Arquivo da Categoria: Críticas 1990

Mler Ife Dada – “Música do Homem que Anda (Walkman Music)”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 30 MAIO 1990 >> Videodiscos >> Pop


MLER IFE DADA
Música do Homem que Anda (Walkman Music)
Máxi, edição Polygram



Sofia rendeu Anabela. Sofia Amendoeira aprendeu bem e rapidamente a matéria dada. Os quatro temas que integram este 45 rotações, para além de “Walkman”, ainda “Erro de Cálculo”, “Choro do Vento e das Nuvens” e “À Chuva”, fazem parte do recente álbum, “Espírito Invisível”, mas agora com novas misturas destinadas a servir a voz grave e descontraída da nova vocalista, em vez das piruetas nervosas e do exotismo garrido da Anabela Duarte. É ainda demasiado cedo para se emitir qualquer juízo sobre eventuais ganhos ou perdas suscitados pela troca. Se por um lado o timbre e colocação da novata parecem adequar-se mais harmoniosa e naturalmente às complexidades da música de Nuno Rebelo, por outro perde-se (pelo menos por enquanto) um certo diálogo (por vezes difícil e amiúde pouco pacífico) entre a voz e o suporte instrumental que era um dos polos de atração do estilo da banda, determinado pelo modo de cantar de Anabela. Enquanto não surge novo álbum, este disco fica como uma apresentação de Sofia, lembrando-nos que os Mler Ife Dada são, até à data, uma das formações mais originais e interessantes da música que por cá se vai fazendo.

Madredeus – “Existir”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 30 MAIO 1990 >> Videodiscos >> Pop


ALMA, TRADIÇÃO E FADO

MADREDEUS
Existir
LP, EMI – edição Valentim de Carvalho


Sociologia, Semiótica, Psicopatologia, Otorrinolaringologia e por vezes até Música, são algumas das ciências tratadas, com mais ou menos profundidade, a propósito da nova música portuguesa. Não querendo competir com as sumidades em cada uma destas disciplinas, gostaria entretanto de contribuir com algumas achegas para o debate alargado que se vai desenrolando em volta de tão apaixonante matéria. Então é assim: a nova música portuguesa não é nova e muito menos portuguesa. Não é nova porque não inova, não arrisca e se compraz numa mediocridade satisfeita com o “para português não está mal”, sinal de menoridade mental e cultural que parece afetar grande parte da nossa “inteligenzia” que, no caso lusitano, se trata mais de uma “estupidenzia”, para sermos rigorosos. Não é portuguesa porque se limita, na maioria das vezes, a decalcar, melhor ou pior, modelos estrangeiros. Há exceções. Felizmente. Músicos por acaso nascidos e apertados contra a falta de visão e mercantilismo imperantes nesta quase ruína cultural em que vivemos, orgulho da casta vendida e saloia que finge governar-nos, lutando ingloriamente contra os Adamastores de gravata que, pululando nos templos ministeriais de acrópoles a “negrecer”, vão metodicamente redigindo os decretos de morte das nossas vidas, dos nossos sonhos maiores que todos os impérios.
Os Madredeus são uma das exceções. São novos porque são eternos. São novos e eternos como a Alma, a Tradição, o Fado, a visão que vê o centro, fundo e ao longe, a Paixão e a loucura que transportam todos os tempos pelo futuro adentro. “Existir” é verbo difuso e rigoroso que exprime na perfeição o modo de ser verdadeiramente português – estar, ir sendo, não existir concretamente como coisa definitiva e dura, antes como rio que vai fluindo pelos infinitos leitos do Amor.
Rodrigo Leão, Pedro Ayres, Francisco Ribeiro, Gabriel Gomes e Teresa Salgueiro foram ainda mais longe que nos seus dias de “antanho”. Nos seus sons e versos escutamos a voz dorida do Infante Portugal. Música una e única, singela por vezes, solar, sombria, elitista e popular. Catedral de luz, refúgio de olhares ardentes e silentes orações. Religião significa religação. “Existir” religa-nos ao gosto de ouvir música genuinamente portuguesa e, porque portuguesa, genuinamente universal. Liturgia iniciada com as vozes de Teresa e Francisco, no cântico luminoso e ascético de “Matinal” e culminando no ato de fé final de “Vontade de Mudar”, passando pela extroversão de “O Ladrão” (um dos temas que todos irão trautear nos próximos tempos), o instrumental etéreo e saudoso de “As Ilhas dos Açores” ou “O Menino Jesus”, Espada, Taça e Vitral da Nau em que eternamente partem os filhos diletos da nação. Ao todo, doze temas, doze arquétipos da real arte de ser português.

Steven Brown – “La Grâce Du Tombeur” + Steven Brown & Delphine Seyrig – “De Doute Et De Grace”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 23 MAIO 1990 >> Videodiscos >> Pop


LABIRINTO E GRAÇA

STEVEN BROWN
La Grâce Du Tombeur
LP e CD Les Temps Modernes

STEVEN BROWN & DELPHINE SEYRIG
De Doute Et De Grace
LP e CD Made To Measure,

distri. Contraverso



Steven Brown representa o lado intelectual e sério dos americanos-que-gostariam-de-ter-nascido-europeus, Tuxedomoon. Blaine Reininger é o lúdico do bigode que toca violino, conta anedotas, veste casacos aos quadradinhos e, de vez em quando, se distrai e esquece de imitar David Bowie, produzindo álbuns dignos de registo. Peter Principle, o esquisito dos barulhos, ultimamente dado a ambientalismos suspeitos e obscuridades sonoras sempre bem acolhidas e gravadas “por medida” na editora belga, Made To Measure. Steven Brown marcha mais certinho. Dele não se conhecem passos em falso. Mantém invariavelmente um superior nível qualitativo, quer no campo das canções (“Searching For Contact”) quer no terreno mais ambíguo dos experimentalismos conceptuais (“Music For Solo Piano” ou as experiências partilhadas com Benjamin Lew, “Douzième Journée…” e “À Propos D’un Paysage”) e, ultimamente, também poéticos (o disco dedicado à poesia de John Keats).
“La Grâce Du Tombeur” inscreve-se simultaneamente nesta e numa terceira tendência, a de composição para filmes ou outras formas artísticas cúmplices da dos sons. Neste caso, um espetáculo teatral de Thierry Smits e Antoine Pickels, pretexto para Brown passar para o vinilo três longas peças instrumentais de extrema complexidade constituindo-se num todo de múltiplas leituras e no álbum mais experimental de toda a sua carreira: “The Labirynth”, “The Fall” e “The Flight”. Sequências de lógicas oblíquas sobrepostas, sonoridades sombrias e ocasionais cintilações, iluminando fugazmente a massa sonora angustiante que domina todo o álbum. Curiosamente, os maquinismos rítmicos obsessivos e monstruosos de “Labirynth” ou as vozes parasitárias e certas desfocagens estruturais de “Fall” lembram operações semelhantes às obradas pelos Nurse With Wound, em “Spiral Insana”. Do outro lado, “Flight” eleva-se num tom mais ligeiro, com a eletrónica predominante em todo o disco, servindo de pano de fundo aos arabescos do saxofone de Brown.
“De Doute Et De Grace”, composto para um filme da Wonder Products, com textos retirados do livro “Cité Du Sang”, de Carole Naggar, prossegue a via iniciada com o disco de Keats. Mais ainda do que neste, a música é a das próprias palavras, ditas por Delphine Seyrig, atriz no “Marienbad” de Resnais, presença e voz encantatórias dos fantasmas de Duras em “India Song”: Calcutta, o Ganges, Hotel Astor… Música e poesia confundidos num instante mágico, a memória reinventada em jogos literários e labirintos de sonhada nostalgia.