Arquivo mensal: Novembro 2016

Radio Tarifa – “Temporal”

POP ROCK

20 de Novembro de 1996
world

No fuso do Sul

RADIO TARIFA
Temporal (10)
Ariola, import. Disco 3


rt

Pode acusar-se os Radio Tarifa de pilhagem, como corsários, ou de “traficantes” do tempo, mas nunca de sectarismo. Ao contrário da maior parte dos grupos de música de raiz tradicional espanhola, que regra geral agem sob a bandeira de um regionalismo ferrenho, na defesa de culturas tradicionais como as da Galiza, Astúrias ou Catalunha, os Radio Tarifa propõem uma nova unidade para um Sul abrangente e culturalmente miscigenado, com raízes no passado mais receptivo ao vírus da modernidade. “Rumba Argelina” (recentemente reeditado pela World Circuit com nova e mais atractiva embalagem) constituiu o cartão de visita deste grupo que, na altura da sua estreia editorial no nosso país, estabeleceu um contraste salutar com a “folk” oriunda da Galiza, que então exercia o seu domínio, quase imperialista, sendo a única, com selo espanhol, com dimensão e implantação no mercado nacional. “Temporal” já não tem, obviamente, o mesmo impacte que “Rumba Argelina”, mas, ainda com mais força do que este, fez-nos acreditar que, afinal, o termo “fusão” está longe do esgotamento, podendo levar a música de raiz tradicional para regiões virgens e excitantes. No caso dos Radio Tarifa, através de um método de trabalho que explora técnicas, vocais e instrumentais, que remontam desde a Idade Média ao “canto jondo” e às tradições cristã, árabe e sefardita – os três pilares da música e da cultura do Sul de Espanha –, passando pelo folclore galego e castelhano. Seja qual for o enquadramento, a regra número um dos Radio Tarifa impõe que cada fragmento mutante do seu híbrido tenha o sinal e corresponda a uma sensibilidade dos nossos dias. Prodigioso, neste aspecto, é o arranjo de “Canción sefardi”, uma solução alquímica de órgão Hammond, com o “nay” (flauta) e um “coral” de cromornas medievais que mete os Gryphon e os Amazing Blondel juntos num sapato. Sensual, inquietante e misterioso. Logo após “Baile de Almut”, inteiramente constituído por percussões, os apreciadores de flamenco têm “Las cuevas”, uma “Soléa” e “Tangos de la condición” para se deliciar, nas vozes ortodoxas de Benjamin Escoriza e Rafael Jiménez. “Conductus”, um tema francês, em cadência processional, do século XIII, está investido da beleza do boé de Poitou (parente da bombarda) e entusiasmará os amantes de música antiga, o mesmo acontecendo com “El mandil de Carolina”, onde o nobre sopro de Poitou dança com a sanfona, a darbuka, o “riq” e a voz arrebatada de Benjamin Escoriza sobre um compasso de baixo eléctrico que faz a síntese admirável do tradicional com o rock. “Temporal” regressa ao flamenco e à fogueira cigana, aplacando-se finalmente na Sanabria e numa cantiga medieval de Afonso X. Menos imediatista do que “Rumba Argelina”, “Temporal” garante aos Radio Tarifa, pelo menos em relação ao seu trabalho de estúdio (a sua apresentação ao vivo, em Algés, numa das edições dos “Encontros” não foi famosa…), a condição de Adeptos da Tradição Mediterrânica e entrada directa na lista de candidatos ao galardão de “melhor disco folk” de 1996.



Alain Pennec – “Alcoves”

Pop Rock

20 de Novembro de 1996
world

Alain Pennec
Alcoves
KELTIA, DISTRI. MC-MUNDO DA CANÇÃO


ap

Alain Pennec é um nome a juntar aos de John Kirkpatrick, Kepa Junkera, Riccardo Tesi, Mairtin O´Connor, Sharon Stone e Maria Kalaniemi, na lista dos melhores tocadores de acordeão e concertina da actualidade. A sua aprendizagem processou-se tanto enquanto solista, como integrado em grupos de “sonneurs” (tocadores de bombarda e “cornemuse”) ou nas “bagads”, de maior dimensão. À semelhança da quase totalidade dos nomes citados (a excepção é Kirkpatrick), o bretão socorre-se do virtuosismo, da multiplicidade de técnicas estilísticas e da opção por um reportório geograficamente diversificado, como forma de superar a pouca elasticidade tímbrica do instrumento. Em “Acolves”, além do acordeão diatónico, Pennec toca bombarda e ocarina, com acompanhamento da guitarra acústica de Soїg Siberil e o piano de Pierre Nicolas e Rachel Goodwin. Os 13 temas incluem “hanter-dros” e “An dros”, um tema inspirado numa viagem a Zagreb, uma “marche des lutteurs”, uma “Gavotte bigoudène”, um “pilé-menu” (forma de an-dro), um “jig” inspirado numa sequência harmónica de “blues”, “airs”, um “strathspey” seguido de “reel”, um “laridé” e uma adaptação do “Prélude, opus 18” de César Franck, além de originais compostos pelo próprio Pennec. Com arranjos invulgarmente imaginativos e imaculados ao nível da execução, sugerimos a quantos torcem o nariz só de ouvir falar em “acordeão” que comecem por ouvir “Bluejig”. Para perceber que o acordeão pode ter o “swing” no corpo. Ou por “Ardran ti me zod hanter dro an dro”. Para perceber que o acordeão pode ter sangue azul e a sensibilidade de um trovador. (9)



Chouteira – “Chouteira”

POP ROCK

13 de Novembro de 1996
world

Chouteira
Chouteira
DO FOL, IMPORT. DISCO 3


chou

Como acontece na Irlanda, na Escócia e na Bretanha – elos de um mesmo círculo -, existe na Galiza um circuito activo (editoras, salas, escolas, fabricantes de instrumentos, tudo o que falta em Portugal…) de música tradicional que permite o aparecimento constante de novos grupos e novas correntes, visando a sua permanente renovação. Os Chouteira são um grupo novo do Sul da Galiza, cujos propósitos não diferem substancialmente dos de inúmeros outros da mesma área, neste caso a “recompilação e execução de música tradicional e popular galega, misturando instrumentos que poucas vezes aparecem juntos”. Parece pouca coisa, mas a maneira como os Chouteira – um septeto com gaitas em três afinações, requinta, sanfona, acordeão e percussões, aumentado com a colaboração de convidados, no violino, violoncelo, contrabaixo, flauta e clarinete – recriam as diversas fontes utilizadas está ao nível do melhor que nos últimos anos tem sido feito na Galiza. Os três gaiteiros são de qualidade, mas o que, em definitivo, distingue o som desta nova formação do de grupos como os Luar na Lubre (se gostam deles vão adorar os Chouteira!) é a sua extraordinária cantora, de nome Uxia Pedreira (não confundir com a nossa bem conhecida Uxia…). Ouçam-na em “O azafram” ou “Canto de seitura” e depois digam que não avisei… (8)

Nota: O “pub” onde se desenrola a sessão final, ao vivo, “Dublin in Vigo”, do novo álbum dos Chieftains, fica em Vigo e não em Dublin, como se escreveu. “Dublin” é, sim, o nome do “pub”, daí a confusão…