Arquivo mensal: Janeiro 2015

Guerra Ao Vírus – Uma Gala De Artistas Portugueses Contra A Sida

Pop Rock

 

30 JANEIRO 1991

 

GUERRA AO VÍRUS Uma Gala de artistas portugueses contra a Sida

 

MARIA JOÃO

 

Cantora de jazz. Evoluiu do jazz tradicional para a improvisação e liberdade aprendidas com Bobby McFerrin. Trabalho mais no estrangeiro do que cá, onde quem devia apoiá-la, não apoia. Gravou com a pianista japonesa Aki Takasi um álbum que a crítica especializada internacional elegeu como dos melhores do ano. Em Outubro do ano passado reincidiu, em registo ao vivo, agora também acompanhada por Niels-Henning-Ørsted Pederson. Em Abril volta aos estúdios para gravar com uma banda portuguesa. Tenciona continuar a gravar por esse mundo fora. Um dia destes com Naná Vasconcelos ou um coro infantil. Quando canta, a expressão do rosto lembra a de Billie Holiday.

Maria João, como Billie, também canta com a alma. Aceitou o convite para participar na Gala por solidariedade e porque aproveita todas as ocasiões em que lhe pedem para cantar. No Coliseu, acompanham-na Carlos Bica e Bernardo Sassetti.

“Participo, primeiro por uma questão de solidariedade com as vítimas de uma doença que mata milhares de seres humanos, em todo o mundo. Depois, porque penso que este espectáculo vai ser importante para chamar a atenção das pessoas para esse facto, porque nós por cá somos muito distraídos em relação a essa doença. Pensamos que não nos atinge, que não é nada connosco. Precauções, nem pensar! Depois, porque gosto imenso de cantar, de maneiro que aproveito todas as oportunidades que surgem para o fazer, desde que haja uma sala boa, boas condições e boas pessoas a assistir.”

 

 

PAULO DE CARVALHO

 

Tem uma boa voz e uma certa propensão para o jazz, quando se concede certas liberdades vocais. Mas parece não querer arriscar, preferindo investir em terrenos mais seguros, capazes de lhe proporcionar êxitos populares como os “Meninos do Huambo”. Entrou em Festivais da Canção, mas já deve estar arrependido. Revelou-se surpreendentemente à vontade num disco inteiro a cantar fado.

“Tenho muito a ver com isto, embora não com esta organização, especificamente. Tinha planos para participar com outros amigos num outro espectáculo de solidariedade deste tipo que acabou por não se realizar. Em relação a este acabei por ser um bocado ultrapassado pelos acontecimentos. Não cheguei propriamente a ser convidado, mas sim a estar presente. Penso que desta vez não irei tocar ou cantar, mas apenas fazer apresentações. Se houver alguma participação, em termos de cantigas, certamente que será ao lado dos Trovante.”

 

 

AMÁLIA RODRIGUES

 

Com as quatro primeiras letras do seu nome se escreve a palavra alma. Alma portuguesa, perdida na eternidade do fado, da fatalidade tornada quase confortável. Amália é a voz da saudade que canta. Da nobreza e da tradição resistentes aos ventos gelados da modernidade. Voz correndo como um rio que nasce muito longe, cá dentro, desde antigamente.

Mulher vestida de negro com uma rosa rubra no coração. Lua que ilumina a noite lusitana. Viúva de Portugal. Ela diz ser apenas uma mulher normal. Quem somos nós para a contradizer.

“Fui convidada, mas não para cantar. Quero esclarecer isto, porque senão depois as pessoas pedem-me para o fazer… A primeira razão que me levou a participar nesta iniciativa é porque sou uma pessoa normal e por isso preocupo-me com as coisas horríveis que há no mundo. Acho que essa doença é uma doença horrível, feia, em muitos sentidos. Já fui cantar a Paris, convidada pela Line Renaud, numa gala que aí se realizou, também contra a sida, e agora volto a participar, não com prazer, pois não é por prazer que se participa numa causa destas, mas com muito boa vontade. Acho que as pessoas deviam realmente pensar nisto e comparecerem em massa também.”

 

 

HERMAN JOSÉ

 

O seu nome dispensa grandes apresentações. É o homem que em Portugal melhor sabe fazer rir. Alia a inteligência irónica e a sátira feroz a um apurado sentido do absurdo. Destrói e constrói os mecanismos e vícios dos nossos cérebros mal habituados.

Só o facto de gostar e, mais do que isso, compreender o sentido profundo do humor delirante dos Monty Python bastaria para fazermos dele um herói.

Na rádio é sempre brilhante. A televisão não sabe se há-de amá-lo ou odiá-lo. Tony Silva, Serafim Saudade, Estebes ou Maximiana é que são os portugueses reais. Os outros, os sérios, são caricaturas.

Sobre a Gala dos Artistas afirma que vai ter uma participação séria e discreta. Ou seja, não é para rir. O bom actor deve saber interpretar todos os papéis. Mesmo quando, como é o caso, não se trate de teatro.

“Os motivos que me levam a participar são por demais óbvios: porque é importantíssimo não adormecermos em relação a essa nova peste negra do nosso século. Dá-me a sensação que em Portugal vivemos todos num excessivo optimismo. Sinto isso pelas pessoas que me rodeiam. Sinto isso por uma certa contenção, pudor e medo com que muitas vezes os próprios órgãos de comunicação social se debruçam sobre o tema. É uma coisa que nos toca a todos de tão perto que é importante os artistas assumirem em Portugal o mesmo papel que têm assumido nos outros países – o de chamarem a tenção para um problema que está longe de ser resolvido e que nos pode afectar a todos. A minha participação no espectáculo, apenas como apresentador, vai ser discreta e portanto não vou (e se calhar porque também não me apetece) contar muitas anedotas nem ter muita piada, porque o tema não é propriamente aliciante, apesar de o espectáculo não pretender ser uma coisa triste, pesada e lamuriosa. Pelo contrário, é suposto ter optimismo, a começar pelo próprio cartaz, um desenho do Pomar que não é nem fatal nem fatídico, mas antes uma alusão ao próprio acto amoroso em si.”

 

 

RUI REININHO

 

Os rapazes dos GNR brincam com as palavras e com os sons. São homens temporariamente sós à procura da infância perdida. Tocam uma música colorida de palavras cruzadas, que fazem sentido doutra maneira. Parecem estar sempre a brincar, mas há quem os leve muito a sério e lhes condene as brincadeiras. A televisão, por exemplo, não deixou passar o vídeo da Maria, embora eles jurem a pés juntos tratar-se apenas de uma amiga. Alguns julgaram ver em “Dunas” alusões a práticas menos inocentes. Enfim, mesmo sem querer, os GNR esbarram constantemente nos temas proibidos. Ultimamente estão mais calmos (embora um antigo companheiro de armas esteja sempre a arranjar-lhes problemas) e Rui Reininho parece mesmo querer rivalizar com Bryan Ferry no papel de “crooner” cínico e bem falante. São dos melhores grupos de novo rock portugueses. Declaram que não se sentem responsabilizados pela existência do vírus.

“Porque é que a gente entra numa coisa dessas? Porque sei que nos dão mais atenção do que àquelas caras do costume, os políticos, etc… Não é que nos sintamos responsabilizados pela existência do vírus, mas se conseguirmos impedir que ele se propague… Há muita hipocrisia e mais uma vez, no caso das medidas ‘portugas’, acho que houve muitos erros, culpados pela propagação dessas histórias. Não há informação. O português acha que essas coisas acontecem sempre aos outros… por exemplo, nas farmácias, aqui há uns anos recusavam vender seringas e, ainda na semana passada, falávamos de um amigo meu que fazia quilómetros por noite, nomeadamente aqui no Porto, para as arranjar. As pessoas tinham atitudes morais desse género. Inibiam-se as pessoas na compra de preservativos, essa história toda… Acho que, nesse aspecto, podemos ‘dar um toque’, podemos falar nisso mais à vontade do que a dra. Maria Barroso, por exemplo, sem moralizar, como dizia o outro. Torna-se doloroso ver pessoas morrer por estupidez… É um pouco como aquela história de as vitaminas não serem comparticipadas… Toda a gente fala em prevenção, mas prevenção é coisa que não há, a única que há é a rodoviária e mesmo assim as pessoas morrem como tordos… A partir de aí é fácil ver o que acontece nas outras áreas… Vamos tocar talvez três canções, numa participação de dez ou quinze minutos. Uma delas será forçosamente ‘Morte ao Sol’.”

 

 

SÉRGIO GODINHO

 

Escritor de canções. Sobrevivente das histórias do nosso (des)contentamento. Vem de muitas lutas e algumas amizades construídas no caminho. Zeca Afonso, Brel, tropicalismo ou o rock anglo-saxónico são algumas das referências presentes na sua obra, mas que não chegam para a catalogar. Ainda bem. Não gostamos que chamem nomes a uma música que nos habituámos a fazer nossa.

Sérgio Godinho é dos que em Portugal melhor sabem contar e cantar uma vida e os seus sonhos, nos três minutos que dura uma canção. Minutos que são a própria vida. Quanto tempo dura a vida? O resto da nossa vida?

Recentemente esteve durante muitos dias, todos os dias, num auditório pequeno, para melhor nos contar as suas histórias, despojadas de tudo o que nos pudesse distrair. Depois gravou o disco. Escreve canções. Na Gala dos Artistas vai estar sozinho em palco, com a sua voz e uma guitarra acústica.

“Participo porque é um assunto importante que mexe mesmo connosco. Pediram-me que inventasse uma frase alusiva ao tema. Escolhi esta: ‘viver é a grande vingança do corpo’. O corpo vinga-se contra tudo o que lhe querem fazer sofrer. No espectáculo vou cantar duas canções, ainda não decidi quais, acompanhada só pela guitarra. Possivelmente tocarei ainda mais uma, integrado nos Trovante.”

 

 

LENA D’ÁGUA

 

Tem uma maneira engraçada de cantar e de se movimentar em palco. As pernas são bonitas, a cara também, as canções não ofendem. O pai foi um futebolista famoso. O irmão é um futebolista famoso. Ela é só famosa. Começou por ser “hippie”, nos tempos psicadélicos dos Beatnicks. Inesquecível um concerto, há muitos anos, em Sintra. Nos Salada de Frutas pediu para se olhar o “robot”. Muita gente olhou. Foi ficando cada vez mais doce e hoje, “sempre que o amor a quiser”, está pronta a acariciar com a voz. Voz que, em algumas canções (nunca ninguém reparou?) lembra a de uma rapariga inglesa chamada Sonja Kristina, vocalista de uns tais Curved Air.

As canções de Lena d’Água são tal qual o líquido vital: não ardem como bebidas fortes, mas refrescam e matam a sede.

“Aceitei o convite para participar como teria aceitado se se tratasse de uma gala para angariar fundos para as crianças deficientes mentais, para os estropiados da guerra, ou para quem quer que precisasse de ajuda e a pedisse. Da minha parte, sou sempre solidária.

Na minha actuação vou cantar, acompanhada pelo Pedro Osório, ao piano, ‘Não é Fácil o Amor’, do Janita Salomé. Quanto à outra canção ainda não ficou decidido qual será, talvez ‘Chanson Triste’, de um compositor do princípio do século.”



Fleetwood Mac – “Behind The Mask”

Pop

FLEETWOOD MAC
Behind the Mask

LP e CD Warner Bros., import. WEA

fleetwwodmac

Mick Fleetwood e Christine McVie, sobreviventes da formação inicial, têm, entre vários defeitos, uma grande virtude: a persistência. 23 anos consecutivos nesta vida não são brinquedo. De 67 até hoje, muita coisa mudou. Dos rhythm’n’blues dos primórdios nada resta. A partir do álbum “Fleetwood Mac”, de 75, primeiro de uma longa série de discos de platina, a banda encontrou a fórmula definitiva do sucesso. Vendas maciças e estatuto de meninos queridos das FM americanas são os sinais inconfundíveis do êxito da estratégia então aplicada, sendo a adopção da loirinha Stevie Nicks apenas mais uma operação de cosmética destinada à venda do produto. “Behind The Mask” não adianta nem atrasa em relação a discos anteriores. Canções bonitinhas condimentadas por produções sempre em cima da jogada e as vozes da dupla feminina Mc Vie/Nicks chegam de momento para manter a máquina a funcionar. Canções que se ouvem e se esquecem de seguida como açúcar dissolvido em café quente. Do esquecimento geral escapam a original introdução, em tintas electrónicas, de “In the Back of My Mind” e a interpretação de Christine McVie no tema que dá título ao álbum. As gerações passam, mas os Fleetwood Mac não arredam pé. Para incómodo de muitos e deleite, se calhar, de muitos mais.

QUARTA-FEIRA, 25 ABRIL 1990 PÚBLICO VIDEODISCOS

aqui (parte 1) (parte 2)



Kraftwerk – O Admirável Mundo Novo

BLITZ

3.4.90

KRAFTWERK

«I Sing the Body Electric»
Ray Bradbury

Bip Bip Bip. Boing Boom Tschak. A beleza da música dos alemães Kraftwerk é a beleza da electricidade em estado puro. A harmonia da informação circulando livremente através dos chips de circuitos integrados. O classicismo digitalizado. A herança elegante de uma Europa crepuscular rendida à imagem requintada da despersonalização e da indiferença. Ralf Hutter, Florian Schneider, Wolfgang Flur e Klaus Roeder são as quatro máscaras humanas para um rosto que deixou de o ser. Manequins de gesto suspenso sobre a imobilidade gelada do Tempo aprisionado. Save. Enter. Return.

O ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

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É costume considerar os Kraftwerk como os precursores de quase todas as principais inovações relativas às técnicas de estúdio. O «Disco Sound» ou o «Rap» proclamam-se devedores das manipulações sonoras levadas a cabo pelos quatro homens de Dusseldorf. Estes não confirmam nem desmentem, limitando-se a gravar discos, sem fazer grandes ondas e alargando com cada um deles as fronteiras do que se convencionou na generalidade designar por «música electrónica».
Hutter e Schneider, os fundadores da banda, encontraram-se em 1970 no Conservatório de Música de Dusseldorf, uma das cidades mais industrializadas da Alemanha, e formaram os Organisation. Sob esta designação foi editado o álbum «Tone Float», gravado e produzido por Conny Plank numa refinaria de petróleo da cidade. No mesmo ano nascem os Kraftwerk que gravam no ano seguinte o álbum estreia «High Rail», com o selo Philips. No ano seguinte a Vertigo reúne estes dois discos num duplo intitulado simplesmente «Kraftwerk», infelizmente há já alguns anos fora do mercado. Na sua fase inicial a música do grupo conciliava as explosões de metal, o minimalismo e a música concreta com um lirismo exacerbado tão caro ao Romantismo alemão. Grupos como os Einstuerzende Neubauten, Test Dept., ou os primeiros SPK deverto que ouviram e aprenderam muito com este disco seminal.
O álbum seguinte, «Ralf and Florian», de 83, prossegue a mesma via, com temas fabulosos como «Eletrisches Roulette», à beira da esquizofrenia, a dança metálica de «Tanzmusik» e os catorze minutos planantes, cristalinos e tropicais de «Ananas Symphonie».
Em 74 os Kraftwerk passam a quarteto, com a inclusão de Klaus Roeder e Wolfgang Flur, respectivamente no violino e guitarra e nas percussões electrónicas. É com esta formação que gravam, no mesmo ano, a obra-prima «Autobahn», um dos melhores discos de sempre de música electrónica. O primeiro lado é ocupado na totalidade pela faixa do mesmo nome, uma «trip» psicadélica-automobilística, só ao alcance das auto-estradas e das cabeças teutónicas. Sem despistes e com as mudanças engatadas sempre na altura exacta. Nunca os sintetizadores, «Vocoders« e «sequencers» tinham andado a tanta velocidade. O Futuro tinha começado. Do outro lado do disco o fogo-de-artifício sonoro em duas deslumbrantes versões de «Kometenmelodie». Surpreendentemente as rádios americanas e inglesa tocam uma versão mais curta de «Autobahn». O single e o álbum alcançam todos os Tops abrindo caminho para a vaga do «Eurodisco», com Giorgio Moroder à frente. «I Feel Love» é a voz de Donna Summer aobre um plágio grotestco dos ritmos robóticos dos alemães. Curiosamente este tema tem sido «samplado» pelas novas bandas até à exaustão. O Tempo é cada vez mais uma ilusão.
Em Outubro de 75 Karl Bartos (percussão electrónica) substitui Roeder, ficando assim constituída a formação que até à data se mantém inalterável. No mesmo mês os Kraftwerk abandonam a Philips/Vertigo e formam a sua própria editora a Kling Klang, distribuída pela EMI. Ainda em 75 é publicado o LP «Rádio Aktivitaet», versão original alemã de «Radio Activity» que sai em Inglaterra no ano seguinte. «Radio Activity» é o álbum mais fraco da banda, versão turístico-infantil da estética futurista. A simplicidade de meios, propositada ou não, e letras pueris à beira do imbecil tornam a audição do disco apenas divertida. Destaque mesmo assim para o título-tema «Radio Activity» e «Airwaves», dançáveis e irremediavelmente coláveis aos ouvidos.
1977 é o ano de «Trans Europe Express», dos manequins-réplicas em palco e do retorno à boa forma. «Trans Europe Express», «Metal on Metal» ou «Franz Schubert», metálicos, gelados e repetitivos são paradigmáticos e proféticos da «Cold Wave» que se avizinhava. Mais uma vez os Kraftwerk ditavam as leis, escrupulosamente seguidas pelas gerações futuras.
«The Man Machine» aparece no ano seguinte levando ás últimas consequências todas as anteriores premissas estéticas e ideológicas do grupo. O factor humano cede definitivamente ao factor máquina. O álbum abre com «The Robots» e fecha com «The Man Machine». «Spacelab», «Metropolis», e «Neon Lights» são imagens de um filme fantasmático sobre cidades percorridas por sonâmbulos, ecos de «slogans» cibernéticos e neons deslumbrantes. O filme pára. A realidade é eléctrica. A luz torna-se branca. E fria.
«Computer World», de 81, é mais humano ou talvez não consoante a perspectiva. Em «Pocket Calculator» os Kraftwerk utilizam o som de uma calculadora electrónica de bolso. «Numbers» é a Torre de Babel do Novo Mundo reduzido a acções de compra e venda, números e mais números soletrados em diversas línguas sobre um ritmo implacável de máquinas em sintonia. A realidade é matemática, rigorosa, previsível e programável. «Computer Love», bits em forma de coração, «I-L-O-V-E-Y-O-U» repete a voz sintetizada enquanto a mensagem vai piscando no monitor. «Home Computer», «It’s More Fun to Compute» e as máquinas continuam a dançar.
«Tour de France», como o nome indica, é dedicado à célebre prova velocipédica e aparece no filme «Breakdance» (!).
Finalmente, em 86, a EMI edita «Electric Cafe». Os Kraftwerk atingem com este disco o ponto de plenitude em que a superficialidade e o desprendimento se confundem com o sublime. O humor surge radioso no fim e do alto da tragédia há sempre um sorriso irónico e distante. «Techno Pop» é o estado actual da música Pop massificada, reduzida a sons empacotados e prontos a vender em supermercados. «The Telephone Call», a conversa telefónica unilateral com uma gravação que insiste em dizer que aquele número foi definitivamente desligado. «Sex Object», de novo os bonecos-fétiche de carne e osso. Palavras vazias, repetidas, destroçadas. Séc. XX ou XXI, já nada faz sentido ou tudo faz simultaneamente todos os sentidos. Todas as coisas, todos os sons, Electricidade, «Electric Cafe», sintético, sonoro, nuclear, infinito, finito, circular, sintético, sonoro, «Musique Non Stop» – «Techno Pop».

The Mix, aqui