Arquivo da Categoria: Avant-Rock

The Red Krayola – “Fingerpainting”

Sons

24 de Setembro 1999
DISCOS – POP ROCK


The Red Krayola
Fingerpainting (8)
Drag City, distri. MVM


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No início, nos anos 60, em pleno Psicadelismo, os então The Red Crayola, com “c”, desde sempre o projecto do guitarrista Mayo Thompson, eram uma das muitas bandas de “freak out” (leia-se desbunda induzida pelo ácido) que então proliferavam. Data dessa altura o álbum de estreia, “The Parable of Arable Land”, ilustrativo dessa estética, digamos, “free”. Na primeira de muitas reciclagens, já no final dos anos 70, uma episódica junção com os Pere Ubu resultou no álbum “Soldier Talk”, equivalente “garage” do som da banda de David Thomas. Após uma série de álbuns que poderíamos designar por “restos podres do psicadelismo”, os The Red Krayola emergiram nos anos 90 com a máscara do pós-rock, em “Hazel”, um álbum celebratório que reunia um número razoável de luminárias do movimento, de Jim O’Rourke a John McEntire. Mas Mayo Thompson não é homem para facilitar e “Fingerpainting” atira de novo os Red Krayola para o caixote das inanidades, através da repescagem de temas compostos na época de “The Parable of Arable Land”, mas agora filtrados pela electrónica e pelos mandamentos do pós-rock, sem que tal signifique, porém, qualquer tipo de reconhecimento, a não ser o das semelhanças evidentes entre as vozes de Thompson e David Thomas. “Fingerpainting” soa, assim, como uma colagem anárquica de sons sintetizados, “tapes” saturadas de todo o tipo de ruídos e uma rudeza que em “Hazel” parecia ter retrocedido. Durante parte dos 15 m do tema final, Thompson passa o tempo a balir como um carneiro antes de ir para o matadouro – Faust mais cacofonia mais romantismo perdido – e torna-se perigoso demorarmo-nos por lá.



David Grubbs & Mats Gustafsson – “Apertura”

Sons

15 de Outubro 1999
DISCOS – POP ROCK


David Grubbs & Mats Gustafsson
Apertura (3)
Blue Chopsticks, distri. MVM


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A paciência tem limites. Ouvir do princípio ao fim os 39’50” – duração exacta do primeiro dos dois temas que preenchem “Apertura” – pode provocar danos sérios no sistema nervoso de qualquer um. O tema em questão consiste numa “drone” rigorosamente de uma só nota produzida num velho órgão de foles por David Grubbs (Gastr Del Sol), cortada apenas pelo que parece ser o ruído dos foles e aumentando gradualmente de volume. No segundo tema o som enriquece-se ao nível dos harmónicos, o que, comparativamente, faz a dose (25 minutos) soar como o Centro Comercial Colombo em hora de ponta. É verdade que LaMonte Young e, em geral, a maior parte dos minimalistas, já tinham testado antes a capacidade de resistência do ouvido humano. Mas isso foi num tempo, já lá vão 30 anos, em que as cabeças funcionavam a outra velocidade e eram alimentadas por outras substâncias. Um único som, bem trabalhado, chegava para fazer um “happening”. Até porque era frequente, nessas ocasiões, ser de tal forma intensa a meditação do auditor que as forças lhe faltavam para se levantar e desligar o gira-discos. Era a vitória da vanguarda construída sobre a inércia. Mas “Apertura” exagera: vazio antes, vazio durante e vazio depois. E abertura de quê? Da porta que permita fugir o mais rapidamente possível? É bem possível. Ou tratar-se-á apenas de um sinónimo de “aperto”, o que já faz algum sentido? Seja como for, não é com discos destes que se avança para algum lado. Nem se recua, aliás.



Fred Frith Guitar Quartet – “Upbeat”

Sons

15 de Outubro 1999
DISCOS – POP ROCK


Fred Frith Guitar Quartet
Upbeat (7)
Ambiances Magnétiques, distri. AudEO


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Um pouco como fez Robert Fripp com a sua League of Gentlemen, também Fred Frith reuniu o seu próprio “ensemble” de guitarras, com a diferença de que, enquanto o guitarrista dos King Crimson distribuiu tarefas por alguns dos seus alunos, o antigo guitarrista dos Henry Cow chamou para seu lado três instrumentistas de créditos firmados: René Lussier (ex-Conventum), Nick Didkovsky (Doctor Nerve) e Mark Stewart. “Upbeat” é uma demonstração feliz do que pode ser feito com uma guitarra eléctrica, a solo – cada um dos músicos teve uma faixa à disposição – ou em trabalho colectivo. Experiências com “drones”, fragmentações harmónicas e tímbricas, desmultiplicações rítmicas, exploração de sonoridades e técnicas de execução pouco ortodoxas, ao estilo da série “Guitar Solos” organizada há anos pelo próprio Frith, criam momentos de interesse e intensidade variada, no que constitui um objecto prioritariamente dirigido aos adeptos da guitarra. Para Fred Frith, pólo aglutinado deste “ensemble” de virtuosos nada académicos, “Upbeat” serve ainda como pretexto para o humor que sempre o caracterizou (dos Henry Cow a álbuns deliciosos como “Cheap at Half the Price” ou “Live, Love, Larf and Loaf”), mas que tem andado algo arredado da sua discografia “de câmara” mais recente. Rock ‘n’ roll, ragtime e outros anacronismos contrastam com momentos mais duros numa arrumação por títulos na prateleira dos advérbios: “stinky”, “spitty”, “squinty”, “speedy”, “feety”, “slinky”, “skinny”, “sinky”…