LA! NEU?
Year of the Tiger
Captain Trip, import. Ananana
8|10
Klaus Dinger, sobrevivente do krautrock da geração de 70 (integrou os Kraftwerk, Neu! e La Düsseldorf), prossegue a remontagem do passado com os La! Neu?, neste disco com Rembrandt Lensink, Rüdiger Elze e Viktoria Wehrmeister. “Year of the Tiger” é um “tour de force” composto por dois temas com mais de meia-hora de duração cada. “Autoportrait Rembrandt mit Viktoria + Apache”, adaptação de um tema original de Lensink, é um tratado de motorika cósmico como nunca os Neu! se atreveram a fazer, enquanto em “Notre Dame” (também título de um tema dos Harmonia) Dinger sustenta com batida tribal a voz “eletricificada” de Viktoria a dizer inanidades psicadélicas em francês, e guitarras em estado de acidez alucinatória. No papel parece de fugir, na prática “Year of the Tiger” constitui um desafio à disciplina do corpo e do espírito.
Snakefinger (na foto) podia gabar-se de ser um dos poucos eleitos que conhecia os nomes dos Residents. Colaborador em vários álbuns da banda responsável por “The Third Reich ‘n’ Roll”, o guitarrista, entretanto falecido, gravou a solo uma série de álbuns dos quais a Euro Ralph voltou a reeditar “Chewing Hides the Sound” (1979) e “Greener Postures” (1980), agora em digipak duplo com versões remasterizadas. Inseparável dos Residents, com os quais muitos dos temas foram compostos em parceria, a obra de Snakefinger cultivou o lado mais pop e “naif” do grupo em canções suturadas com a agulha da excentricidade.
“Chewing Hides the Sound” contém uma versão bubblegum/Residents de “The Model”, dos Kraftwerk, “Magic & Ecstasy”, de Ennio Morricone, e “cartoons” que não destoariam como complemento de filmes de David Lynch, como “Jesus was a leprechaun”, “The vivian girls” e “Who is the culprit and who is the victim?”. Steven Brown dos Tuxedomoon, participa como convidado.
Outro músico dos Tuxedomoon, Blaine L. Reininger, colabora também como convidado em “Greener Postures”, um álbum mais equilibrado, mas onde era já notória a cristalização de um estilo que o guitarrista ainda manteria na órbita de uma esquizofrenia iluminada no álbum seguinte, “Manual of Errors”, mas que finalmente se esvaziaria no derradeiro “Night of desirable Objects”, com os Vestal Virgins. (Euro Ralph, import. Ananana, 8 e 7).
Dos nomes mais antigos e ainda em actividade (gravou já este ano “Fossil Culture”, em duo com o alemão Peter Frohmader, para a editora Cuneiform), oriundo da cena electrónica alternativa francesa dos anos 70, Richard Pinhas é também um dos menos conhecidos. Fundador dos Schizo, dos Ose e dos Heldon – cuja música era o equivalente electrónico do totalitarismo nietzschiano dos Magma –, com quem gravou o apavorante “Un Rêve Sans Conséquence Spéciale”, Pinhas é outro dos pilares cuja influência e recorrência na vertente mais electrónica do pós-rock se fará decerto sentir com redobrada intensidade nos próximos tempos (depois dos Cluster, Neu! e Pyrolator e antes, acreditamos nós, dos australianos Severed Heads).
Em “Iceland” estão patentes todos os principais tópicos musicais de Pinhas: ritmos electrónicos paquidérmicos atafulhados com o som cheio dos sintetizadores e sequenciadores analógicos, o embate de placas de música concreta, um minimalismo corrosivo e o inconfundível “soloing” na guitarra eléctrica que fés de Pinhas o mais importante discípulo de Robert Fripp, influência que, de resto, o músico francês nunca escondeu. Imagine-se uma argamassa, batida numa misturadora de betão, dos Magma, Tangerine Dream, Terry Riley e King Crimson filtrada por uma trituradora electrónica e colada às patas de Godzilla (Spalax, import. FNAC, 8).
Mais uma reedição remasterizada da primeira fase dos Strawbs, “Grave New World” constitui o ponto mais alto a que a obra do grupo do vocalista Dave Cousins se alcandorou, sendo um álbum de referência do folk progressivo britânico dos anos 70, a par de “Cruel Sister” dos Pentangle, “Babbacombe Lee” dos Fairport Convention ou “Below the Salt” dos Steeleye Span e uma das obras-chave do género. Harmonias vocais saídas das gargantas dos anjos, melodias onde é possível detectar traços dos Genesis, electricidade rock, baladas bucólico-surreais (ainda numa linha genesiana de temas como “For absent friends” ou “Harlequin”, ou com sabor a Roy Harper, como em “Heavy disguise”), prestidigitação de estúdio (“loops”, inversões de fita, distorções, acumulação de efeitos electrónicos), laivos de psicadelismo “a la” Incredible String Band, combinados com um sentido épico que poucos grupos folk se atreveram a usar, fazem de “Grave New World” um objecto de fascínio e descoberta, tão deslocado nos dias de hoje como imbuído da magia de uma época que jamais se repetirá (A&M, import. Lojas Valentim de Carvalho, 9).
Por falar em progressivo, os Gracious foram, em 1970, uma das bandas portadoras daquilo que, na altura, se poderia definir como a mística do movimento. Da capa de abrir, com um enorme ponto de exclamação em efeito óptico sobre fundo branco, ao próprio nome do grupo, desprendia-se dos Gracious algo de especial que a música se encarregaria de confirmar. O álbum de estreia, “Gracious!” – acoplado nesta edição remasterizada de dois em um a “This is… Gracious!” – é um daqueles discos onde todos os clichés do progressivo se confundiam com uma genuína criatividade, nas vagas de mellotron, nos solos de órgão, de cravo (numa impensável “Fugue in ‘D’ minor”…) ou de guitarra, mas sobretudo na originalidade de composições que, ao contrário de muitas outras bandas da altura, escapavam a qualquer forma de copismo.
À saída da pop psicadélica, anunciando a era dourada do progressivo, “Gracious!” leva-nos por uma viagem que começa no paraíso e acaba no inferno, em “Hell”, sequência vertiginosa de mudanças de registo, da electrónica enfeitiçada ao can-can, que chega a lembrar a obra-prima “An Electric Storm” dos White House. O longo e último tema, “The Dream”, faz justiça ao título, uma alucinação nocturna em technicolor na linha dos melhores Gentle Giant para ouvir de noite num quarto secreto.
Infelizmente o álbum seguinte, derradeiro do grupo, “This Is… Gracious!”, é uma caricatura do primeiro, o ponto de exclamação da capa com o feitio de um vitral colorido, sobre fundo negro, e os 21 minutos de “Supernova” a serem alvo de interesse apenas para os aficionados do som do mellotron. (BGO, import. Megamúsica, média 7).
ROXY MUSIC
Roxy Music (10)
For your Pleasure (10)
Stranded (10)
Country Life (8)
Siren (8)
Virgin, distri. EMI-VC
“Is this a recording session or a cocktail party?”. A frase, extraída do texto de apresentação de “Roxy Music” assinado por Simon Puxley, reflecte o espanto e a admiração geral causados pela bomba, lançada em pleno período glam, pelos Roxy Music. Bryan Ferry e Brian Eno, que nessa época disputavam a atenção dos holofotes, Phil Manzanera e Andy Mackay, núcleo principal dos Roxy, estreavam-se com um monumental cocktail de memórias e sons futuristas que misturavam a herança do rock ‘n’ roll com a electrónica e o “crooning” surrealista do seu vocalista, Bryan Ferry. Tudo embalado numa estética glam que os Roxy transformavam num produto definitiva e ironicamente à altura das mentalidades mais “arty”. “Roxy Music” é uma vertigem imparável onde cada som permanece pouco tempo no seu lugar. O sax cabaré-galáctico de Andy Mackay, a guitarra incendiária de Manzanera e a passagem de modelos de electrónica retro de Eno envolviam os requebros vocais de Ferry tanto num vestido de cetim como no cenário mais bizarro de um filme de ficção-científica da série Z. O tema de abertura, “Re-make, re-model” sintetiza a estética do grupo. Uma sucessão de climas contraditórios e, contudo, surpreendentemente coerentes, que parodiava o jazz e usava como refrão uma matrícula de automóvel, “CPL 593 H”. “Ladytron”, “If there is something”, “2 HB” (“to Humphrey Bogart”) e “Chance meeting” são canções que colocavam os Roxy Music no trono da música mais original desta época, ao lado de David Bowie.
“Foy your Pleasure”, de 1973, consegue a proeza de ser ainda melhor que o seu antecessor. Mais cerebral e equilibrado, também mais experimental que “Roxy Music”, dá maior espaço de manobra aos solistas, que aproveitam para criar sequências instrumentais sem paralelo na música popular. Houve quem chamasse a este disco a obra psicadélica dos Roxy Music, o último com Brian Eno que, no álbum seguinte, seria substituído por Eddie Jobson, multinstrumentista oriundo dos Curved Air. O álbum inclui uma das mais arrasadoras canções pop de sempre, “In every dream home a heartache”, história de amor e de vazio com uma boneca insuflável, num crescendo de tensão que, finalmente, explode num solo arrasador de guitarra (a memorável versão alongada desta tema incluída no álbum ao vivo do grupo, “Viva!”, prolonga esta dialéctica até ao intolerável).
“Stranded”, também, de 1973, acentua o “crooning” genial de Bryan Ferry, um jogador nato, no qual se torna, por vezes, distinguir a realidade e a ficção. Quando Ferry entorna a voz pelos acordes ultra-românticos de um tema para a Eurovisão, “A song for Europe”, não sabemos até que ponto o homem se confunde com a personagem. “Street life”, “Amazona” e “Mother of pearl” (com um viciante refrão, numa das canções mais belas e sensuais da discografia dos Roxy) são clássicos instantâneos.
Com “Street Life”, de 1974, os Roxy baixam pela primeira vez a fasquia. Se o desempenho vocal de Ferry continua ao seu melhor nível, as canções acusam porém um certo cansaço, como se a banda tivesse interiorizado a temática de uma das canções deste álbum definitivamente para ouvir na companhia de uma garrafa de champagne: “Casanova”, história de ressaca, o fim da festa no limiar da decadência. “Siren” é, sobretudo, um grande disco de rock com um punhado de boas canções, como “Love is the drug” e o altamente inflamável “Both ends burning”. Embalados a primor nos perversos retratos femininos das capas originais, os cinco discos foram remasterizados e os livretes incluem a totalidade das letras. Indispensáveis.