Arquivo mensal: Novembro 2016

Fausto – “Atrás dos Tempos Vêm Tempos”

Pop Rock

11 de Dezembro de 1996
portugueses

Fausto
Atrás dos Tempos Vêm Tempos
2xCD, COLUMBIA, DISTRI. SONY MUSIC


fausto

Considerado um dos nomes de maior importância na música de raiz popular portuguesa, em que operou uma verdadeira revolução, na obra-prima “Por Este Rio Acima”, Fausto retomou recentemente a mesma temática dos Descobrimentos em “Crónicas da Terra Ardente”, sem, contudo, atingir o brilhantismo daquele. A Fausto terá faltado, então, a coragem, ou a vontade, de descobrir mais novos caminhos para a música portuguesa. Este seu novo trabalho – uma coletânea de temas compostos originalmente entre 1974 e 1994, em álbuns como “O Despertar dos Alquimistas”, “Por Este Rio Acima”, “A Preto e Branco” e “Para Além das Cordilheiras” – apresenta novos arranjos de todas as composições, além de três inéditos, “Um Outro Olhar Sobre Caxias”, “Eu Casei Com a Bonita” e “Os Mandamentos do Vinho”. As novas versões soam, na maior parte dos casos, mais descontraídas, aproximando-se ora da música de variedades, ora de uma serenidade capaz de permitir um outro ângulo de aproximação auditiva. Quanto aos inéditos, poderão, ou não, fornecer indicações acerca de eventuais reorientações estéticas do seu autor, antes da chegada da prometida terceira parte da trilogia sobre os Descobrimentos. Se “Um Outro Olhar Sobre Caxias” se inquieta com nostalgia sobre guitarras de fado, sem romper com o passado, já “Eu Casei com a Bonita” e “Os Mandamentos do Vinho” parecem indiciar uma nova e estimulante maneira de perspetivar a música tradicional. O primeiro destes temas é uma raga de guitarras e percussões onde se cruzam a rítmica tipicamente portuguesa e ambiências orientais, enquanto o segundo aprofunda ainda mais a vertente étnica, desde o registo vocal ao solo de sanfona de Fernando Meireles. Seria interessante verificar até que ponto Fausto estará disposto a romper com o lado mais urbano da sua música, precisamente aquele que mais tem sofrido o desgaste do uso e do tempo. Pois “Já é Tempo de Partir”, mensagem que fica a pairar no ar, no fecho desta viagem de ultrapassagem do tempo, através do clássico “Navegar Navegar”. (7)



Vidya Ensemble – “Stress/Relax”

11.12.1996

Vidya Ensemble
Stress/Relax
ED. FAROL


Vidya Ensemble – “Stress/Relax”

O minimalismo é factor de “stress”? A repetição provoca o acidente? A ruptura pode transformar-se em lei? Para Vítor Rua, a prática musical funciona mais como manual de interrogações do que como acta de trabalho. O guitarrista dos Telectu, como já acontecera no seu disco com os “ressoadores”, volta a defrontar-se com os limites da “perfomance” e da memória musical. Mas se, com os seus alunos, era o conceito de aleatoriedade e improvisação que funcionava como regra do jogo, em “Stress/Relax” é a exploração da noção de “ensemble” e a composição escrita que se questionam na forma de uma “música de intrenção” ou “daquilo que é a propósito de qualquer coisa”. O conceito é familiar, sugerindo as estratégias dde clonagem e o mimetismo propostos em fase recente dos Telectu. Significa isto que “Stress/Relax” deva ser ouvido com a municiação de um “a priori” musical impeditivo de toda e qualquer “inocência” do acto criativo? O conceito também não é novo e está no cerne de toda a atitude do pós-modernismo, assim se compreendendo, de resto, que Rua defina “Stress/Relax” como “propedêutica estética e caleidoscópica sobre o situacionismo musical pós-moderno, proposição de um novo msubjectivismo musical”. Ouvir um trecho musical será então, hoje, ouvir sempre um outro, essa tal “outra coisa” entretanto levado ao esgotamento pelo excesso das escolas e dos géneros musicais deste século. O “novo” passou a existir, deste modo, na forma subjectiva de reorganização de memórias e acumulações culturais da parte do ouvinte. Assim se compreende, ainda, a profusão e inutilidade das palavras que embalam este compacto. Do esgotamento de significados surgirá uma nova disponibilidade de audição? As faixas de “Stress/Relax” podem arrumar-se confortavelmente em géneros, do minimalismo reichiano do tema inicial, “Stress”, ao ambientalismo “enoiano” de “Tracet”. São o mesmo e o outro, da mesma maneira que, no conto de Borges, o “Quixote” de Pierre Ménard era igual e diferente do “Quixote” de Cervantes. Aprende-se, então, a reescutar o gesto primordial proposto por “Stress/Relax”, afinal contido no próprio título – um jogo de tensões onde a criatividade se joga na estruturação, pura e simples, do tempo e da multiplicidade dos seus tempos interiores. Era esse o sentido primordial do minimalismo. Uma faixa emblemática? Experimente-se ouvir “Cream Dream” para se perceber que o infinito dos sons nasce dentro da nossa cabeça. (8)



Lightning Seeds – “Dizzy Heights”

11.12.1996

Lightning Seeds
Dizzy Heights
EPIC, DISTR. SONY MUSIC


ls

A “Q” deste mês dá ao álbum cinco estrelas, nota máxima, comparando os Lightning Seeds aos Kinks. Mais, afirma que Ian Broudie, vocalista do grupo, “como muito poucos antes dele, descobriu o cálice sagrado da pop”. Sem querermos ser desmancha prazeres, não era preciso ofender Ray Davies. “Dizzy Heights” é, sem sombra de dúvida, uma agradável colecção de melodias pop, algumas delas, como “Imaginary Friends”, “Sugar Coated Iceberg” ou “Fingers And Thumbs” com aquele traço indefinível que, sem motivos aparentes, as torna em objectos de adesão emocional imediata. Isso não evita a sensação de um produto criado em laboratório, com a administração milimétrica de cada condimento, doseados de maneira a provocarem o tal fenómeno de simbiose auditiva. Exemplo desta estratégia é um tema como “What If”, uma mistura dos Beach Boys com Pet Shop Boys e The Divine Comedy. Recorrendo a sonoridades de “soul” sintética, à eletróncia em bombons “a la” Orchestral Manoeuvres In The Dark (“Like You Do”), ou uma elegância cuidadosamente encenada, que vai da “mod” dos anos 60 a pormenores de produção cozinhados no caldeirão dos anos 90, não admira que os Lightning Seeds provoquem recensões como as da “Q”, gente com entusiasmo mas de memória curta. (7)