Arquivo da Categoria: Críticas 1990

Immaculate Fools – “Another Man’s World”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 20 JUNHO 1990 >> Videodiscos >> Pop


IMMACULATE FOOLS
Another Man’s World
LP, CCD, imp. CBS



A característica mais notável destes loucos imaculados era a extraordinária semelhança entre a voz do seu vocalista, Kevin Weatherill, e a do mestre dos mestres Peter Hammill. Neste novo álbum essa característica diluiu-se, e o que resta não é de molde a suscitar grandes entusiasmos. Antes pelo contrário. Se a música dos Fools já não era, nos primeiros álbuns, nada por aí além, então agora pouco se aproveita. A banda esforça-se, mas os resultados são nulos. Esforça-se sobretudo para se parecer com algo ou alguém que venda, procurando tirar dividendos da(s) parecença(s). Assim, Kevin imita (mal) sucessivamente John Cale, Neil Diamond, Mark Knopfler e por aí fora, tornando “Another Man’s World” (título bem escolhido…) um chorrilho de asneiras musicais, de uma pop pirosa e pretensamente épica, destinada à sopa das FM. O que faz correr Kevin Weartherill? Não há quem corra com ele?

Vários – “Feedback”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 6 JUNHO 1990 >> Videodiscos >> Pop


VÁRIOS
Feedback
LP, Feedback




A mesma designação para uma editora e um projeto suportado por meia dúzia de bandas nacionais pouco conhecidas, num esforço conjunto de divulgação de novas e alternativas propostas musicais. Se a intenção é ótima, os resultados deixam um pouco a desejar. De facto são escassas as propostas realmente inovadoras, ficando-se a maioria por um confrangedor amadorismo, tentando fazer passar por novo o velho, através da enunciação de vias estéticas mal assimiladas e apontando para becos musicais sem saída possível. Estão neste caso os Cianeto e Censurados (convencidos que a história do rock terminou em 77) e The New Hard Noise Heavy Rock Cyber Speed Sonic Metal Punk Acid Sound (piratas do “sampler”, em versão Young Gods lusitana) que, só pelo nome, obrigam a que se lhes dedique pelo menos uma linha de prosa, mas cujo som se limita à própria lista obliterada do “New”. Parece muito mas é quase nada. Os K4 Quadrado Azul também se ficam pela noção simplista de que “se é pesado é bom”. Não é. Os Neon Hippies praticam um psicadelismo datado e decalcado dos Pink Floyd, da fase “Interstellar Overdrive” e “Set The Controls For The Heart Of The Sun”. Têm uma certa graça. Dos dois temas dos Ocaso Épico (única banda já com um certo nome), “Entre Barreiras” é o mais interessante, fazendo lembrar técnicas semelhantes utilizadas pelos australianos Severed Heads. As três propostas finais valem por todo o disco: Hesskhé Yadalanah e Psicotrão, embora filiados no experimentalismo sónico do tipo “frequências assassinas”, respetivamente, dos Zoviet France e Hafler Trio, conseguem, no entanto, resultados interessantes e passíveis de posteriores desenvolvimentos. Para o fim ficam os VSS200 RX21, banda que mais arriscou e mais ganhou com as suas “Interferências em Sub-Etha”, colagem/manipulação eletrónica, bem humorada, original e intrigante, pedindo urgentemente um formato maior.

Talk Talk – “História Pouco Natural” (a discoteca | artigo de opinião)

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 6 JUNHO 1990 >> Videodiscos >> Pop

A DISCOTECA


HISTÓRIA POUCO NATURAL

Mark Hollis é um psicólogo com pretensões de mudar o mundo por força e graça de melodias pop. Até agora o melhor que conseguiu foi transformar a própria num mundo de pretensões. A coletânea “Natural History” dá conta de um dos casos mais interessantes de megalomania atualmente em curso no universo de egos inchados da música popular.



Com efeito, a psicologia não era propriamente o veículo ideal para Mark se alcandorar ao estatuto de “imortal”. Na música também não é fácil, mas sempre se vai ganhando qualquer coisita no entretanto. A primeira etapa chama-se “The Reaction” e coincide com a euforia destrutiva dos rapazes de alfinete no lábio, da geração “No Future”, isto é, no ano de 1977. O rapaz, Hollis, navegava nitidamente contra a corrente. A Beggars Banquet, confusa, pega em “Talk Talk” (a canção) e inclui-a na coletânea “punk”, “Streets”. Para já estava encontrada a nova designação para futuros investimentos e cometimentos. O principal era então conquistar o mundo.

Talk Contra Duran

Foi através de Ed Hollis, empresário e irmão de Mark, que este conheceu e convidou o baterista Lee Harris e o baixista Paul Webb para integrarem o seu novo projeto. O convite foi aceite. Nasciam os Talk Talk, sempre com esta formação, já lá vão dez anos. Neste período de tempo gravaram apenas quatro álbuns. Para tristeza de muita gente e alívio de outra tanta. Para criar uma obra-de-arte é preciso tempo. Os Talk Talk deviam ter esperado ainda mais, antes de entrarem em estúdio, mas enfim, lá gravaram o álbum-estreia em 82. Chama-se “The Party’s Over” e é uma mistura estranha e desconfortável de título e maneirismos vocais, inspirados em Bryan Ferry, e atraentes melodias não muito distantes dos parentes próximos Duran Duran, com os quais, aliás partilharam uma “tournée” na qualidade de banda de suporte. O drama dos Talk Talk é que, por mais que se esforcem, não conseguem produzir uma linha melódica com o “charme”, a fluidez e a facilidade das que os Duran Duran são capazes, como se isso não lhes custasse mais que meia hora de intervalo entre um “clip” nas Bahamas e outro na Martinica. O que separa as duas bandas é a “star quality” e carisma dos meninos bonitos Duran e a total ausência de imagem dos feiosos Talk. Uns têm, outros… não. Já para não falar da diferença abissal entre a voz “catchy” de Simon Le Bon e o falsete esganiçado de Mark Hollis, que, por sinal, até nem é mau compositor. A Psicologia explica como um complexo de superioridade quase sempre encobre um sentimento de inferioridade.

Finalmente o Paraíso

“It’s My Life” (84) é a segunda tentativa em álbum, após um atraente “single”, “My Foolish Friend”, apelando para o reconhecimento do génio de Hollis. Poucos são sensíveis ao apelo. Dois anos mais tarde, “The Colour of Spring” assinala a primeira alteração estratégica. Já que o êxito e a fama lhes é, sistematicamente, negado por via da canção pop (só a Europa parece dar por eles, proporcionando-lhes um disco de ouro pelas vendas de “The Party’s Over”), porque não investir no campo mais sério do “conceptual”? Dito e feito. Pegue-se em Steve Winwood, Robbie McIntosh e Danny Thompson, em coros e secções de cordas, e está encontrado o conveniente tom “blasé”, permitindo afirmações do tipo “a nossa música não é comercial. Apenas nos interessa a qualidade. As massas não entendem”. Com “The Spirit of Eden” acertam finalmente no alvo. A crítica dispensa-lhes rasgados elogios. O disco, embora “não comercial”, vende e todos ficam contentes. São seis longos temas de sumptuoso recorte instrumental, em que Hollis descobre finalmente um registo vocal mais grave, sereno e, sobretudo, menos irritante, adaptando-se convenientemente ao tom “soft” e orquestral de todo o disco. É o triunfo e a glória, tenazmente perseguidos ao longo de anos de penoso caminhar. Mark Hollis não conseguiu, por enquanto, mudar o mundo. Mudou ele. Quando não os podes vencer…