Arquivo da Categoria: Críticas 1990

Energy Orchard – “Energy Orchard”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 23 MAIO 1990 >> Videodiscos >> Pop


ENERGY ORCHARD
Energy Orchard
LP MCA, import. WEA


Energy Orchard é, desde já, candidato a um dos piores discos do ano, galardão sempre difícil de atribuir devido ao elevado número de candidatos. Tem todos os ingredientes, nas doses convenientes, dos maus discos: influências mal assimiladas (U2, Dylan), ausência total de originalidade, produção medíocre, músicos sofríveis, enfim, todo o género de maleitas de que deve enfermar um aspirante credível a lugar aconchegado no caixote de lixo (já pejado do dito) da música pop. Os Energy vieram da Irlanda, culpada da propagação na Europa dessa praga terrível que é a Power Pop, cujos arautos são as dúzias de grupelhos que há anos nos vêm rezingando aos ouvidos, como irritantes besouros, as suas infinitas variações do rock “politicamente empenhado” dos papás U2 ou as tontices açucaradas e “foleiradas” do denominado Rock Céltico. Por mim, se fosse irlandês, tinha vergonha. Mas enquanto as massas preferirem sucedâneos de quinta ordem aos originais e à verdade da tradição (que até pode e tem sido corretamente atualizada, mas por outras vias que não passam pela pop), grupos como este continuarão impunemente a dar má fama a uma música já de si atreita a toda a espécie de enxovalhos, crimes e – já agora – escapadelas.

Thirteen Moons – “You Will Find Mercy On Your Road”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 16 MAIO 1990 >> Videodiscos >> Pop


THIRTEEN MOONS
You Will Find Mercy On Your Road
LP e CD Wire, import. VGM


Que tristeza, que melancolia a do mundo habitado por estes suecos para quem a música pop é uma invenção destinada a fazer chorar. “You Will Find Mercy On Your Road” é o terceiro álbum do duo constituído por Goran Klintberg e Anders Holm, após as experiências prévias, bem mais conseguidas, de “Little Dreaming Boy” e “Origins”. As canções que aqui vão bisonhamente desfilando não são boas nem más, passam por nós sem deixar traço, fazem dormir mais que sonhar. Esboços de encontros enfadonhos, amores cinzentos e paisagens desoladas, cantadas ao longe por rapazes precocemente sofredores, lembrando vagamente um David Sylvian ensonado e distraído, vagueando por entre brumas escandinavas. A Suécia não é realmente um lugar propício a grandes entusiasmos e calores, para além dos eventualmente suscitados pelos lendários e salientes traseiros das senhoras dos Abba. A música pop não se dá muito bem com os seus ares e não serão as canções geladas destes Thirteen Moon que farão algo mudar. Brrr…

Peter Scherer & Arto Lindsay – “Pretty Ugly”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 16 MAIO 1990 >> Videodiscos >> Pop


PETER SCHERER & ARTO LINDSAY
Pretty Ugly
LP e CD Made to Measure, distri. Contraverso



Todos aqueles cuja relação com Lindsay se reduz ao conhecimento dos exercícios funky perpetrados no seio dos Ambitious Lovers ou às brasileiradas espalhadas um pouco por todo o lado, incluindo a aventura a solo “Envy” ou a colaboração no fabuloso e heterodoxo “Homem no Elevador” (“Der Mann Im Fahrstuhl”), da dupla Heiner Goebbels-Heiner Muller, gravado para a ECM, ficam desde já informados que o disco agora em questão não tem rigorosamente nada em comum com as características citadas. Lindsay, juntamente com o produtor e músico Peter Scherer, este último responsável por alguns dos mais excitantes trabalhos na área das músicas de fusão nova-iorquinas (lembremos, por exemplo, os dois volumes de “Comme des Garçons”, com a assinatura de Seigen Ono), propuseram-se desta feita investir direta e descomplexadamente nos territórios frequentemente minados do experimentalismo. Com efeito, “Pretty Ugly”, título simultâneo do álbum e da faixa de 26 minutos que ocupa a totalidade do primeiro lado, é uma teia complexa de sonoridades eletrónicas, entre o ambiental e atonalidades próximas da música concreta, não dispensando os dois minutos cantados em português sub-repticiamente intercalados, por Lindsay, no meio da peça. A estrutura é suportada por alicerces rítmicos computorizados ou pelas percussões tradicionais do brasileiro Cyro Baptista. Naná Vasconcelos também é mencionado na ficha técnica, limitando-se a dar palmas e a assobiar. Jill Jaffe toca violino e viola de arco. O disco, como acontece na maioria das gravações da série Made To Measure, engloba-se na categoria das “músicas de circunstância”, neste caso tratando-se de uma composição comissionada para o ballet do mesmo nome coreografado por Amanda Miller. Brilhante, como a quase totalidade das obras deste catálogo.