço de um “single”. Depois, para quem até essa altura se havia queixado de falta de informação, uma capa completamente preenchida por textos informativos. “Overdose” semântica que encontrava paralelo na grandiosa orgia de sons e ideias que até hoje permanece como uma das obras-orimas da música experimental de todos os tempos. São quarenta e tal minutos de uma faixa única (a versão em CD foi indexada em 26 partes), composta por fragmentos de estúdio, interligados num mosaico vertiginoso. Um trabalho genial do qual, ano após ano, foram brotando sementes, que aproveitaram a uma legião de novos nomes que na Recommended encontraram terreno fértil para se desenvolverem: 5 Uu’s, Motor Totemist Guild, La 1919/Luciano Margorani, When, Jocelyn Robert, Die Vogel Europas, After Dinner, Art Barbeque, Biota / Mnemonists, Expander des Fortschritts, entre outros, sem esquecer os Negativland e os Residents. O derradeiro álbum de originais gravado antes do grupo se extinguir, “Faust IV”, é mais contido e pensado que os anteriores. No início, uma paródia demencial à paranoia repetitiva a que alguns tinham reduzido o rock alemão (repetição que, num registo sério, fora levada ao limite do suportável, no disco grabado por alguns elementos dos Faust com o violinista Tony Conrad – “Outside the Dream Syndicate”), com o título precisamente de “Kraut Rock”, mostra até que ponto os Faust tinham tomado consciência da sua importância, o que, de certo modo, acabou por limitar um pouco a criatividade. As melodias são mais óbvias. É notório um tipo de alusões explicitamente “Faust”, quer dizer, a um som tornado já imagem de marca. Indispensável, apesar de tudo, e muitos furos acima da produção média dos anos 70. Alguns anos depois da aventura ter chegado ao fim (a extinção “oficial” do grupo é geralmente dada em 1975), a Recommended lançou os dois álbuns póstumos já mencionados, “Return of a Legend: Munic & Elsewhere” e “The Last LP”, com o objectivo de manter viva a lenda que o título do primeiro não disfarça, e de trazer para a ribalta algumas das peças que faltariam à conclusão do “puzzle”. A audição dá a perceber as razões que levaram os Faust, na altura, a deixar de foa este material, embora no primeiro caso este se destinasse a ser editado. Faz então sentido dizer que o “lixo” tem tanto valor como o “ouro” de outros. Com a actual reformação da banda, voltam a ser lícitas todas as expectativas.