Arquivo de etiquetas: Roxy Music

Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #81 – “Roxy Music (Pedrotaos)”

#81 – “Roxy Music (Pedrotaos)”

Fernando Magalhães
22.02.2002 140208
Os cinco primeiros álbuns são essenciais.

ROXY MUSIC (9/10)
FOR YOUR PLEASURE (10/10)
STRANDED (9,5/10)
COUNTRY LIFE (8/10)
SIREN (8,5/10)

Da segunda fase, já não gosto tanto…

Ah, sim, e o álbum ao vivo dos anos 70, vale pela fenomenal (repito, FENOMENAL, superior à versão de estúdio contida no “For your Pleasure”) versão de “In every dream home, a heartache” – história de um homem apaixonado pela sua boneca insuflável…espantosa declaração sobre o vazio de uma certa vivência burguesa (Hollywood, Hollywood…) servida por uma tema musicalmente obsessivo (na versão ao vivo, ainda mais) que culmina na frase: “I blow up your body, but you blew my mind!”

FM

Roxy Music – “Heart Still Beating”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 28 NOVEMBRO 1990 >> Pop Rock >> LP’s


ELEGÂNCIA DECADENTE

ROXY MUSIC
Heart Still Beating
LP e MC duplos e CD, E.G. Records


Bryan Ferry afirma nada ter a ver com a edição deste álbum, gravado ao vivo em Frejus, França, há já perto de nove anos. Mais: não gostava dele na altura em que foi gravado, muito menos agora. Por seu lado, indiferente às queixas do cantor e Casanova de serviço nos Roxy Music, a editora, sem mencionar a data de gravação, apresenta o produto como se fosse o novo disco da banda, recorrendo ainda ao truque de mostrar uma das figuras femininas, fetiche de álbuns anteriores, de pose renovada – cabelos rapados, tronco masculino e olhar de pugilista andrógino.
Postas de lado tais questões chega-se à conclusão que Bryan Ferry até nem terá grandes razões para se sentir envergonhado. Comparado, por exemplo, com o recente vídeo a solo, verifica-se que a sua voz se encontrava então em bem melhor forma do que agora e que nunca a sua produção musical mais recente se voltou a equiparar aos feitos de antanho.
Descontando a irritação que as palmas do público possam provocar, o disco apresenta uma seleção de alguns dos grandes momentos da banda, então composta por Ferry, Phil Manzanera e Andy MacKay, auxiliados por outros cinco instrumentistas e um trio vocal feminino. Ao todo são catorze temas, abrangendo quase uma década, desde 1973, data do segundo álbum, “For Your Pleasure”, até 1982 e “Avalon”.
Representam a fase inicial dos Roxy Music (quando ainda integravam o “glamour” decadentista de Brian Eno) os temas “Editions of you” e “A Song for Europe”, este último “pastiche” irónico ao sentimentalismo de pacotilha das canções da Eurovisão, encenado e interiorizado por Ferry como se a verdade fosse feita de néons, lantejoulas e eternas “féeries” de champanhe.
Elegância decadente, o tempo que não passa e quando passa já é demasiado tarde para recuperar o que num ápice de serpentinas de perdeu. Tristeza imensa de um copo vazio, de madrugada, no terraço, e a lembrança de um decote de seda imaginado, de um nome que as brumas do álcool evocam sem cessar e fizeram esquecer – “Out of the Blue”, do álbum “Country Life”. Depois foram “Love is the Drug” e “Both Ends Burning”, de “Siren”, despedida de Ferry como ator de fantasias eróticas, sonhadas na companhia de bonecas insufláveis. A partir de aí levou-se a sério, perdendo-se na mudança de atitude o “charme” teatral e o humor inteligente que eclode da distanciação.
Renascidos das cinzas, os Roxy Music limitaram-se a passear por entre as ruínas esplendorosas do passado, com Ferry vestindo de vez a pele do romântico incorrigível, “crooner” de casinos sentimentais pintados em tons americanos e suavidades de veludo, acrescidos do fascínio da dança: “Manifesto”, “Flesh and Blood” e “Avalon”. O fantasma de Lennon em “Jealous Guy”, “Like a Hurricane” de Neil Young e o tema para a guitarra de Manzanera, “Impossible Guitar” são outros bons momentos de um disco que, se por ser ao vivo desfaz a ilusão introspetiva da alquimia Roxy, nem por isso obsta a uma diferente fruição de canções, entretanto alcandoradas ao estatuto de “clássicas”. (***)

Roxy Music – “Roxy Music” + Roxy Music – “For Your Pleasure” + Roxy Music – “Stranded” + Roxy Music – “Country Life” + Roxy Music – “Siren”

Sons

29 de Outubro 1999


Roxy is the drug

ROXY MUSIC
Roxy Music (10)
For your Pleasure (10)
Stranded (10)
Country Life (8)
Siren (8)
Virgin, distri. EMI-VC



rm

“Is this a recording session or a cocktail party?”. A frase, extraída do texto de apresentação de “Roxy Music” assinado por Simon Puxley, reflecte o espanto e a admiração geral causados pela bomba, lançada em pleno período glam, pelos Roxy Music. Bryan Ferry e Brian Eno, que nessa época disputavam a atenção dos holofotes, Phil Manzanera e Andy Mackay, núcleo principal dos Roxy, estreavam-se com um monumental cocktail de memórias e sons futuristas que misturavam a herança do rock ‘n’ roll com a electrónica e o “crooning” surrealista do seu vocalista, Bryan Ferry. Tudo embalado numa estética glam que os Roxy transformavam num produto definitiva e ironicamente à altura das mentalidades mais “arty”. “Roxy Music” é uma vertigem imparável onde cada som permanece pouco tempo no seu lugar. O sax cabaré-galáctico de Andy Mackay, a guitarra incendiária de Manzanera e a passagem de modelos de electrónica retro de Eno envolviam os requebros vocais de Ferry tanto num vestido de cetim como no cenário mais bizarro de um filme de ficção-científica da série Z. O tema de abertura, “Re-make, re-model” sintetiza a estética do grupo. Uma sucessão de climas contraditórios e, contudo, surpreendentemente coerentes, que parodiava o jazz e usava como refrão uma matrícula de automóvel, “CPL 593 H”. “Ladytron”, “If there is something”, “2 HB” (“to Humphrey Bogart”) e “Chance meeting” são canções que colocavam os Roxy Music no trono da música mais original desta época, ao lado de David Bowie.
“Foy your Pleasure”, de 1973, consegue a proeza de ser ainda melhor que o seu antecessor. Mais cerebral e equilibrado, também mais experimental que “Roxy Music”, dá maior espaço de manobra aos solistas, que aproveitam para criar sequências instrumentais sem paralelo na música popular. Houve quem chamasse a este disco a obra psicadélica dos Roxy Music, o último com Brian Eno que, no álbum seguinte, seria substituído por Eddie Jobson, multinstrumentista oriundo dos Curved Air. O álbum inclui uma das mais arrasadoras canções pop de sempre, “In every dream home a heartache”, história de amor e de vazio com uma boneca insuflável, num crescendo de tensão que, finalmente, explode num solo arrasador de guitarra (a memorável versão alongada desta tema incluída no álbum ao vivo do grupo, “Viva!”, prolonga esta dialéctica até ao intolerável).
“Stranded”, também, de 1973, acentua o “crooning” genial de Bryan Ferry, um jogador nato, no qual se torna, por vezes, distinguir a realidade e a ficção. Quando Ferry entorna a voz pelos acordes ultra-românticos de um tema para a Eurovisão, “A song for Europe”, não sabemos até que ponto o homem se confunde com a personagem. “Street life”, “Amazona” e “Mother of pearl” (com um viciante refrão, numa das canções mais belas e sensuais da discografia dos Roxy) são clássicos instantâneos.
Com “Street Life”, de 1974, os Roxy baixam pela primeira vez a fasquia. Se o desempenho vocal de Ferry continua ao seu melhor nível, as canções acusam porém um certo cansaço, como se a banda tivesse interiorizado a temática de uma das canções deste álbum definitivamente para ouvir na companhia de uma garrafa de champagne: “Casanova”, história de ressaca, o fim da festa no limiar da decadência. “Siren” é, sobretudo, um grande disco de rock com um punhado de boas canções, como “Love is the drug” e o altamente inflamável “Both ends burning”. Embalados a primor nos perversos retratos femininos das capas originais, os cinco discos foram remasterizados e os livretes incluem a totalidade das letras. Indispensáveis.