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Ala Dos Namorados – “Ala Dos Namorados – À Segunda Uma Dama Azul, Verde E Amarela” (entrevista)

pop rock >> quarta-feira >> 03.05.1995


Ala Dos Namorados À Segunda
Uma Dama Azul, Verde E Amarela



Em “Por Minha Dama”, segundo álbum da Ala dos Namorados, Nuno Guerreiro baixa a altura da voz e o grupo demonstra uma maior descontracção no tratamento dos valores e iconografia poética de um Portugal tradicional. Cores mais vivas para um projecto que por agora ainda não é um “monstro”.

João Gil, Nuno Guerreiro, José Carrapa e Manuel Faria estão numa fase de autodescoberta, sem preocupações de mostrar uma linha de orientação definida. Por enquanto é o gozo pessoal a ditar leis.
PÚBLICO – Existe alguma unidade temática no álbum?
JOÃO GIL – Não há nenhuma história central. Cada canção pretende ser uma ilha onde tudo acontece, um pequeno filme com as suas personagens. O acoplamento foi feito unicamente de acordo com o prazer de ouvir.
P. – O grupo insere-se na corrente, agora muito em voga, que explora os símbolos e valores de um Portugal histórico e tradicionalista?
J. G. – Todos os fenómenos desse tipo que têm acontecido são exteriores ao próprio grupo. Se as pessoas se sentem atraídas por um determinado tipo de música ou de valores, tal é completamente alheio ao nosso acto de compor, ao acto de cantar, ao acto de arranjar. Este segundo trabalho da Ala dos Namorados abre um leque masi vasto de influências, incluindo as nossas raízes históricas e tradicionais. Se no primeiro disco tínhamos uma tendência para o lado mais urbano, mais fado, mais “cinzento”, aquele estado de espírito muito lisboeta, neste abrimos o leque. É um disco muito mais divertido, mais exterior, onde a abordagem se faz com outras cores. Digamos que aqui são o azul, o verde e o amarelo, cores vivas, ao passo que o primeiro disco poderia ser definido por um azul-escuro, um indigo ou um cinzento.
P. – Até que ponto vai o vosso interesse pelas raízes históricas que referiu? São tão sérios, por exemplo, À maneira de uns Madredeus?
J. G. – Nós ainda não criámos um “monstro”! Ainda não tivemos tempo para criar um “monstro” musical. Ainda não criámos um arquétipo que se identifique com a Ala dos Namorados.
P. – Estão preparados para lidar com esse monstro, se eventualmente vier a nascer?
JOSÉ CARRAPA – Não queremos, não podemos, nem temos a intenção de criar uma linha musical específica. As canções são isoladas. A maneira como depois as abordamos tem a ver com a sensibilidade de cada um. É o gozo instrumental de põr em determinada linha melódica ideias e conteúdos que nos dão prazer.
P. – É a voz do Nuno Guerreiro que faz a unidade do grupo?
J. C. – Para a sonoridade do disco, sim.
NUNO GUERREIRO – Mas se não fosse o grupo eu não era nada. Acho que dependemos todos uns dos outros.
J. G. – Antes de aparecer o Nuno e o Zé Carrapa, em casa do Manuel Paulo, tivemos uma primeira ideia, de fazer cada canção um filme diferente, pensando para isso, utopicamente, ter um cantor diferente para cada uma delas. Ao aparecer o Nuno, ele veio dar um tecto único às várias divisões de uma casa.
P. – Há talvez um efeito perverso na voz. É ela que dá coesão ao grupo, mas ao mesmo tempo arrisca-se a provocar um certo cansaço. Por exemplo, neste disco, acabam por ser mais originais os momentos em que o registo vocal desce das alturas habituais do contra-tenor…
J. G. – O que acontece é que o Nuno está a encontrar-se, a iniciar uma carreira, a descobrir qual é o potencial da sua voz. Nós, os três mais velhos, temos se calhar uma percepção diferente da dele e tentamos abrir-lhe alguns horizontes.
J. C. – … Por vezes experimentamos pô-lo a cantar uma oitava abaixo.
N. G. – … E a existência de temas instrumentais quebra um pouco esse cansaço que refere.
J. G. O facto de o Nuno conseguir dominar aquilo que é falso nele, que é a parte mais grave da voz, é mais uma porta que se abre e menos ficamos presos a “monstros”. Posso dizer que, no estúdio, o Nuno odiou-nos quando lhe pedimos para cantar num tom mais grave. Ele não se sentia bem. Agora diz que é das coisas que gosta mais de ouvir.
N. G. – A maior parte dos contra-tenores trabalha com voz de falsete, com a minha garganta. A minha, pelo contrário, é uma voz de peito.
P. – A música da Ala dos Namorados pode ser considerada “reacionária”?
J. G. – Boa pergunta! Não se é reacionário por se estabelecerem pontes com uma tradição que existe na cultura portuguesa. Manter traços, valores, em relação à divisão do português – não trocar os acentos, não fazer cacofonias, repetir frases porque dá jeito -, para encontrar um determinado fraseado do texto, obedece a leis históricas, com muitas tradições em Portugal. O Zeca Afonso menteve esse rigor, o Adriano Correia de Oliveira também, como o Fausto, o José Mário Branco ou o Vitorino. O Alfredo Marceneiro era um tipo extremamente rigoroso nesse aspecto. É uma das atitudes mais revolucionárias que existe. Viro portanto a questão ao contrário. Podia falar de um rol de autênticas provocações à língua portuguesa, essas sim posições reacionárias.
P. – Como surgiu a inclusão da versão em cante alentejano, pelo coro dos camponeses de Pias, da “Canção de ida e volta”?
J. G. – É uma história engraçada. Tínhamos uma canção composta por mim, com muito espaço, que foi gravada com o máximo de simplicidade, com a voz e a guitarra. A respiração não era definida, não havia um compasso nem uma estrutura rítmica a respeitar. Havia apenas que seguir a voz. Tentámos definir a paisagem alentejana pelo lado do sil~encio, mais ry-cooderiano da questão, enfrentar uma paisagem tão gigantesca e tão pesada da maneira mais antidemagógica, com menos intensidade sonora. Tínhamos como que um produto estilizado. Fomos então à procura de uma hipotética “versão original” no seu estado mais bruto. Fizemos o percurso inverso e imaginámos como poderia ser a “Canção de ida e volta” no estado de pepita. Encontrámos esse estado no cante. Foi de facto um percurso de ida e volta.
J. C. – O coro de Pias pediu, inclusive, se podia incluir a canção no reportório deles.

Lautari – “‘Como Uma Guerrilha'” (banda nova)

pop rock >> quarta-feira >> 03.05.1995
banda nova


“COMO UMA GUERRILHA”



“Lautari” designa, na terminologia dos ciganos da Roménia, “aquele que improvisa”, o músico ambulante que aprende escutando os mestres. É também a designação escolhida por este trio de Lisboa, que escolheu, entre todas as formas musicais disponíveis, aquela que, pelo menos em Portugal, se afigura como a de maiores dificuldades, tanto em termos de prática como de aceitação junto do grande público. Formado no ano passado, em Lisboa, o grupo encontra-se neste momento na fase de procura de plataformas de trabalho viáveis e que se coadunem com as respectivas personalidades, necessariamente diferentes e, por vezes, contraditória entre si. Num campo de manobra cheio de minas e na mira de não poucos preconceitos auditivos, os Lautari conseguiram para já assegurar a sua subsistência como grupo, não abdicando das suas convicções a favor de um impacte mais imediato no consumidor médio. Escolheram a improvisação, “pelo risco” e “por uma necessidade de comunicação”, como acontece com José Oliveira, que afirma “não ter tempo, nem jeito, nem pachorra, para dizer alguma coisa enquanto na simples posição de intérprete”. José Oliveira, que, no passado, já tocou com o trompetista Sei Miguel e com Celso de Carvalho, faz suas as palavras do percussionista inglês Roger Turner, quando este diz que a música é “uma forma de guerrilha”, embora faça questão de frisar que, “já na música barroca, se incluía uma margem significativa de improvisação”.
A audição de nomes como Evan Parker, Barry Guy, Paul Lytton, Paul Lovens, Derek Bailey, representantes da free music inglesa dos anos 60 e 70, mas também Archie Shepp, Ornette Coleman ou Eric Dolphy, foram determinantes na génese da estética perfilhada pelos Lautari.
“A persistência em fazer este género de música”, diz Carlos Bechegas, que, entre outros, já tocou com Carlos Zíngaro e numa das derradeiras formações dos Plexus, “deve-se a uma certa impaciência de alguns músicos para se relacionarem com as partituras”, a par da exigência de “uma criatividade específica”, que dá para conseguir “uma certa dinâmica de resultados, impossível de obter por outros meios”: “Se se faz uma improvisação que a seguir é escrita, mesmo se os ‘virtuoses’ forem tocar aquilo – que são as mesmas notas -, não resulta da mesma maneira do ponto de vista dinâmico. Quando se improvisa, tem-se a sensação de encontrar uma coisa pela primeira vez.”
Uma opção que acarreta uma enorme dose de responsabilidade e de entrega total à música, já que a espontaneidade absoluta e a sintonia perfeita entre os instrumentistas nem sempre acontecem quando se quer e nos locais programados. José Ernesto, que ainda há pouco tempo acompanhou Jorge Palma no “concerto íntimo” que este músico deu no Casino Estoril, fala nos ensaios como “’ateliers’ da improvisação”, ideiais para desenvolver a linguagem colectiva e os métodos de execução instrumentais do grupo. Depois, no palco, o que é preciso, diz, “é esquecer tudo isso” e entregar-se por inteiro à inspiração do momento. Em nome de uma certa virgindade, como se cada nova apresentação fosse sempre uma primeira vez.
“O que define, entre outras coisas um bom improvisador”, conclui José Oliveira, “é a sua capacidade de reacção, em tempo real, no instante, e de forma adequada e criativa, aos estímulos que recebe de outrem. E isto é uma outra forma de composição, composição instantânea.”

NOME Lautari
FORMAÇÃO Carlos Bechegas (flauta),
José Ernesto (violino),
José Oliveira (percussões)
ORIGEM Lisboa
PONTO ALTO Concerto na galeria Monumental, a 10 de Março deste ano.

Vários Artistas – “Musical Traditions Of Portugal”

pop rock >> quarta-feira >> 26.04.1995


Vários Artistas
Musical Traditions Of Portugal
SMITHSONIAN / FOLKWAYS



Em primeiro lugar, uma rectificação relative à notícia publicada no dia 8 de Março neste suplemento. Ao contrário do que então foi escrito, as letras em português dos vários temas incluídos estão de facto impressas no livrete que acompanha o CD. Pelo lapso aqui ficam publicamente as nossas desculpas a Salwa Castelo Branco, responsável pela elaboração do citado livrete. “Musical Traditions of Portugal” reúne gravações de campo efectuadas em 1988 por uma equipa de elementos do International Institute for Traditional Music, de Berlim, orientados por Salwa Castelo Branco. Subdividido em cinco unidades temáticas, “Danças e um romance do Nordeste”, “Canto Ritual do Centro Leste”, “Modas profanas e religiosas do Baixo Alentejo”, “Guitarradas de Coimbra” e “Canções e danças de grupos folclóricos do vale do Tejo e do Noroeste”, este compacto reflecte a quase impossível (aos olhos dos estrangeiros) diversidade de músicas que cabem numa porção mínima de território. Dos “Laços” transmontanos ao corridinho algarvio, passando pelo “cante” alentejano, a viagem é curta em quilómetros, mas rica de músicas e sentimentos. O capítulo de maior estranheza está talvez nas “Guitarradas de Coimbra”, com os nomes de Artur Paredes, António Brojo e António Portugal a contrstarem com as vozes e sons rudes dos temas étnicos. Um importante elemento de estudo e alguma fruição numa colecção bem organizada e estruturada, com a vantagem de a qualidade técnica, em oposição ao que acontece com alguma frequência neste campo, ser bastante boa. Sons familiares ou talvez não, “Musical Traditions of Portugal” oferece uma visão coerente do nosso legado popular. Aproveitemos enquanto temos. (7)