Arquivo mensal: Junho 2021

Throw That Beat – “Throw That Beat Em Portugal – ‘Pop E Tostas De Carneiro'”

pop rock >> quarta-feira >> 21.04.1993


Throw That Beat Em Portugal

POP E TOSTAS DE CARNEIRO


A banda alemã Throw That Beat in the Garbagecan, que podemos traduzir por “atirem este ritmo para o caixote do lixo”, tem agendados três concertos em Portugal, em finais de Abril.
Klaus Cornfield é o guitarrista e mentor deste projecto, que mistura pop, rock e country, do qual também fazem parte Polli Pollunder, em voz e guitarra, Lotsi Lapislazuli, baixo e guitarra, Alex, bateria, e Iwie Candy X07, órgão.
De acordo com as opiniões de quem os conhece e a folha promocional, os Throw That Beat são dados à excentricidade, provocando nos espectáculos em que participam autênticas ondas de loucura. Entre as predilecções dos seus membros contam-se Pipi das Meias Altas, Pee Wee Herman, os Beach Boys, viagens intermináveis de moto (sic), tostas de carneiro com queijo (sic, puah!), limonada, Sonic Youth, plasticina, piadas foleiras (ah, ah, suspiro), cerveja em lata, telenovelas, uma boa noite de sono (bocejo), Edith Piaf e banda desenhada. “Por estranho que pareça”, adianta a promoção, “as pessoas que se identificam com tudo isto gostam muitíssimo dos Throw That Beat.” É possível, se bem que seja difícil de acreditar que haja alguém que goste de tostas de carneiro com queijo.
Não sendo por enquanto muito conhecidos, os Throw That Beat já gravaram até à data três álbuns: “Tweng”, “Large Marge Sent Us” e “Cool”. São capazes de ser divertidos, estes alemães danados para a brincadeira.
23 de Abril, Porto, Galeria Norte
24 de Abril, Odemira
25 de Abril, Setúbal, discoteca Fábrica

Lo Jai – “Acrobates Et Musiciens”

pop rock >> quarta-feira >> 21.04.1993
WORLD


HOSANA PELA OCCITÂNIA

LO JAI
Acrobates Et Musiciens
CD Shanachie, distri. MC – Mundo da Canção



Há uma angústia inerente ao acto de escrever sobre discos como este, que provocam no crítico o entusiasmo das obras de excepção. O receio de não conseguir transmitir essa emoção. Porque existe o prazer de partilhar, o prazer de saber que outros se deliciam com a audição.
“Acrobates et Musiciens”, título e reprodução da capa em citação à obra do mesmo nome de Fernad Leger, segue-se a “Musiques Traditionnelles du Limousin” e antecede um álbum novo prestes a editar. Segundo parece, vai ser preciso esperar até meados de Maio pela chegada de nova remessa, já que a primeira esgotou de imediato.
Os Lo Jai incluem-se na categoria de grupos que conseguem extrair a quintessência da música tradicional. Com a força das raízes, a depuração e enriquecimento das melodias, a tradução e o dizer actualizado de uma vivência mítica do mundo, a capacidade de fazer vibrar cada célula do nosso corpo em consonância com o sagrado. Recapitulemos um ano até agora farto de milagres: Noirín Ní Riain e os monges de Glenstal trouxeram o céu para a terra. Os Hedningarna (há um atraso na chegada da encomenda que começa a exasperar) mostram a Escandinávia em delírio, Molloy, Keane e O’Flym são a Irlanda, ponto final. “Acrobates et Musiciens” é algo mais: um som e uma atitude que levam a música de raiz tradicional francesa (neste caso do Limousin, zona integrante da antiga região onde se falava a língua de Oc, daí o nome de Occotânia, que se estende ao longo da faixa sul de França, abrangendo ainda a Gasconha, Provença, Auvergne e Languedoque) aos mais altos cumes a que esta alguma vez subiu. Suspensos na nuvem do lado estão os Perlinpinpin Folc e os Verd e Blu. Nas mesmas altitudes rarefeitas encontram-se também os Mont-Jóia, provençais de boa memória.
Originários do resto do hexágono, são dignos de figurar no panteão os Malicorne (até “Le Bestiaire”) e o grupo de referência, chamemos-lhe assim, Mélusine, de Jean-François Dutertre (impulsionador de um notável projecto ligado ao clube “Le Bourdon”: “Le Galant Noy’e – Ballades et Chansons Traditionnelles Françaises”), de que conhecemos as obras-primas “Voulez-vous que je vous disse…” e o estelar “La treizième heure”.
Eric Montbel, tocador de “cornemuse” (gaita-de-foles, em francês), que antes já havia colaborado com outro gaiteiro de excepção, Jean Blanchard (La Bamboche) no álbum “Cornemuses” e pertencido, com outros membros da banda, aos Le Grand Rouge, é o orientador estético dos Lo Jai. O grupo, além do Limousin, integra no seu reportório temas das zonas de Auvergne, Borgonha, Pirinéus e Gasconha. Os três músicos que compõem a formação são Guy Bertrand (voz, flautas, tambor com cordas, saxofone soprano), Pierre Imbert (sanfonas, percussão, “kalimba”) e Christian Oller (acordeão diatónico, violinos, percussão). Eric Montbel, além de gaita-de-foles, canta e toca teclados e “tin whistle”. A ele se deve ainda a criação, em 1979, da Association des Musiciens Routiniers, da revista “Modal” e uma série de recolhas etnográficas. Mais: Eric Montbel é um grande compositor.
Comecemos por esta última faceta, entre um estendal de prodígios e piruetas com que estes acrobatas da música nos conduzem à bem-aventurança. Grilos, o piar das vaes nocturnas e pingos de piano eléctrico servem de pano de fundo aos sortilégios de uma sanfona enfeitiçada, em “Deux nuits au palais Ideal”, instrumental composto por Montbel que sintetiza na perfeição a estética do grupo: uma combinação feliz de arranjos imbuídos do estilo e da sofisticação da música da Renascença com um som que apenas se pode definir como mágico. “Noels de Limoges” apresenta o diálogo entre as vibrações vítreas de uma “kalimba” e o uníssono sax soprano/gaita-de-foles, com posterior entrada de um órgão que deve ser o mesmo que põe em sintonia as constelações do firmamento. Uma das melodias é decalcada dos sinos da Igreja de Notre-Dame de La Platée, em Castres. A flauta e o acordeão operam prodígios em “Angels/Satins blancs”, escrito por Montbel durante uma digressão dos Lo Jai, entre Los Angeles e São Francisco, imbuído, segundo o autor, do espírito californiano. Eric Montbel, mago de sonhos e imagens. “Borjon, Susato” rege-se pelos cânones da música antiga, em dois “branles de village” extraídos dos documentos “Orchésographie”, de Toinot Arbeu, 1558, e o célebre “Terpsichore” compilado por Michael Pretorius em 1812.
Como se não bastasse, há ainda a presença da voz deslumbrante da cantora convidada, a asturiana Equidad Bares, numa “La Madeleine” de antologia e no tema final “Brava gente de la maion” a concluir “Une nuit de premier Mai”, sobre o ritual pascal de celebração da fertilidade dos homens e da natureza, em que rapazes e raparigas buscam pelos campos ovos escondidos, enquanto vão entoando canções. Seguimos na sua companhia, levados pelos sons da água de regatos murmurantes, de risos juvenis, de sanfonas em louvor ao magistério da Primavera, até à entrada do cântico da mulher-rainha, símbolo do útero da Terra e das forças geradoras do universo, personificada, numa prodigiosa interpretação, por Equidad Bares.
Quem quiser, procure-a entre a escuridão, na faixa “Litania de los sonidos negros”, incluída na colectânea “Chapitre 2”, da Revolum. Ou no seu álbum a solo, “Seule”, gravado na mesma editora. Percam-se neste país de maravilhas como eu me perdi. (10)

Les Rita Mitsouko – “Rita Mitsouko” – “The No Comprendo” + “Marc Et Robert”

pop rock >> quarta-feira >> 21.04.1993
REEDIÇÕES


A EDUCAÇÃO DE RITA

LES RITA MITSOUKO
Rita Mitsouko (6)
The No Comprendo (5)
Marc Et Robert (5)
CD Virgin France, distri. Edisom



O estilo é a perdição dos franceses. Perdem-se de desejos pela imagem, pela pose, pela sofisticação a todo o custo. Os Rita Mitsouko, duo formado pela ex-porno actriz Catherine Ringer e pelo ressacado dos anos 70 Fred Chichin (tem um fraco pelas fantasias “glamour”: David Bowie, Iggy Pop, Sparks), pelam-se por uma boa fotografia e por um “clip” bem tirado. A música dos Rita Mitsouko – Mitsouko é a marca de um perfume de Guerlain – segue pela coleira da imagem.
A reedição das três primeiras obras do grupo gaulês pauta-se por uma caldeirada de géneros musicais subjugados pelo imperativo de dar a conhecer ao mercado estrangeiro (grande parte das canções é cantada em inglês) um som e bonecos passíveis de mercantilização à escala internacional. As sonoridades e ritmos latinos confundem-se com a canção de cabaré, as lágrimas de Piaf com descarrilamentos Velvet Underground, “pastiches” do romantismo decadente dos anos 70 (Roxy, Bowie) são atropelados por fanfarras “funky” ao retardador e desatinos “ska”, a voz de Catherine percorre a auto-estrada que liga o grito gutural ao ronrom de cama. Engraçada a operação de mimetismo das inflexões vocais de Robert Wyatt levada a cabo em “Un soir, un chien”. Mas a musicalidade intrínseca da língua francesa, em alguns casos, não ajuda, cravando pregos no tímpano, sobretudo quando Catherine se deixa levar por arrebatamentos “new wave”. A instrumentação é predominantemente constituída por sintetizadores e caixas-de-ritmo, o que desde logo remete a estética do grupo para os salões sintéticos da pop electrónica. Não por acaso, o produtor do primeiro álbum é Conny Plank, anfitrião em Berlim de tudo o que desde os anos 70 vem sendo conotado com a electrónica, do “Kosmische rock” aos experimentalismos cibernéticos do ex-Cluster Dieter Moebius. Se quisermos procurar alguns parentes próximos dos Rita Mitsouko, poderemos encontra-los, obviamente, nos Sparks ou nos suiços Yello. Mas não é preciso sair de França, onde outros dois duos já antes tinham encetado estratégias semelhantes de pop sintetizada apontada aos ecrãs de cinema: Kas Product e Alésia Cosmos. O problema dos Rita Mitsouko é talvez o de não serem nem carne nem peixe. Ou seja, a multiplicidade de pistas e a pluralidade de sentidos que dispersam faixa a faixa nestes três álbuns não encontram uma contrapartida aglutinadora, dando a ideia de que a banda procurou apanhar um qualquer comboio em andamento, numa ânsia de diferença que acaba por se diluir no ambiente geral de confusão. Falta-lhes o humor e o distanciamento dos Yello, a acidez corrosiva dos Kas Product e o radicalismo dos Alésia Cosmos. Os Rita Mitsouko absorveram com avidez 40 anos de cultura pop e quiseram regurgitá-la toda de uma vez. A digestão ficou completa. Poderiam ter encontrado um caminho em pseudobaladas como “La fille venue du froid” e “Vol de nuit”, mas preferiram a sofisticação da produção barroca entregue a Tony Visconti em “The No Comprendo” e “Marc et Robert”. Ou ter-se-ão guardado para os filmes. O “videoclip” de “Marcia baila”, extraído do primeiro álbum, foi comprado pelo Museu de Arte Moderna de Nova Iorque. As sessões de gravação de “The No Comprendo” foram filmadas por Jean-Luc Godard. Bandas sonoras que fariam boa figura em desenhos animados.