Arquivo da Categoria: Avant-Rock

Jim O’Rourke – “Eureka”

Sons

26 de Março 1999
DISCOS – POP ROCK


Ideia luminosa

Jim O’Rourke
Eureka (8)
Domino, distri. Música Alternativa


jor

Em Chicago recicla-se até ao infinito a espiral das últimas quatro décadas de música pop. Nos comandos desta linha de montagem encontra-se Jim O’Rourke, patriarca do pós-rock, erudito de reconhecidos méritos (acertou em todos os nomes com que a revista “The Wire” o desafiou numa das suas últimas Invisible Jukebox), divulgador de novos talentos (entre os quais Nuno Canavarro, que Jim descobriu através de “Plux Quba”, gravada pelo músico português em 1988, editando o disco na sua própria editora Moikai) e amigo (por vezes até demais) dos seus amigos.
Depois da reconversão dos Gastr del Sol de discípulos heterodoxos dos Faust (com um álbum novo disponível em Portugal em finais do próximo mês) em neuróticos da pop, no álbum do ano passado, “Camoufleur”, também na sua obra a solo o conceptualista de Chicago se vem emaranhando cada vez mais nas malhas de um passado tão diversificado quanto sedutor nas margens do mainstream. E se, neste particular, o seu anterior trabalho, “Bad Timing”, cultivava ainda o gosto por um certo desequilíbrio estrutural e por heranças estéticas politicamente incorrectas – como as dos Faust ou de um dos seus heróis, John Fahey –, neste novo “Eureka” a ideia luminosa passa pela rendição à luxúria dos meios técnicos facultados pelo estúdio e às doçuras da pop encarada como arquitectura orquestral, numa profusão de sopros, cordas, piano classicizante, subtilezas pontilhísticas e toda a espécie de ornamentações electrónicas que não deixam de evocar a obra de Van Dyke Parks.
“Eureka” flutua num limbo de lembranças e sonoridades embelezadas pela “patine” do anacronismo, remetendo canções como “Prelude to 110 ou 120/Women of the world” e “Movie on the way down” para o trabalho de trovadores dos anos 70 como Roy Harper e Neil Young (o mais doce, de “After the Gold Rush”, “Harvest” ou da recente revisitação a este último disco, “Harvest Moon”), respectivamente, enquanto “Through the night slowly” transporta reminiscências de Robert Wyatt em “Ruth is Stranger than Richard” somadas ao easy listening de luxo dos High Llamas e Stereolab. “Eureka”, o título-tema, desliza, por sua vez, pelas alamedas povoadas de répteis sombrios que Brian Eno destapou em “Another Green World” (aparentemente uma das redescobertas mais recentes dos pós-rockers). O easy listening (e as referências, tornadas já um pouco fastidiosas à bossa-nova) instala-se, de resto, na versão de um tema de Burt Bacharach, “Something big”, ao mesmo tempo uma demonstração da fixação do músico de Chicago no legado deixado pelos grupos ingleses de Canterbury, também eles fascinados pelas melodias e nostalgia da bossa-nova.
“Eureka”, pese embora a diversidade de influências em jogo, inevitáveis em alguém com a cultura musical de Jim O’Rourke, consegue, todavia, provocar o efeito de verosimilhança, indispensável em qualquer boa obra de ficção. Porque, se, para o compositor, a causa se encontra nos livros de História, o objectivo, esse aponta para o futuro. Mesmo quando o futuro passa por adquirir a forma, ou a quintessência, de uma visão perdida algures nas catacumbas da alma, como um anjo decaído que procurasse acima das nuvens o elo perdido da sua identidade celeste.



Jah Wobble – “Deep Space”

Sons

16 de Abril 1999
DISCOS – POP ROCK


Jah Wobble
Deep Space (6)
30 Hertz, distri. MVM


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O paquiderme está de volta. Thomp, thomp, o baixo do ex-PIL por onde passa reduz a mobília a cacos. Por mais que tente, Wobble é mesmo assim, tem a delicadeza de um elefante simpático que, ao contrário de Dumbo, não sabe voar. Quando tentou fazer música ambiental, com Eno, este torceu o nariz e arrependeu-se da brincadeira. Música de dança, também não consegue sair do rés-do-chão. Curiosamente, a sua melhor obra recente acaba por ser um “Requiem” de ressonâncias clássicas que não deve nada a Michael Nyman. Em “Deep Space” a aposta parece ser o pós-rock. Não faltam os sintetizadores analógicos, a fazer borbulhas por todo o lado, nem a presença do baterista dos Can, Jaki Liebezeit. Depois, um título como “The competition of supermassive black holes and galactic spheroids in the destruction of globular clusters” parece ter sido pedido emprestado aos Tangerine Dream. “The immanent” e “The transcendent” arrastam-se em cadências monolíticas onde, apesar de tudo, existe alguma matéria de entretenimento nos sons electrónicos que vão aparecendo e desaparecendo sem que se vislumbre qualquer lógica aparente. “Disks, winds and veiling curtains” conta com a produção e o baixo de Bill Laswell, outro peso-pesado, que confere a este tema o psicadelismo com cheiro a enxofre tão da sua preferência. O lado étnico é garantido por uma vocalização, ultra filtrada, da cantora bósnia Amila Sulejmanovic, e pelas gaitas-de-foles e outras palhetas duplas plastificadas de Jean-Pierre Rasle, outrora digno elemento da banda de folk céltico de fusão, Cock & Bull. No fim de contas, um álbum engraçado.



The Dylan Group – “More Adventures In Lying Down”

Sons

18 de Junho 1999
DISCOS – POP-ROCK


The Dylan Group
More Adventures in Lying down (7)
Bubble Core, distri. MVM

Não se trata, de maneira nenhuma, da banda de apoio de Bob Dylan, mas de um quarteto heterogéneo composto por Dylan (ah, bom!) Cristy, Adam Pierce, Scott McGovern e Tyle Pistilli. Os quatro apóstolos de uma doutrina que tem do jazz uma visão distorcida e do entretenimento uma noção que exige alguns cuidados e uma abertura larga de espírito. Porque, se na música dos Dylan Group o que importa é, em primeiro lugar, a diversão, tal não significa que o cérebro não se sinta igualmente recompensado com esta mistura de breakbeats, acid jazz alimentado a drunfos, hip-hop ambiental e música latina de salão. São amplos salões de ambientes plenos de exotismo, ricamente decorados com sopros mariachi ou em fuga para a improvisação livre e, sobretudo, com um vibrafone omnipresente que empurra “More Adventures in Lying down” para as asas do sonho. Faz lembrar um pouco a fusão dos Tuatara que, por sua vez, se alimenta da herança dos Gong pós-Daevid Allen, ou seja, a derivação jazz-rockeira de xilofones e vibrafones dirigida por Pierre Moerlen. Todos os instrumentos foram executados ao vivo e em tempo real com microfones de ambiente e a dispensa de quaisquer truques de estúdio. Um dos temas, “Sandcastle”, foi gravado num concerto ao vivo na Knitting Factory, contribuindo para a envolvência que os Dylan Group procuram estabelecer. A lamentar, apenas, alguma excessiva metragem de alguns temas que se arrastam num “riffing” de baixo que não conduz a lado nenhum, num álbum cuja capa interior é digna de um sonho de Little Nemo.