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Lautari – “‘Como Uma Guerrilha'” (banda nova)

pop rock >> quarta-feira >> 03.05.1995
banda nova


“COMO UMA GUERRILHA”



“Lautari” designa, na terminologia dos ciganos da Roménia, “aquele que improvisa”, o músico ambulante que aprende escutando os mestres. É também a designação escolhida por este trio de Lisboa, que escolheu, entre todas as formas musicais disponíveis, aquela que, pelo menos em Portugal, se afigura como a de maiores dificuldades, tanto em termos de prática como de aceitação junto do grande público. Formado no ano passado, em Lisboa, o grupo encontra-se neste momento na fase de procura de plataformas de trabalho viáveis e que se coadunem com as respectivas personalidades, necessariamente diferentes e, por vezes, contraditória entre si. Num campo de manobra cheio de minas e na mira de não poucos preconceitos auditivos, os Lautari conseguiram para já assegurar a sua subsistência como grupo, não abdicando das suas convicções a favor de um impacte mais imediato no consumidor médio. Escolheram a improvisação, “pelo risco” e “por uma necessidade de comunicação”, como acontece com José Oliveira, que afirma “não ter tempo, nem jeito, nem pachorra, para dizer alguma coisa enquanto na simples posição de intérprete”. José Oliveira, que, no passado, já tocou com o trompetista Sei Miguel e com Celso de Carvalho, faz suas as palavras do percussionista inglês Roger Turner, quando este diz que a música é “uma forma de guerrilha”, embora faça questão de frisar que, “já na música barroca, se incluía uma margem significativa de improvisação”.
A audição de nomes como Evan Parker, Barry Guy, Paul Lytton, Paul Lovens, Derek Bailey, representantes da free music inglesa dos anos 60 e 70, mas também Archie Shepp, Ornette Coleman ou Eric Dolphy, foram determinantes na génese da estética perfilhada pelos Lautari.
“A persistência em fazer este género de música”, diz Carlos Bechegas, que, entre outros, já tocou com Carlos Zíngaro e numa das derradeiras formações dos Plexus, “deve-se a uma certa impaciência de alguns músicos para se relacionarem com as partituras”, a par da exigência de “uma criatividade específica”, que dá para conseguir “uma certa dinâmica de resultados, impossível de obter por outros meios”: “Se se faz uma improvisação que a seguir é escrita, mesmo se os ‘virtuoses’ forem tocar aquilo – que são as mesmas notas -, não resulta da mesma maneira do ponto de vista dinâmico. Quando se improvisa, tem-se a sensação de encontrar uma coisa pela primeira vez.”
Uma opção que acarreta uma enorme dose de responsabilidade e de entrega total à música, já que a espontaneidade absoluta e a sintonia perfeita entre os instrumentistas nem sempre acontecem quando se quer e nos locais programados. José Ernesto, que ainda há pouco tempo acompanhou Jorge Palma no “concerto íntimo” que este músico deu no Casino Estoril, fala nos ensaios como “’ateliers’ da improvisação”, ideiais para desenvolver a linguagem colectiva e os métodos de execução instrumentais do grupo. Depois, no palco, o que é preciso, diz, “é esquecer tudo isso” e entregar-se por inteiro à inspiração do momento. Em nome de uma certa virgindade, como se cada nova apresentação fosse sempre uma primeira vez.
“O que define, entre outras coisas um bom improvisador”, conclui José Oliveira, “é a sua capacidade de reacção, em tempo real, no instante, e de forma adequada e criativa, aos estímulos que recebe de outrem. E isto é uma outra forma de composição, composição instantânea.”

NOME Lautari
FORMAÇÃO Carlos Bechegas (flauta),
José Ernesto (violino),
José Oliveira (percussões)
ORIGEM Lisboa
PONTO ALTO Concerto na galeria Monumental, a 10 de Março deste ano.

Carlos Bechegas grava na Leo – FLAUTA DE LEÃO

28.05.1997
Carlos Bechegas grava na Leo
FLAUTA DE LEÃO

Carlos Bechegas, flautista, compõe e improvisa, na flauta, sobre o que chama “música contemporânea improvisada electro-acústica”, utilizando, para tal, um “sistema interactivo midi de controle em tempo real”, com o qual explora “a articulação da linguagem electrónica (sintetizadores, ‘samplers’, processadores de som, fita magnética) com as diferentes sonoridades e ‘nuances’ tímbricas dos instrumentos acústicos, em composições variavelmente estruturadas com e sem partituras”.
É neste âmbito que, inesperadamente, surge a gravação de um compacto de Carlos Bechegas no selo inglês Leo Records, especializado em “novas músicas”. O disco divide-se em duas gravações ao vivo, efectuadas noutras tantas edições de um encontro de música improvisada, realizadas no Teatro do Oriental. A primeira, com Carlos Bechegas (flautas, processadores, sintetizadores, teclados e controlador de midi) integrado no seu trio IK*Zs(39, ao lado de Ernesto Rodrigues, em violino, e José Oliveira, em percussões, foi gravada em 1995. A segunda parte, gravada em 1993, tem por título “Flute Solos/Movement Sounds” (com dedicatórias a Evan Parker e Steve Lacy) e é constituída por solos de flauta em interactividade com electrónica.
O “resultado estético”, de acordo como o que o próprio músico explica nas notas do texto promocional, “caracteriza-se por uma narrativa enérgica de imprevisível alternância, através de universos e tipologias da música, nomeadamente estruturas rítmico-atonais, etno-modais, texturas “minimal-free” de rasgada tensão e densidade abstracta, contrastando com depuradas atmosferas, tranquila e desconstruidamente a-concretas, paisagens-ambiências sonoras de cores e timbres oniricamente intimistas”.
Curiosamente, o material que aparece no disco da Leo não é aquele de que Carlos Bechegas estava à espera. “Tinha gravado em casa, no ano passado, material à base d eflauta acústica. Entretanto peguei nesse material e juntei a esses ‘takes’, como um ‘portfolio’, duas outras gravações que tinha, em concerto, que são as que aparecem no disco. Na Leo responderam-me que tinham mais interesse em editar a segunda cassete do que a primeira, porque estava mais de acordo com a perspectiva da música do catálogo, além de que um trabalho a solo é sempre mais difícil de vender, sobretudo para quem não é conhecido.”
Para Carlos Bechegas tal opção não constituiu motivo de grande desagrado, embora reconhecendo que a sua vontade inicial era apresentar “o instrumento em si, mais virgem, mais limpinho”. Actualmente, já sem a presença de Ernesto Rodrigues, Carlos Bechegas perspectiva a gravação do trio como “uma correspondência” ou “uma extensão” do seu trabalho a solo, estreado em 1989, na Comuna. “O grupo tem a ver com a articulação das linguagens electróncia e acústica, baseada numa improvisação estruturada”. Explica-se o método: “As estruturas aparecem a seguir aos ensaios. As pessoas improvisam, depois analisamos e repescamos o material mais interessante.”
“Flute Solos/Movement Sounds como um complemento, onde “as coisas são trabalhadas mais em pormenor, havendo diferenças substanciais de tema para tema na utilização da electrónica. Mais um trabalho de pesquisa”.
Consumada a edição do compacto, co-produzido pelo próprio Bechegas em conjunto com a editora, fica aberta a possibilidade de futuros trabalhos – gravações e espectáculos – no estrangeiro. “O nosso mercado é muito reduzido. Com a minha dinâmica de não me acomodar, inconformado por natureza, encaro este disco como um cartão de visita para o mundo inteiro que vou tentar potencializar ao máximo”.
Este compacto de Carlos Bechegas poderá ser adquirido através da Ananana, em Lisboa, ou da Áudeo, no Porto.