Arquivo mensal: Junho 2025

Upalappu Srinivas – “Rama Sreerama”

pop rock >> quarta-feira >> 19.10.1994


Upalappu Srinivas
Rama Sreerama
Real World, distri. EMI-VC



O bandolim é um instrumento de origem italiana, inventado no século XIV e muito popular na cidade de Nápoles. Upalappu Srinivas aprendeu a tocá-lo aos seis anos de idade e cometeu o sacrilégio de o empregar na interpretação das tradicionais ragas indianas. A princípio apontaram-lhe o dedo em acusação. Mas o seu reconhecido virtuosismo e uma inspiração que os deuses apenas conferem aos mestres acabaram por deitar abaixo todas as barreiras.
Hoje Srinivas é um músico reconhecido na Índia e além-fronteiras, tendo participado em 1983 no festival de jazz de Berlim. Os bandolins que utiliza têm cinco cordas, ao contrário das habituais seis, de modo a permitirem a execução das típicas entoações (“gamakas”) da música carnática. São de facto excepcionais as aptidões de Srinivas. Ao ouvi-lo, torna-se irrelevante se o bandolim é ou não um instrumento apropriado para a música indiana. Nas suas mãos, não há dúvida que é.
As peças de “Rama Sreerama” são de índole religiosa, de louvor ou súplica a divindades como Genesha, Rama Krishna, Sreerama e Murugan. Como em toda a música indiana, a audição deve processar-se segundo moldes diferentes dos ocidentais, sendo necessária uma adequação de ritmo interior de cada um à pulsação intrínseca da raga e em simultâneo, ao ritmo particular do executante.
Conseguida esta “entrada”, a música, como pura magia, “abre-se”, dando a revelar uma riqueza e complexidade que do exterior, não são imediatamente perceptíveis. Quem for sensível a uma faixa com a aparente impenetrabilidade de “Saranambhava la runa” pode seguir em frente e mergulhar nos ciclos da eternidade, nos 29 minutos do título-tema. Com a garantia de deles num estado de consciência diferente. (8)

U-Nu – “Portugal Está Nu E Recomenda-se”

pop rock >> quarta-feira >> 19.10.1994


Portugal Está Nu E Recomenda-se

U-Nu. Nudez. Pode querer dizer isto ou outra coisa qualquer. U-Nu é um novo grupo português, originário do Porto, cuja estreia na editora Numérica, “A Nova Portugalidade”, é uma autêntica pedrada no charco. Originalidade, inteligência, cuidado máximo na produção e na apresentação, num disco onde pela primeira vez músicos portugueses ousaram filiar-se na chamada “estética Recommended”.



A primeira conclusão que se extrai da audição de “A Nova Portugalidade” é a de que estamos perante um grupo que recusa toda e qualquer norma ditada pelas leis de mercado. Fernando Noronha (baixo), José João Cochofel (percussão), Manuel Costa (piano), Ricardo Pereira (sintetizador), Viriato Moraes (sopros) e Vitorino Almeida Ventura (voz e textos) fazem a música de que gostam e nesse caminho deixam semeadas múltiplas pistas para posterior desenvolvimento. As ideias explodem em múltiplas direcções. Muitas músicas estão contidas na música dos U-Nu.
Do título aos textos e à utilização de “instrumentos paródicos”, como cornetas e peixinhos de plástico, passando pela própria construção dos temas, sente-se que a ironia e a sátira ocupam um lugar importante na estética do grupo. No meio de ferroadas várias, que inclusive atingem a crítica musical (num tema com o elucidativo título “Narciso ou o crítico musical leva-nos ao paraíso”), a chave talvez possa ser encontrada numa das várias leituras possíveis da designação “U-Nu” aplicada à “nova portugalidade”. Como sugere José João Cochofel, pode ser que – os U-Nu preferem deixar vagos os lugares destinados à imaginação dos ouvintes…- “o rei vai nu” ou “o país vai nu”.
Percebe-se, além disso, que todos ouviram e assimilaram muita música. Boa música. Música afastada dos parâmetros comerciais. As bandas da Recommended são uma referência – dos No Secrets in the Family aos Il Gran Teatro Amaro e Fred Frith, só para nomear alguns dos citados pelos próprios U-Nu -, mas não esgotam a proposta destes portuenses, cuja música é praticamente impossível de catalogar. Visível é a existência de uma teatralização presente nos arranjos e na manipulação, semântica e fonética das palavras, acompanhada de um tratamento quase milimétrico dos sons. “A nossa música passa para além da música. Vejo-a mais como uma peça”, diz José João Cochofel, que acrescenta tratar-se de “um trabalho feito em grande parte a pensar nos espectáculos”.
Se é música portuguesa ou não, eis um assunto sujeito a discussão. O mesmo tipo de discussão que tenta descobrir qual o sexo dos anjos – ainda que o vocalista e declamador dos U-Nu fale em “andar numa procissão”, em símbolos como “o sino ou um corno celta”, ou até em “algumas alusões aos Zés-Pereiras”. No fundo, como diz Vitorino Almeida Ventura, talvez não seja mais que “um acto de amor entre duas culturas, uma portuguesa e tradicional e outra clássica”.
Uma coisa é certa: o projecto musical do U-Nu, traduzido para já em “A Nova Portugalidade”, vai agitar os hábitos auditivos de muito boa gente e abrir um precedente para outras bandas isoladas em “guetos”, por causa de uma alegada falta de potencialidades comerciais da sua música, romperem o bloqueio. Para já, os U-Nu partem com uma certeza – a “existência de um público maior do que se poderia pensar”. Quanto ao número de vendas do compacto, não estão minimamente preocupados: “Se ganharmos o disco de presunto, já é porreiro, acompanhamos com umas cervejas!”

Peter Hammill – “Roaring Forties”

pop rock >> quarta-feira >> 19.10.1994


O Gerador Voltou A Funcionar

Peter Hammill
Roaring Forties
Fie, distri. Megamúsica



Tem sido uma longa viagem, com altos e baixos, momentos de exaltação alternando com outros de cansaço e alguma desilusão. Peter Hammill é o amigo estrangeiro cuja obra tem tocado toda uma geração que o acompanha desde a estreia dos Van de Graaf Generator, “The Aerosol Grey Machine”, de 1969, até hoje, já lá vão 33 álbuns, todos com a mesma recusa em fazer concessões, algo difícil de encontrar numa época em que a arte cada vez mais se reduz a um negócio. Os fiéis de Hammill sabem de antemão que em cada novo disco a qualidade se eleva inevitavelmente acima da média. O problema está, ou estava, em que nos últimos tempos ele se mostrava incapaz de inovar e surpreender, parecendo que os seus trabalhos mais recentes giravam cada vez mais próximo de uma média, um “Hammill standard” impenetrável ao excesso e à diferença, ao contrário dos gigantescos contrastes que animam toda a discografia dos Van Der Graaf ou os álbuns a solo até “A Black Box”. Já nos tínhamos resignado a um Hammill previsível e preocupado com uma reforma tranquila, quando este “Roaring Forties” veio de súbito perturbara acalmia. Diga-se desde já que é o melhor Hammill desde há alguns anos. É um regresso ao som e às temáticas dos geniais “The Silent Corner and the Empty Stage” e “In Camera”. O ex-Van Der Graaf pôs de parte – momentaneamente ou não, os próximos capítulos o dirão – a tendência recente para se refugiar na segurança, manifestada em termos práticos numa maior acessibilidade da sua música, para se concentrar de novo naquilo que ele sabe fazer melhor: o desmantelamento dos processos mentais através de uma auto-análise obsessiva e profunda que, por tocar nas zonas do ultraconsciente colectivo, se torna universal, daí a empatia que é possível estabelecer-se com os seus textos e a sensação de que “ele escreve e canta as mesmas coisas que eu sinto e penso”, vivida por muitos dos seus admiradores. “Roaring Forties” é, neste aspecto, um regresso aos bons velhos tempos, em particular no épico de 19 minutos, dividido em sete partes, “Headlong Stretch”, uma das típicas explorações onde o ressuscitado-Hammill-metafísico aborda questões como os paradoxos do tempo e do espaço, a personalidade dividida e a demanda alquímica de uma unidade perdida que acena na próxima curva da estrada mas nunca é alcançada (um pequeno aparte para dizer que, se fosse vivo, Fernando Pessoa teria com certeza muito prazer em conhecer Peter Hammill…). Um tema para escutar e meditar muitas vezes, na linha de grandes composições como “A louse is not a home” (de “The Silent Corner…) e “Cockpit” (de “A Black Box”) que traz de volta o prazer da grande aventura. Peter Hammill reencontrou o gosto pelo risco, o que não acontecia desde os álbuns da fase “branco e negro” dos anos 80. Musicalmente há em “Roaring Forties” surpresas, soluções arrojadas e uma sonoridade que se aproxima – suspenda-se a respiração – dos Van Der Graaf. Um som colectivo, pujante e seguro, onde sobressaem os sopros desse músico “sui generis” chamado David Jackson, o violino de Stuart Gordon e as guitarras e manipulações electrónicas de um Hammill empenhado em fazer esquecer anteriores sensaborias. À entrada do próximo milénio, Peter Hammill acordou e é como se tivesse ainda tudo para dizer. (8)