Arquivo mensal: Fevereiro 2022

Joni Mitchell – “Night Ride Home”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 27 MARÇO 1991 >> Pop Rock >> LP’s


REGRESSO A CASA

JONI MITCHELL
Night Ride Home
LP / MC/ CD, Geffen, distri. BMG


Um caso de classe e distinção. Não fora o lamentável equívoco de “Dog Eat Dog” (acesso tardio de comercialite aguda) e seria caso para se dizer que Joni Mitchell nunca erra. Com “Night Ride Home” não só não erra como acerta em cheio no alvo. Digamos que a cantora canadiana consegue aqui conciliar a extrema simplicidade dos arranjos com as típicas sinuosidades de um estilo vocal e composicional muito próprio, sem perder de vista uma acessibilidade que não envolve qualquer tipo de concessões.
Longe vão os tempos do jazz, de “Mingus” e “Don Juan’s Reckless Brother”, ou os labirintos estruturais de “The Hissing of Summer Lawns”. De regresso à serenidade e ao tom acústico da fase inicial, aquela que culmina em “For the Roses” ou, já num período de transição, em “Court and Spark”. “Night Ride Home” flui com a facilidade das águas de um rio antigo, até ocupar o lugar exato num universo pacientemente construído, a que se acede sem pressas nem escusadas violências. Joni Mitchell nunca foi, de resto, mulher de perder a cabeça. Mas, se, na aparência, se pode falar em termos de “regresso”, “Night Ride Home” representa, além de tudo o mais, a maturidade e a depuração de um estilo.
Se, por vezes, o seu modo de cantar pareceu “difícil” e a sua poesia demasiado obscura, agora a música revela-se com a limpidez e o brilho de um diamante perfeitamente lapidado. Entre o som dos grilos numa noite de Verão, de “Night Ride Home”, e o tom sombrio e despojado de “Two Grey Rooms”, Joni Mitchell vai aos poucos desvelando o seu universo pessoal, através da poesia e de uma voz que, como em “Passion Play”, nos toca como o veludo sobre a pele.
Momentos trágicos, pontuados pelas explosões surdas dos timbalões orquestrais, em “Slouching towards Bethlehem” (baseado no poema “The second coming”, de W. B. Yeats). Momentos mágicos, vividos na Itália de Botticelli e Fellini, trazidos pelos ventos quentes do oboé que a própria Joni toca. Brilho cintilante ainda nas percussões de Alex Acuna, ao longo de todo o disco, e no saxofone de Wayne Shorter, em “Cherokee Lousie” e “Ray’s Dad Cadillac”. Depois do regresso, de novo a partida.

Vários – “Insurrectos”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 24 OUTUBRO 1990 >> Pop Rock >> LP’s


VÁRIOS
Insurrectos
LP e MC, Área Total



Portugueses, jovens e quase todos deprimidos. São bandas marginais à procura de um lugar ao sol, embora para elas faça sempre mau tempo. Outros nomes, mais conhecidos, aproveitam para fazer algumas experiências longe das cedências que o mercado impõe. Como João Peste e Flak, divertidos na contemplação do umbigo. O primeiro num poema fonético que mistura vozes e línguas sortidas, sem rede sem suporte instrumental, o guitarrista, perdido em interessantes abstrações eletrónicas querendo com isso dizer que os Rádio Macau não lhe esgotam a veia criativa. Os Ocaso Épico, ou seja Farinha, são como quase sempre imprevisíveis e experimentais-foleiros. Não lembra ao diabo misturar as percussões metálicas dos Einstuerzende Neubauten com a voz portuense de um empregado de mesa. Para Farinha a associação é mais que lógica – “Um café e um Neubauten”? Porque não? Sempre pops, os Requiem pelos Vivos, prosseguem, em “Dança dos Golfinhos”, a metódica tarefa de reciclagem dos Heróis do Mar. Os Mão Morta estão bem obrigado, isto é, estão mal. No seu caso quanto pior melhor. Adolfo Luxúria Canibal aproveita, em “Véus Caídos”, para destilar mais uma dose de veneno. Do contingente negro da Guarda só os nomes são arrepios: Deadly Gas, Nihil Aut Mors, Pervertidos da Fé. Infernos Joy Division em cujas fileiras há um sem número de Ian Curtis à procura de corda para se enforcar. Não há anjo da Guarda que os proteja. Os Gabardine 12 também cabisbaixos, vingam-se com o divertido da designação. Serão a réplica lusíada das Raincoats? E que dizer da Morte do Régio com um título tão sugestivo como “A Verdade Pura como o Cálice da Nascente Contrária” com texto de “Eu Sou”, produção de “Eu” e a frase “O Régio ou ‘Eu sou eu ou não!?’” Régio, não sei quem te possa responder. Compare-se o título anterior com o “Yuppie Yuppie, lá lá lá” dos M’as Foice, que não se levam tão a sério e até conseguem ser engraçados. Finalmente os More República Masónica voltam a conspirar com a ajuda do rock ‘n’ roll e da turbina Hawkwind. Insurrectos são uns mais do que outros. A maioria só um poucochinho. Aos portugueses jovens e músicos sobre em entusiasmo e espírito de iniciativa o que escasseia em ousadia e originalidade. À cena alternativa falta ainda muito espaço para ser área total. **

Peter Hammill – “Camaleão na Sombra da Noite” (livro)

Livros
MÚSICA


PALAVRAS E SONS

Título: Camaleão na Sombra da Noite

Introdução e Tradução de Alexandre Vargas
Editora: Assírio & Alvim, 1990
117 pp.
1200$00


O título refere-se ao segundo disco a solo do antigo líder de uma das bandas mais importantes da década de Setenta – os Van Der Graaf Generator. O livro em questão apresenta uma recolha de poemas/letras de canções de músico e poeta inglês, compilados e traduzidos, em edição bilíngue, por Alexandre Vargas. Uma introdução à obra do autor, uma entrevista efetuada no nosso país aquando da visita daquele em 29 de Setembro de 85, no hotel Tivoli, uma biblio-discografia e fotografias de arquivo, completam o livrinho. Alexandre Vargas devia ter vergonha. As suas “traduções” dos textos Hammillianos ofendem o autor do imortal “A Plague of Lighthouse Keepers”. Ofendem as línguas inglesa e portuguesa por igual. Envergonham o leitor, pelo atropelo constante, não dizemos já às mais elementares regras da gramática, como aquelas bem mais elementares respeitantes ao simples bom-senso. Mesmo desculpando erros do estilo “I shine, but shining, dying”, para Vargas, “brilho, mas a brilhar a morrer”, como é possível traduzir “delight” por “luz” ou “silver” por “silva”? Está certo que, como nos diz Borges, “o inglês é uma língua em que frequentemente há duas palavras para designar a mesma coisa”. Mas tanto? Nalguns casos o Vargas assume a sua ignorância, referindo-se por exemplo a um disco com “dupla sleeve”. Mas logo a seguir é a própria língua inglesa que é posta em cheque, pecando por paupérrima. “Ice”, gelo? Nunca! “Olhos de gelo” é que está correto. Com Alexandre Vargas a tradução livre ganha dimensões inusitadas. Logo na nota do tradutor somos avisados: “Se por um lado qualquer tradução de um texto perde alguma coisa em relação à língua em que este foi originalmente escrito, por outro alguma coisa poderá também ganhar”. Ganha e de que maneira. Não se estranhe pois que “ Doubt casts its shadow/ on every perfect plan that is made” signifique “a dúvida poisa a sua sombra/ em cada plano perfeito louco que fazemos está a morte”. Com Vargas podemos ter a certeza que “nada se perde, tudo se transforma”. Restam finalmente o prazer e o consolo proporcionados pela leitura direta dos originais. Testemunho pungente das obsessões, solidão e alucinações cósmicas de Hammill, poeta perdido nos labirintos da condição humana. De “The Least We Can Do Is Wave To Each Other” a “And Close As This”, um percurso solidário de palavras e de sons.

LEITURAS TERÇA-FEIRA, 3 JULHO 1990