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Vários – “Festa Da Música Em Bourges, Entre 30 De Abril E 5 De Maio – Sagração Da Primavera”

Secção Cultura Domingo, 31.03.1991


Festa Da Música Em Bourges, Entre 30 De Abril E 5 De Maio
Sagração Da Primavera



Festa da música em Bourges, pequena cidade medieval francesa. É o “Printemps de Bourges”, ponto de encontro e convívio da França com o resto do mundo, na descoberta e partilha de um espaço cultural europeu comum.

Este ano no “Printemps de Bourges”, entre 30 de Abril e 5 de Maio próximos, como de costume, o programa é aliciante e diversificado, num leque que vai do classicismo pós-moderno de Wim Mertens e a música antiga dos Hespérion XX, ao jazz de Manu Dibango (vertente “afro”) e Carla Bley com Steve Swallow, sem esquecer, obviamente, o rock representado pelos House of Love e Elliott Murphy, ou o universo múltiplo das músicas étnicas.
Com o apoio e patrocínio de entidades oficiais (o Ministério da Cultura e Comunicações, a Secretaria de Estado para a Juventude e Desportos ou a “Maison de la Culture de Bourges) e instituições particulares (MCM – Euromusique, L’ARCAM, Coca-Cola, Air France, etc.), o “Printemps de Bourges” conta entre os seus objectivos “encorajar os jovens artistas e possibilitar ao maior número de pessoas possível a descoberta de novos músicos e a audição das suas vedetas preferidas”.

Espectáculo Na Rua

À semelhança do que aconteceu no ano passado, o centro das operações localiza-se na parte antiga da cidade, num périplo que inclui as suas principais zonas históricas, impecavelmente servido em termos de infra-estruturas habitacionais e comerciais. Quando despertar ao som de músicas estranhas, invadida por milhares de forasteiros atraídos pela curiosidade, pela festa ou pela magia única doo acontecimento, a habitualmente pacata cidade de Bourges transfigurar-se-á, adquirindo a aura luminosa e o prestígio das grandes galas culturais.
O Palácio dos Congressos, o “Grand Théatre” e o Pavilhão, salas menores como as “Gilles Sandier”, “Duc Jean” e “Germinal”, e a própria catedral, preparam-se para abrir as portas à música, ao espectáculo e às inúmeras surpresas capazes de transformar o festival em qualquer coisa de inesquecível. Mas nem só nos recintos fechados haverá que ver e ouvir. Como é da praxe, também as ruas da cidade serão palco para o que der e vier, através dos designados “Hors Jeu” – actividades paralelas que este ano vão desde o “cosy disco centre d’art”, estranho acampamento completo, espécie de festival dentro do festival, que junta os conceitos de circo, dança e centro cultural alternativo, ao desfile dos chamados “trens eléctricos” brasileiros – orgia carnavalesca sobre rodas.

“Troupe” Surrealista

Despoletar e encantar a imaginação infantis é a tarefa a cargo da “troupe” surrealista “Maximomes”. Mas que ninguém se espante se deparar com um camião orquestra, uma agência noticiosa (“L’Agence Tartare ‘La Chaine’”), encarregada de confundir e difundir notícias e acontecimentos fantasiosos (!) ou com a possibilidade de aprender, “in loco”, a disparar um canhão napoleónico. Os “Generik Vapeur et la grande petarde nocturne motorisée” prometem tornar as ruas num pesadelo povoado de criaturas estranhas e cerimónias apocalípticas. Por vezes acontecerá tudo ao mesmo tempo.

Nomes Importantes

Para quem preferir o conforto dos recintos fechados, o mais difícil será escolher. Todos os dias, entre as duas da tarde (no “Germinal – découvertes” – à descoberta dos novos valores do rock) e as tantas da manhã, a música não para e a excitação muito menos. Entre os concertos agendados com nomes de cartaz, destaque para Eliott Murphy (rock americano urbano) e Manu Dibango (jazz + funky = cataclismo rítmico), dia 30; Bel Canto (pop norueguês da “nova idade”) e Carla Bley com Steve Swallow (duo piano/baixo por dois expoentes no jazz actual), dia 1; Guesh Patti (animal de palco em “music-hall” revisitado), Wim Mertens (minimalista, classicista, pianista, monárquico e doido genial) e os House of Love (guitarras e canções da nova geração Pop britânica), dia 3; Juliette Greco (grande dama da “chanson française”), dia 4; Jimmy Sommerville (ex-Communards, porta-voz das emoções “gay”), dia 5. Realce muito especial para a actuação do grupo de música antiga Hespérion XX, dirigido por Jordi Savall e onde pontifica a voz sublime de Monserrat Figueras, dia 1, na catedral.
A lista continua: UB 40 (“reggae” em corte inglês), Geoffrey Oriema (dos nomes mais importantes da actual música africana, Brian Eno e Peter Gabriel não lhe regateiam elogios), os franceses Les Rita Mitsouko e Les Negresses Vertes, New Model Army (os novos “Clash”, para o “Times”), Flying Pickets (vocalizações “a cappella”), Kanda Bongo Man (rumbas zairenses transvertidas em música de dança). Depois, partir à descoberta dos nomes novos e novas emoções: Elmer Food Beat, Victims Family, Sons Of The Desert, Noise Gate, Bat Attack, Patrick Bruel, Reynaldo Anselmi, Bratsch, Paris Musette… Em Bourges, a música faz a Primavera.

Vários – “Encontros Acarte – Minimal Maximalismo” (concertos | festivais)

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 12 SETEMBRO 1990 >> Cultura


Encontros Acarte

Minimal maximalismo


NA RIGOROSA arquitetura sonora da estética minimalista, a Matemática ocupa, como não podia deixar de ser, lugar de destaque. No caso dos belgas Maximalist, que hoje às 21h30 atuam na Gulbenkian, em Lisboa, a novidade reside na importância concedida às pulsões do corpo e à libertação ritual dos seus gestos.
Atenta aos ensinamentos da escola americana, às teorizações de La Monte Young e às divagações hipnóticas de Steve Reich, Philip Glass, Terry Riley e Robert Ashley, a nova geração minimalista europeia enveredou por percursos alternativos que aliam as estruturas rítmicas repetitivas a um classicismo enraizado na tradição barroca e romântica do Velho Continente.
Thierry de Mey (piano e percussão), Jean-Paul Dessy (violoncelo), Dirk Descheemaeker (que também integra os Julverne e os Soft Verdict de Wim Mertens, clarinete baixo), Jean-Luc Plouvier (piano), Eric Sleichim (saxofones) e Peter Vermeersch (clarinete) utilizam exclusivamente instrumentação acústica. “Não faz sentido” – afirmam – “deixar um computador ou um sequenciador de ritmos a tocar sozinho”. Não excluem, no entanto, as possibilidades de equalização concedidas pela amplificação eletrónica: “Podemos juntar um único violoncelo ao volume de três saxofones”.
Os seus concertos são uma espécie de ritual, cuja crescente tensão se liberta na exteriorização gestual e na comunicação com o público. Construção musical coletiva que “existe prioritariamente a partir de uma empatia entre os músicos e a audiência”. Aumentada pela excitação do momento, “maximizing the audience”, parafraseando Wim Mertens.
A expressão corporal (refira-se a propósito o título do segundo álbum – “What the Body does not Remember”) funciona como catalisador nesse jogo energético, habitual no rock mas quase sempre ausente na pseudo seriedade presente nos meios tidos por “eruditos”. Abordagem que aproxima a “performance” do grupo às músicas rituais e às tradições culturais africana e oriental, mas intuitivas e indissociáveis de uma atitude religiosa.
A dança (e a música minimal repetitiva, não o esqueçamos, é música de dança, do mesmo modo, por exemplo, que os dervishes ou as ragas indianas), como harmonização dos movimentos espiritual e corporal, é o veículo natural dos sons “maximalist”. Para Thierry de Mey, “o trabalho do grupo depende do diálogo dos sons com a criação coreográfica, procurando a partir deste maximizar tanto os meios musicais propriamente ditos como a própria escrita que deste modo se processam segundo uma lógica diferente”. Compuseram música para coreografias de Anne-Teresa De Keersmaeker, Wim Vandekeybus e Michèle-Anne de Mey e desfiles de moda de Yamamoto e Kawakubo. E no fim querem fazer do silêncio “uma entidade tangível, por oposição ao frenesim das grandes massas sonoras”. Entre o silêncio e a fanfarra – a energia máxima. Maximalista.

Ladysmith Black Mambazo – “As Cores Do Verão – Vozes De África” (concerto | antevisão | festivais | artigo de opinião)

PÚBLICO SEXTA-FEIRA, 20 JULHO 1990 >> A Semana >> Na Capa


As cores do Verão

Estiveram no “Graceland” ao lado de Paul Simon. Participaram no vídeo “Moonwalking”, de Michael Jackson, e foram à “Rua Sésamo”. São os Ladysmith Black Mambazo e cantam “a capella”. Em Lisboa – onde atuam no Verão 90 – a voz dos anjos também será negra.



VOZES DE ÁFRICA

Fala-se em música africana e ouvem-se batuques. Afluem ao espírito imagens de selva, savana, fogueiras noturnas perturbadas por olhos na escuridão e rugidos que se desejam ao longe. Mas África é também do Sul e o “apartheid”, Nelson Mandela, grandes cidades e o tribalismo afastado para o lado, mas constantemente a gritar os seus direitos.
Os Ladysmith Black Mambazo são sul-africanos, negros e não tocam tambores. Cantam. Maravilhosamente e “a capella”, hinos religiosos e temas populares e tradicionais do seu país. O canto “a capella” é o estilo vocal em que cada cantor entoa uma linha melódica diferente, uns em voz grave, outros em voz menos grave e por aí acima até aos gorjeios soprano do topo da escala. O feito total é a harmonia perfeita – como acontece com os Manhattan Transfer, os grupos de espirituais negros ou o Coro de Santo Amaro de Oeiras.



O nome do grupo significa “enxada preta de Ladysmith” e grande parte do seu reportório inspira-se no estilo “mbube”, indissociável da cultura zulu, e na “Isicathamiya”, cantada pelos trabalhadores negros que foram levados à força para longe das casas e famílias para trabalhar nas minas exploradas pelo branco. O seu mentor, Joseph Shabalala (“Bekezizwe” em zulu, “homem líder”) trabalhou nas minas. A sua música irrompe do sofrimento e da harmonia dos sonhos, como ele gosta de afirmar. Convenceu alguns dos seus familiares a partilharem desses sonhos e a materializarem-nos na voz.
Costumam tocar um pouco por todo o lado, mas especialmente em igrejas e centros comunais. Já o fizeram também em prisões, em escolas secundárias e nas grandes catedrais. Participaram na “Rua Sésamo” e nos espetáculos “Saturday Night Live” e “The Tonight Show”, bem como no vídeo de Michael Jackson, “Moonwalker”. Além de cantarem, narram provérbios e contam histórias e anedotas da sua tradição. Trazem as raízes ancestrais para a cidade e encantam sempre.
Costumam utilizar a língua materna zulu – por isso poderá haver quem não entenda as palavras. Mas a música, todos a sentem, e a mensagem passa. Fora dos limites estreitos do Sul do continente negro, para o resto do mundo. Em discos avidamente escutados pelos ocidentais, sempre dispostos a consumir e a devorar novas e diferentes sensibilidades, que apelidam invariavelmente de “exóticas”. Que nos façam bom proveito.
Paul Simon (em zulu, “Vulindlela” – “aquele que abriu o portão”) não deixou escapar a ocasião e utilizou, com ótimos resultados, as vozes africanas no álbum “Graceland”. Mas os Ladysmith Black Mambazo têm discos só seus. Ao todo vinte e oito. Os mais recentes dão pelo nome de “Inala”, “Umthombo Wamanzi” e “Two Worlds, One Heart”, este último concedendo espaço aos instrumentos e à eletrónica, incluindo um “Zulu-Funk-Rap” ao lado de George Clinton e com honras de edição em CD.
O importante é intuir a voz da terra irmanada com os cânticos do céu. A dança tribal invadindo a selva urbana. Para os Ladysmith Black Mambazo há “Two Worlds, One Heart”: “Dois mundos – a terra e o paraíso – e um coração, poder único que se ergue acima do mundo e conduz à paz e unidade de todos os povos do planeta”, como eles explicam.
LISBOA, Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, 5ª, às 22h.