Arquivo da Categoria: Neo-Clássico

Rodrigo Leão – “Alma Mater”

Y 29|DEZEMBRO|2000
discos|escolhas


RODRIGO LEÃO
Alma Mater
Ed. e distri. Sony Música
7|10


rl

Está mais leve, a música de Rodrigo Leão. Ainda que as máscaras de tristeza do seu “Theatrum” não tenham sido integralmente arrancadas, nota-se que no novo “Alma Mater” o teclista da Sétima Legião arejou a sua música e abriu as janelas para deixar entrar o sol. Além da solenidade habitual dos corais dos Vox Ensemble, “Alma Mater” recebeu duas verdadeiras canções nas vozes de Adriana Calcanhotto e Lula Pena, ao mesmo tempo que as habituais divagações instrumentais perderam um pouco a vertente Nymaniana para se aconchegarem ao piano, romântico e aéreo, tão impregnado de luz e vibrações positivas que não admiraria se este “Alma Mater” fosse parar direitinho à estante da “new age”. Não ficaria mal ao lado de Roger Eno. Mais fogosas são as volutas de tango que Rodrigo Leão também resolveu entregar aos cuidados da alma mãe.



William Orbit – “Pieces in a Modern Style”

Sons

29 de Outubro 1999
POP ROCK


William Orbit
Pieces in a Modern Style (5)
Ed. e distri. Warner Music


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A ideia é tudo menos original: transpor para teclados electrónicos partituras de peças de compositores eruditos. E se Walter Carlos, mais tarde Wendy Carlos, foi o primeiro a adaptar a música barroca ao seu sintetizador Moog, na série “Switched on…”, como em “Switched on Bach”, coube ao japonês Isao Tomita criar obras, algumas delas brilhantes, com base em transposições, quase nota a nota, para uma panóplia de sintetizadores, de Tchaikowsky, Stravinsky, Mussorgsky, Holst ou Debussy, entre as quais “The Planets”, “Kosmos” e sobretudo “Firebird”, uma fabulosa arquitectura erguida sobre a suite do mesmo nome composta por Stravinsky. William Orbit repete o processo, com a diferença de que em vez dos velhos Moogs, A.R.P.s e EMS usou tecnologia digital para elaborar uma série de exercícios entre o chill-out e a new age de peças de Samuel Barber, John Cage, Erik Satie, Pietro Mascagni, Maurice Ravel, Beethoven, Handel e Górecki. Em termos formais a utilização dos timbres electrónicos raramente ultrapassa o convencional, nalguns casos o sinfonismo “made in studio” aproxima a música dos tais trabalhos, gravados nos anos 70 e 80, por Tomita, enquanto noutros a música se limita a ser muzak para bibliotecas e academias de arte, algures entre a “Discreet Music” de Brian Eno e as longas litanias de silêncio de David Sylvian. Nada de novo sobre a Terra, ou melhor, na órbita da Terra, ainda que o seu autor declare ter procedido de acordo com o “estilo moderno”. Na verdade, “Pieces in a Modern Style” é um álbum tão agradável quanto reaccionário.



Peter Hammill – “The Fall of the House of Usher – Deconstructed & Rebuilt” + Roger Eno & Peter Hammill – “The Appointed Hour”

10 de Dezembro 1999
DISCOS – POP ROCK

Ópera de empreitada


Peter Hammill
The Fall of the House of Usher – Deconstructed & Rebuilt (7)
Roger Eno & Peter Hammill
The Appointed Hour (5)
Fie, distri. Megamúsica


ph

Há uma maldição a pairar sobre esta ópera baseada num conto de Edgar Allan Poe que Peter Hammill demorou cerca de 20 anos a concretizar e que finalmente viu a luz do dia em 1991, como amaldiçoada era a mansão saída da imaginação do escritor inglês. O tema da decadência e da hiper-sensibilidade da personagem principal, Roderick Usher, desempenhado pelo próprio Hammill, assentam como uma luva no universo poético do antigo líder dos Van Der Graaf Generator mas a verdade é que a conjugação do libretto, escrito por Chris-Judge-Smith, com as partes vocais das restantes personagens, entregues a Lene Lovich, Sarah-Jane Morris, Andy Bell e Herbert Gronemeyer, não conseguiram evitar que “The Fall of the House of Usher” tivesse um tom de ópera-rock que, nalguns momentos, rondava perigosamente a grandiloquência balofa de um Meat Loaf.
Oito anos volvidos, Hammill terá chegado à mesma conclusão. Na impossibilidade de trocar os intérpretes, o cantor reescreveu a totalidade dos arranjos, modificando as vocalizações que a si diziam respeito, retirando as partes da bateria e acrescentados naipes corais de guitarras eléctricas. Também todo o trabalho de produção sofreu modificações já que Peter Hammill remodelou todo o conceito sonoro do álbum no seu estúdio particular. “The Fall of the House of Usher” soa agora mais cheio e electrónico com a contrapartida das novas vocalizações mostrarem um Hammill mais velho e menos disponível para os excessos histriónicos que caracterizavam a anterior versão. Mas por mais que Roderick Usher/Peter Hammill continuem a chorar a morte de Madeline a velha mansão jamais se erguerá das ruínas. Apesar disso, esta reconstrução, “demolida e reconstruída” de “The Fall of the House of Usher” é uma obra-prima, comparada com “The Appointed Hour”, uma colaboração de Hammill com o teclista Roger Eno. Os dois combinaram uma hora, fecharam-se cada um no seu estúdio a improvisar e depois encontraram-se para colar os respectivos desempenhos. Apesar de, segundo dizem, não ter havido qualquer tratamento ou ajustamento dos trabalhos individuais, não se notam fracturas nem costuras pela simples razão de que quase nada acontece ao longo de uma hora pachorrenta preenchida por pianadas e tapetes de sintetizador que têm mais a ver com o neo-romantismo de Eno do que com a ebulição criativa de Hammill. Sem correrem riscos para além do inusitado da ideia, Hammill e Eno limitaram-se a fazer “muzak” tão agradável quanto inconsequente, nada acrescentando de relevante às respectivas discografias.