Arquivo mensal: Junho 2021

Anuna – “Anúna”

pop rock >> quarta-feira >> 28.04.1993
WORLD


ANUNA
Anúna
CD Danú, distri. VGM



Ainda mal se extinguiram os ecos de “Vox de Nube” e já outras vozes se levantam em coro numa catedral, agora dos Anúna, formação de 16 músicos (embora possam apresentar ao vivo um grupo com menos elementos) sob a direcção de Michael McGlynn, cujo reportório incide maioritariamente na música da tradição celta irlandesa, da Idade Média a compositores contemporâneos.
Surgidos na Irlanda em 1989, os Anúna – nome correspondente ao irlandês antigo “Na Uaithne”, o deus bom tocador de harpa – contam já no seu currículo actuações ao lado de Máire Ní Bhraonáin (Clannad), Liam O’ Flynn e, hélas, Noirín Ní Ríain, essa mesma, a voz celestial de “Vox de Nube”. Michael McGlynn gosta de compor peças, ao estilo épico mas acessível, com nomes sugestivos – “Media Vita”, “Invocation”, “Carmacus Scripsit” – e de pôr o coro a cantar em igrejas, onde a acústica do espaço resulta sempre quando se trata delevantar a voz ao céu. Em “Anúna” é o que mais uma vez acontece – 15 vozes mistas agregadas na sublime missão de nos fazer ascender à morada dos deuses.
A primeira impressão que se desprende é de majestosidade. De luminosidade de vitrais. De diálogo com o transcendente. Neste aspecto, “Anúna” soa até, num primeiro contacto com a música, mais bonito que “Vox de Nube”. Só que “mais bonito” não significa forçosamente “mais belo”. É que em “Vox de Nube” existe a profundidade da liturgia enquanto que dos Anúna ressalta amiúde a sensação de vozes deslumbradas pela reverberação, confundidas em autocontemplação, em diálogo ao espelho consigo mesmas e menos com o divino. Até ao nível da instrumentação é perceptível a diferença existente entre os dois discos, se compararmos as vibrações de uma sanfona e as “drones” de um órgão indiano, de “Vox de Nube”, com os chilreios e fantasias de um “tin whistle”, de um violino ou de uma harpa, em “Anúna”.
“Vox de Nube” exige mais do auditor. É nuvem mas também sangue. “Anúna” mostra um azul mais límpido – o azul sem mácula do tema “The blue bird”, sobre um texto de Mary Coleridge que descreve uma visão: “Um pássaro azul, num céu azul, sobre um lago azul” – mas destituído do drama e da dilaceração que toda a ascese necessariamente comporta. Leva-nos, sem dúvida, pelo ar, a ver paisagens de uma perspectiva superior. Mas não tão alto que faça perder de vista a Terra.
Feitas as comparações, “Anúna” é um objecto de sedução imediata. Prisma refractor de sonhos e imagens que percorrem o quadro anímico que consentimos em chamar “celta”. Um passeio pela Idade Média sublimada, da música de um abade do século XII a um “Sanctus” escrito por McGlynn, evocativo de uma Idade que nos ensinaram ser das trevas, mas que é infinitamente mais luminoso que a escuridão do século em que vivemos, passando por um exerc´cicio de “mouth music”, ou “puirt-a-beul” (“Fionnghuala”, segundo a versão dos Bothy Band incluída em “Old Hag you have Killed me”, aqui quase contrária no espírito), e por um hino de St. Godric, também do século XII, uma das primeiras composições cantadas em língua inglesa. “Anúna” renova a viagem de “Vox de Nube”, desta vez não ao sétimo mas ao quinto, vá lá, ao sexto céu. (8)
P.S. – Prestes a sair um álbum novo dos Patrick Street, em boa hora ressuscitados. Atenção: encontram-se à venda na Voz do Operário, vários exemplares da caixa com três álbuns, livro e colecção de “slides”, “Instrumentos Populares Galegos”, dos Obradoiro.

Vários – “Solidariedade Junta Músicos De Jazz Portugueses – ‘Vivos E De Boa Saúde'” (jazz | portugueses | concerto))

cultura >> quarta-feira >> 21.04.1993
Solidariedade Junta Músicos De Jazz Portugueses
Vivos E De Boa Saúde

Cerca de três dezenas de músicos portugueses provaram na Aula Magna, em Lisboa, que o jazz é linguagem universal mas também sinónimo de diferença. Em concerto de solidariedade com os doentes mentais, no meio da qualidade das várias propostas musicais, o som acabou por ser o principal deficiente.



Sem quantidade não pode haver qualidade, disse António Curvelo, um dos apresentadores do Concerto Jazz de Solidariedade com os Doentes Mentais, a propósito dos cerca de trinta músicos de jazz portugueses que participaram na iniciativa. Sem um som e condições à altura é mais difícil, acrescentamos nós. Os milhares de pagantes que na noite de segunda-feira encheram por completo a Aula Magna da reitoria da Universidade de Lisboa não se resignaram com o incomodativo zumbido de fundo que acompanhou todo o concerto. “Problemas de terra”, desculpou-se a representante da AEIPS – Associação para o Estudo e Integração Psicossocial. De terra ou da lua, tanto faz, as prestações dos músicos saíram prejudicadas. Se bem que o concerto fosse de solidariedade com os doentes mentais não era necessário que o som fosse também deficiente. Ninguém se conformou. Os Idefix preparavam-se para atacar o primeiro tema da noite mas os gritos da audiência não deixavam – “Não comecem!”, “adiem o concerto!”, “Olha o ruído!”, “Não queremos barulho, queremos música!”. Pudera, a cinco mil escudos o bilhete tem-se o direito de querer tudo e mais alguma coisa. Só faltou o tradicional “Ó marreco, olha o sonoro!”.
Com ou sem ruído de fundo (avançou-se com) os Idefix deram início à função. Dois longos temas, “Random Walk” e “Time lines” não deram aso a grandes entusiasmos. Os Idefix têm para já um par de bons solistas, Sérgio Pelágio, na guitarra, e Paulo Curado, nos saxofones soprano e tenor, e um projecto de fusão que faz tangente com a “dowtown” de Nova Iorque e o jazz conceptual de grupos como Orthotonics, Doctor Nerve ou Uludag.
Maria Viana actuou a seguir. A intérprete do álbum acabado de editar “A Viana” mostrou que não chega armar a pose de cantora de jazz para se ser uma cantora de jazz. Claro que a provocante minissaia preta que trazia vestida ajudou um pouco. Mais que não seja para desviar as atenções. Sobrou-lhe em perna o que lhe faltou em voz. Um descalabro, com os “scats” de trazer por casa e os instrumentos de acompanhamento a tocar cada um para seu lado, numa salganhada sem alma nem sentido.
Fechou a primeira parte do espectáculo o Quarteto (na ocasião, terceto, dada a ausência do percussionista José Salgueiro) de Bernardo Sassetti, primeira banda a espalhar pela Aula Magna o sabor e o perfume do jazz de corpo inteiro. Sem grandes ousadias, é certo, mas com segurança e a assimilação correcta das formas tradicionais. De encher o coração e o ouvido, as conversas a dois mantidas entre o piano de Sassetti e o contrabaixo de Bernardo Moreira.
Depois do intervalo foi outra loiça. Luís Villas-Boas, o senhor jazz, fez a apresentação, muito “cool”, do gripo de Carlos Martins, sendo de imediato mimoseado com um carinhoso “morte ao Villas!” gritado da plateia, mantendo-se uma tradição que remonta aos Festivais de Jazz de Cascais. Carlos Martins e o seu quinteto decidiram, e bem, dispensar a amplificação assassina, optando por um “set” acústico. Surpreenderam a progressão da linguagem desenvolvida pelo grupo que encontrou no saxofone tenor do seu líder uma reserva inesgotável de força e de lirismo aos quais respondeu de forma categórica o trompete de Laurent Filipe, solista de grande categoria, na escola dos grandes Miles e Marsalis. Precioso o contraponto rítmico oferecidopelo contrabaixo de Carlos Barreto e a bateria de Manuel Barreiros. A surpresa veio do pianista João Paulo Silva, possuidor de um estilo rendilhado, pleno de contenção, sugestivo de cadências e caminhos a desenvolver pelos restantes músicos. Grande jazz.

Templários

Maior e mais alto ainda foi o templo erigido pela dupla Maria João / Mário Laginha. A cada encontro com a sua música, espanta a evolução sem fim, o aprofundamento do discurso, a coesão e entendimento perfeito entre ambos. São dois em um e um em dois. Caso rarao de simbiose de talentos e sensibilidades complementares que não param de crescer. Distingue-os a entrega e a atenção ao que flui de dentro. A compreensão de que a música, no grau mais elevado, é ascese.
Maria João manipula o espaço e as suas linhas de energia, com o gesto de uma tocadora de harpa. Separa-se de si própria e mira-se no reflexo. Alice do outro lado do espelho. Muda a cor da pele, no modo como encarna as vozes e os corpos brasileiros, africanos, astrais. Atravessa o rio, da margem do terror à margem da ternura. Maria João canta como se nadasse na música. Organismo vivo. Perpetuum Mobile.
Mário Laginha desempenha a função de construtor do templo em cujas colunas se anela o canto-hera. Diferentemente de Bernardo Sassetti e João Paulo, ambos excelenetes pianistas, que engendram narrativas aina regidas pelos cânones do romantismo, Laginha é pitagórico, pedreiro-livre e livre pensador de geometrias fractais. Serve-se do piano para esculpir o silêncio, para pesquisar os intervalos, as notas no interior das notas, big-bangs microscópicos, no centro da fragmentação. Dizia Nietzsche que o caminho mais curto entre duas montanhas faz-se de cume a cume.
Junto ao sopé, para que conste: Maria João e Mário Laginha deram vida aos temas “O vox omnis”, “Várias Danças”, “Saudosa Maloca” e “Um dia inteiro”, a incluir no próximo disco do duo, “Danças”.
Encerraram este concerto de solidariedade com os doentes mentais os dezassete instrumentistas da Orquestra do Hot Clube de Portugal, sob a direcção de Pedro Moreira. Com eles o jazz regressou a casa e ao conforto das origens. Sem quantidade não pode haver qualidade. Sem as raízes bem fixas no solo, a árvore não pode estender os seus ramos para o céu.

Whistlebinkies – “Anniversary”

pop rock >> quarta-feira >> 21.04.1993

WORLD


O GAITEIRO, O HARPISTA E O RABEQUISTA

WHISTLEBINKIES
Anniversary
CD Claddagh, distri. VGM



Em primeiro lugar duas correcções acompanhadas de desculpas: “Anniversary” comemora 15 anos de gravações dos Whistlebinkies para a editora Claddagh e não bodas de prata (25 anos) de carreira do grupo, como se escreveu na pequena nota da semana passada. Na mesma nota, referia-se que Rob Wallace toca “highland pipes” quando na verdade as “pipes” são da zona baixa, ou seja as “lowland flights”.
Reposta a verdade dos factos é a vez de entrar de coração afeito na música tradicional da Escócia e de uma das suas bandas que menos divulgação tem tido no nosso país. Dela conhecíamos, em formato vinílico, os brilhantes “Whistlebinkies 4” e “Whistlebinkies 5”, o primeiro adquirido em Portugal, o segundo encontrado quase por acaso numa loja de Berlim.
Por ocasião do Festival Intercéltico do Porto, Alan Reid, teclista dos Battlefield Band, fez a distinção entre as músicas tradicionais da Irlanda e da Escócia. Dizia ele que a da Irlanda é mais aérea, dada ao arabesco e à divagação, enquanto a da Escócia é mais dramática e afirmativa. Percebe-se a diferença, se compararmos o espírito de um “air” irlandês com a animosidade guerreira de uma gaita-de-foles escocesa acompanhada pela típica “side drum” militar.
Os Whistlebinkies, nome dado aos músicos que ofereciam a sua arte, a troco de pagamento (comida e bebida), nos casamentos ou em outras festas sociais, aliam o fogo à subtileza, na rendição que fazem à tríade dos instrumentos tradicionais da Escócia: as “pipes”, a harpa céltica (“clarsach”) e a rabeca, enfatizada na composição “The piper, the harper, the fiddler”. Recolhendo temas dos cinco volumes gravados para a Claddagh, com predomínio., precisamente, dos números 4 e 5, “Anniversary” apresenta uma diversidade de registos que vão do cinematógrafo “MacBeth”, (com um combate sonoro entre guinchos de bruxas e harpas de fadas) e do estilo, “à la Chieftains” de “Sir John Fenwick” à experiência medieval de “Ane ground”, passando pela sequência “Dominic McGowan”, “The fiddler’s farewell”, “The winter i tis past” e “The dogs among the bushes”, que põem em destaque, respectivamente, a concertina, a rabeca, a flauta e a gaita-de-foles, e pelo canto gaélico de Judith Peacock, em “Ailein duinn”.
Perdoem-me finalmente ter baixado um ponto em relação à classificação atribuída na semana passada, resultado de novas audições, com a nota mais consentânea com o valor relativo de um álbum a todos os títulos notável. (9)