Arquivo da Categoria: Festivais

Vários (Manuel Luna + Perlinpinpin Folc + Carlos Predes + Emilio Cao + Andrew Cronshaw) – “Começam hoje em Évora, Famalicão e Oeiras os Encontros Musicais da Tradição Europeia – À procura das raízes culturais da Europa” (artigo de opinião | crítica / antecipação de concertos / festivais)

PÚBLICO QUINTA-FEIRA, 5 JULHO 1990 >> Cultura

Começam hoje em Évora, Famalicão e Oeiras os Encontros Musicais da Tradição Europeia

À procura das raízes culturais da Europa

À procura das raízes culturais. A partir de hoje e até dia 13, terão lugar em Évora, Famalicão e Oeiras, os primeiros Encontros Musicais da Tradição Europeia, organizados pela Cooperativa Cultural Etnia, sediada em Caminha. Da Galiza, Grã-Bretanha, Occitânia e Piemonte virão cultores de antigos sons. Paredes representará o espírito português: a fatalidade e a distância.



A iniciativa, que conta com o apoio das três câmaras municipais, tem como objetivo “incrementar o intercâmbio cultural no espaço europeu, com base na promoção e divulgação da música e cultura das suas grandes regiões, e fomentar o contacto entre grupos ou solistas ligados à música tradicional dessas mesmas regiões”. Pretende-se que a série de concertos passe a ter uma realização regular, sempre numa perspetiva de descentralização, procurando deste modo tornar o nosso país num ponto privilegiado de encontro entre as diversas culturas musicais europeias.
Atuarão ao vivo, entre nós, alguns dos nomes mais importantes de cena “folk” atual, como Andrew Cronshaw, Emilio Cao, Manuel Luna, Perlinpinpin Folc, La Ciapa Rusa, para além do guitarrista português Carlos Paredes.
Andrew Cronshaw é um músico britânico, responsável por uma original e sedutora fusão das sonoridades tradicionais com o jazz e a música clássica. Como se poderá comprovar pela audição do excelente “Till the Beast’s Returning”, álbum já há algum tempo disponível no mercado nacional. Outras obras importantes são os discos “A is for Andrew, Z is for Zither”, “Earthed in Cloud Valley” (com o guitarrista Martin Simpson), “Wade in the Flood” e o recente “The Great Dark Water”. Intérprete brilhante na cítara elétrica, estende os seus talentos por outros instrumentos – flautas chinesas, concertina, sintetizadores, percussão e o shawm, antepassado medieval do oboé.
Emilio Cao é galego e já atuou várias vezes em Portugal, tendo colaborado com Fausto em “O Despertar dos Alquimistas” e com o grupo teatral “Os Comediantes”. Exímio executante de harpa, gravou entre outros o marco na evolução da música galega, “Fonte de Araño”. “No Manto da Auga”, “Amiga Alba e Delgada” e “Lenda da Pedra do Destiño” completam a sua atual discografia.
Também espanhol (se considerarmos que a Galiza é Espanha, o que é duvidoso”…) é Manuel Luna, antropólogo, apaixonado pela música e cultura da região da Cantábria. Publicou vários ensaios e cerca de 30 discos de recolha etnomusicológica. Gravou com os “La Quadrilla” o álbum “Como Hablam las Sabinas”, já importado pela Etnia. A investigar são também “Em los Jardines del Sueño” e o novo “Os Galos de Londres”.
No Sul de França, entre a Catalunha e a “Côte d’Azur”, fica a Occitânia, região natal dos Perlinpinpin Folc, um dos mais estranhos grupos do movimento folk gaulês. “Musique Traditionnelle de Gascogne”, “Gabriel Valse” e “Al Paїs d’Occitania” são alguns dos seus bons trabalhos. Sobre a sua música escreveu o crítico Pierre Corbefin: “Provoca-nos uma impressão quase opressiva, como se atravessássemos uma paisagem árida, despovoada, apenas habitada por um bater obscuro e pelos rumores da terra”.
Os “La Ciapa Rusa” são italianos de Piemonte, a Noroeste do país. Combinam a excelência instrumental, através da utilização dos sons tradicionais da sanfona, do violino, do pífaro de pastor e da “musa” (gaita-de-foles piemontesa) com um notável trabalho de harmonias vocais.
A representação portuguesa está a cargo de Carlos Paredes. Dele o mínimo que se poderá dizer é que é uma parcela importante da alma lusitana. Escutar a sua guitarra, contemplar o modo com se entrega a ela e à música que escorre pelos seus dedos até ao vibrar das cordas, é sentir o Fado e a distância. Ir ao sabor dos “Verdes Anos” até ao oceano sem fim.
Uma palavra final de louvor para a Etnia que tem vindo a desenvolver um notável trabalho de recuperação e revitalização da cultura tradicional. Desde a realização de espetáculos, exposições e seminários, até à publicação de livros e à importação de pérolas discográficas folk, para já oriundas do país vizinho, como são os álbuns de Rosa Zaragoza, Amancio Prada, Manuel Luna, “La Musgana” e, brevemente, Emilio Cao.

PROGRAMA

ÉVORA – Praça do Giraldo
Quinta, 5 de julho
MANUEL LUNA
PERLINPINPIN FOLC
Sexta, 6 de julho
LA CIAPA RUSA
CARLOS PAREDES
Sábado, 7 de julho
EMILIO CAO
ANDREW CRONSHAW

FAMALICÃO – Jardins da Câmara Municipal
Quinta, 5 de julho
CARLOS PAREDES
ANDREW CRONSHAW
Sexta, 6 de julho
MANUEL LUNA
LA CIAPA RUSA
Sábado, 7 de julho
EMILIO CAO
PERLINPINPIN FOLC

OEIRAS – Auditório do Complexo Social das FA’s
Quinta, 5 de julho
LA CIAPA RUSA
EMILIO CAO
Sexta, 6 de julho
MANUEL LUNA
ANDREW CRONSHAW
Sábado, 7 de julho
CARLOS PAREDES
PERLINPINPIN FOLC

Vários – “Cá Vai Lisboa, Sem Chinela No Pé…”

PÚBLICO SEXTA-FEIRA, 1 JUNHO 1990 >> A Semana >> Na Capa

CÁ VAI LISBOA, SEM CHINELA NO PÉ…

Músicas para todos os gostos, circo, dança, moda, teatro e magia fazem da capital, durante todo o mês de junho, um imenso espetáculo. São as Festas da Cidade, em ano de Stones, para valer.



Lisboa acorda finalmente para a cultura e para a diversão, quase sempre separadas na pesada seriedade das chamadas “temporadas”, mas agora juntas para alegria, espera-se, de todos os alfacinhas. São as Festas da Cidade, com muita música dando vida a diversas zonas da capital habitualmente afogadas no cinzento tristonho do quotidiano.
O cartaz é extenso. As propostas múltiplas e, na maioria das vezes, apetitosas. Os Rolling Stones são o prato forte das festividades, tornando Lisboa capital da Europa a 10 de junho, dia de Portugal, no estádio de Alvalade. Mas o que faz o encanto destas festas é a diversidade e a possibilidade de ter todos os dias à disposição algo para entreter os sentidos, satisfazer a alma ou, simplesmente, tornar um pouco mais interessantes os lugares da cidade que, por força do hábito, nos esquecemos de olhar com olhos de ver.
Por exemplo, logo no dia 1, podemos deparar com leões (não se assustem, são em papel) de Macau, ao vivo, no Rossio. Ou então subirmos a Av. da Liberdade para desembocar em África com os tambores da Guiné. No Largo da Graça, Jorge Palma canta histórias e viagens, enquanto o Repórter Estrábico e o Capitão Fantasma fazem das suas durante todo o mês e pelo Verão fora.
Julinho da Concertina, cabo-verdiano por cá radicado, atuará a 3, 6 e 8, sempre na mais bonita Avenida da cidade, a da Liberdade. O Jazz estará presente através dos Original Pin-Stripe Dixieland Brass Band, o Sexteto de Tomás Pimentel (dia 15, na Praça da Alegria) e os Art Jazz Trio (a 26, no mesmo local). A Orquestra de Câmara de Viena concentra, dia 10, no Jardim da Estrela, as atenções dos “clássicos”, que poderão ainda satisfazer as suas apetências estéticas em concertos espalhados por lugares tão díspares como a Fonte Nova, Campo Pequeno ou Belém.
Dia 16 é dia grande, com a atuação dos Stone Roses, no Pavilhão de “Os Belenenses”. Como grandes serão, também os dias reservados a bandas lusitanas de estirpe insuspeita, como os Madredeus (dia 23, no Tivoli), Sétima Legião (dias 29 e 30 em locais ainda por designar) ou a Lua Extravagante, dos manos Janita e Vitorino (dias 26, 27 e 28). Do Brasil, virá o samba de Waldemar Bastos e Martinho da Vila, que promete fazer tremer as paredes respeitáveis do velhinho Tivoli.
Para além da música haverá, ainda, espaço para o desporto, desfiles de moda e outras manifestações artísticas como espetáculos de teatro, magia, circo, dança ou marionetas. Para além, é claro, das típicas marchas populares – de chinela no pé –, que encherão de cor o pavilhão Carlos Lopes, dias 19 e 21. A festa promete.

Vários – “‘Printemps de Bourges’ começa hoje em Lisboa – De França ao Sul de Portugal”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 9 MAIO 1990 >> Cultura


“Printemps de Bourges” começa hoje em Lisboa

De França ao Sul de Portugal


As companhias de Bernard Lubat e Philippe Genty, os Satellites e as novas polifonais corsas de Hector Zazou são os quatro espetáculos agendados para o 5º Printemps de Bourges de Lisboa. A pluralidade sintetizada em quatro propostas irrecusáveis.



Hoje às 21h30, na sala do grupo recreativo do BESCL, Bernard Lubat e a sua companhai de jazz farsante e fascinante apresentam “La Comedie Del Jazz”, “performance” que mistura virtuosismo e loucura sem pedir licença à academia. A “grande música negra” ganha o colorido do imprevisto e do improviso seriamente encenado, mero pretexto para a feérica exibição de liberdade criativa.
Bernard Lubat é colega de outros franceses da mesma escola em que o humor desempenha papel fundamental no discurso musical, como Michel Portal, Eddy Louiss, Bob Guérin, Louis Sclavis ou François Jeanneau, excêntricos, bem-humorados e nada preocupados em arrumar a sua música nos cacifos mortuários da catalogação precoce.
Bernard Lubat canta e toca teclas, acordeão, melódica e percussão. Acompanham-no cinco músicos, incluindo dois trombonistas e três percussionistas, empenhados em provar que a fanfarra pode ser farra libertária.
Com Philippe Genty e o ato de pura magia que é “Dérives”, passamos decididamente para o lado de lá da banalidade subsidiada e burocrática do funcionalismo “artístico”. O Universo de formas transitórias desta fantasmagoria materializada à custa de matemática minúcia e certamente das graças de todos os deuses do bom-gosto, confunde-se com a própria Arte, Movimento absoluto, Harmonia musical, incessante fluxo poético, Teatro da noite ancestral e primitiva iluminada feita dia.
Mulheres mundanas são devoradas por peixes e os peixes são devorados pelo mar que é o sangue da mulher. “Dérives” recria o ritual da morte e da vida, interligado na cruz do instante transformador. Metamorfose da Arte em Vida. Suspensão do tempo na eternidade da representação. No fim não acreditamos no que vimos.
“Dérives” tem genial coreografia de Mary Underwood, fabulosa música, indispensável à criação da atmosfera irreal da cerimónia, de René Aubry. Os atores são Pascal Blaison, Christian Carrignon, Kathy Deville, Gabriel Guimard, Eric de Sarria e uma infinidade de bonecos e outros seres menos facilmente identificáveis. Todos juntos lançarão o sortilégio amanhã, pelas 21h30, no Teatro Villaret. No sábado vão estar no Porto, no Teatro Carlos Alberto, integrados no Festival Internacional de Marionetas daquela cidade.
Os Satellites merecem um destaque relativo. Rock, Soul e Rhythm’n’blues, dançáveis, divertidos e destinados a fazer as delícias dos jovens menos preocupados com os labirintos existenciais que dão à vida um ar de respeitabilidade. Dança e festa estão programadas para a discoteca “Loucuras”, dia 18, de novo às 21h30.
Finalmente, a 19 no cinema Tivoli e ainda à mesma hora, Hector Zazou apresentará as suas polifonias corsas, aliando o canto tradicionalmente masculino desta região, aqui permeável à invasão vocálica do belo sexo, a um sinfonismo híbrido e eletrónico caro a toda a obra deste heterodoxo francês. Sintetizadores, violoncelo, sopros, percussão de orquestra e intrincados jogos vocais resultam numa música estranha como aquela registada em discos do compositor como “Géographies” ou “Géologies”. Hector Zazou produz música, segundo afirma, “para acabar de vez com a teoria do pós-modernismo”. Para já consegue acabar com perniciosos preconceitos estéticos, eufemismo encobridor da surdez.
Na 2ª parte tocam os Lua Extravagante que integram Janita Salomé, Vitorino, Pedro Caldeira Cabral, Filipa Pais e Carlos Salomé. De França até ao Sul de Portugal.