Arquivo mensal: Janeiro 2015

Resistências: José Mário Branco – “Correspondências” + Janita Salomé – “Cantar À Lua”

Pop Rock

6 MARÇO 1991
LP’S

RESISTÊNCIAS

JOSÉ MÁRIO BRANCO
Correspondências
LP, MC e CD, UPAV

jmb

JANITA SALOMÉ
Cantar à Lua
LP / MC / CD, Edisom

janita10

Multiplicam-se as edições discográficas nacionais de obras não directamente relacionadas com o rock. Cantores/compositores como Sérgio Godinho e José Mário Branco voltam a ser referidos de igual para igual com os músicos rock. A música tradicional ganha novo fôlego (Vai de Roda, Cantares do Manhouce). Como se de repente se alargassem as fronteiras do mundo. Ou as vistas se tornassem menos curtas. Mais interessante ainda: os discos vendem-se.
Foi preciso esperar quase dois anos até “Correspondências” estar finalmente disponível nos escaparates. As multinacionais ignoraram sistematicamente o projecto. Não acreditaram num músico, José Mário Branco, de créditos firmados e justamente reputado com um dos grandes compositores e arranjadores da moderna música popular portuguesa. O disco saiu agora com o selo UPAV, cooperativa cultural de que o próprio é fundador e membro activo.
“Correspondências”, gravado em 1989 no Angel Studio, assinala uma mudança significativa no percurso do autor e particularmente em relação ao seu anterior trabalho, “A Noite”. Para trás ficou o tom épico-dramático do longo tema que dava nome a esse disco ou a raiva e lucidez do manifesto “FMI”. José Mário Branco pôs a correspondência em dia, através de dez canções dirigidas a outros tantos destinatários: Daniel Filipe, José Afonso, Hannah Arendt, Chico Buarque, Anton Tchekov, a si próprio e aos netos, ao misterioso J.C. e ao prosaico sr. Silva. Palavras certas. Palavras cortantes. Populares umas, outras distantes. Entre a fábula acerca da mediocridade que é “Diminuendos”, contando a história do leão que aos poucos se transformou em formiga e a distanciação apaixonada de “Emigrantes da quarta dimensão”.
A voz – a mesma de sempre – mais madura, pausada, sem a rouquidão demencial de “A Noite”. Continua mestre na arte dos arranjos, na maneira de tornar mais bela uma canção. Excelente e conciso todo o trabalho efectuado no computador (“Dairinhas”, “Diminuendos”, “Shalom Palestina”, “Cada dia são cem”). Tudo encaixa sem esforço no lugar certo – a introdução pianística de Mário Laginha em “Emigrantes da quarta dimensão”, os coros elegíacos de “Zeca”, o evocativo solo de sax de Paulo Curado em “Sentido único”, os diálogos violoncelo/flauta (tocados respectivamente por Irene Lima e Ricardo Ramalho) em “1900” e das guitarras em “Quando eu for grande” (por José Peixoto e Júlio Pereira). José Mário Branco permanece ao lado das modas e à frente na luta contra o derrotismo e a contemporização. Recados por carta a quem os souber ler.
“Cantar à Lua”, de Janita Salomé, não pretende ser mais do que aparenta: álbum de fados (como já havia sido o anterior, “Melro”) e alguns temas tradicionais, acompanhados à (apenas) guitarra, (António Brojo e António Portugal) a que falta o intimismo contido da saudade e da escuridão das vielas, substituídos pelas grandes extensões queimadas e solares ou a placidez das noites enluaradas do planalto alentejano, presentes na voz e no canto pujantes de Janita. Disco afastado do gosto das massas. Disco contido e sentido nos propósitos, sincero no modo com os traduz. Faz apetecer o verão. Desejos à luz branca e crua, quando o mundo cala e a alma se liberta, nua, para lá dos montes e da Lua.



Natália Correia – Alma Do Mundo

Pop Rock

 

20 FEVEREIRO 1991

 

ALMA DO MUNDO

Natália Correia

vozes

“Vozes da Terra”. Vozes femininas, do grupo de cantares do Manhouce, equivalentes às daquelas misteriosas búlgaras que “falam com Deus”. A editora procurou a semelhança, na mistura das imagens, na apropriação mercantil do que é por natureza divino. Como se a eternidade estivesse na moda.

Natália Correia escreveu o texto de apresentação do disco, impresso na contracapa, ponto de partida para uma conversa ao sabor dos ventos e das marés. Das Beiras, os símbolos correram até desaguarem no infinito. De Portugal se partiu e parte sempre para mundos mais além. A alma prateada e granítica da Serra confundida com a matéria mais antiga do mundo primordial. Seriam duas, se a distância existisse.

Natália Correia detém segredos e deles fala e escreve livremente, como uma pomba astral, voando entre a noite e o dia, a Lua e o Sol, dizendo aquilo que É e urge ser dito. Noutras esferas chamar-lhe-iam sacerdotisa. As palavras fluíram, reais, esculpidas em som e luz. Quiseram-se caminhos para as fontes e barcas para navegar o mar. E assim foi.

Hoje discute-se, com redobrada energia, a religião (e o ritual), no sentido original de “re-ligação”: “Há muito que falo na revitalização do espaço sagrado. O sentimento religioso tem que ser conduzido numa direcção que abranja o reencontro daquilo que já foi a totalidade, ou seja: a fusão das duas polaridades, masculino/feminino, Fogo/Água, Yang/Yin.” Falou-se de alquimia.

Falou-se de música e das forças que a conduzem: “Por detrás de toda a expressão artística, há esse fluir de energias, dirigidas para a procura da beleza que exprime a perfeição.” Energia que magos negros utilizam, invertendo valores e polaridades. “Para muitos será um álibi para adiar o encontro com a Verdade. Para outros é um agir inconsciente expresso no tópico ‘o mundo ás avessas’, ou seja, na inversão dos valores para procurar a sua verdadeira colocação numa ordem perdida ou, se quisermos, esquecida.” Sinais do Apocalipse? “Vivemos tempos de iluminação, tempos de revelação (é esse o significado da palavra) e, precisamente nessa perspectiva, há aqueles que se aliam aos demónios que estão à solta e os que procuram a Luz que jorra da outra face.”

Raymond Abellio, autor incontornável dos tempos actuais (quem o conhece, apesar de já nos ter visitado, nos finais da década de 70, pela mão, força e esclarecimento do pintor Lima de Freitas e da própria Natália Correia?), refere-se ao papel de Lúcifer no mundo moderno. “Não falo em Lúcifer porque isso me coloca numa visão institucionalizada da religião. Prefiro remontar ou recuar aos gnósticos, cuja posição, em muitos aspectos, é para mim cada vez mais significativa, no sentido de denunciarem na humanidade uma extracção daquilo a que eles chamam os ‘pseudo-antropos’. Há uma história que ajuda a compreender o significado do termo, de um frade franciscano para quem o Juízo Final não era mais do que um grande esclarecimento, porque nele se distinguiriam os verdadeiros humanos daqueles que passavam por humanos, sendo na realidade sapos, lagartos, escorpiões… Verifico que estamos precisamente num período histórico em que uma guerra despudoradamente demencial vem dar razão ao meu velho amigo franciscano. O pseudo-antropo é um ser mascarado de humano. A sua energia é tão poderosamente maléfica que governa os destinos do mundo. A música é um dos instrumentos destes magos negros. Não só a música. A nocividade da sua acção estão a atingir a cultura em geral que, não por acaso, se deixa absorver pela máquina da indústria.”

O diabo aparece amiúde com a forma de mulher. Para a autora de “Mátria”, “O Dilúvio e a Pomba” e “O Encoberto”, entre outras obras, tal facto, como (quase) tudo, tem uma explicação: “Onde alguns lêem Eva, outros lêem Lilith, para acentuarem o demoníaco no feminino, dentro de um enquadramento da atracção que leva Adão a comer o fruto proibido e consequentemente à expulsão do casal do Paraíso. É preciso não esquecer que no Antigo Testamento se cruzam duas influências: uma que acata o velho princípio da bissexualidade do hermafroditismo divino, expresso na sentença ‘e Deus criou Adão, fazendo-o macho e fêmea, à sua semelhança’; outra, aquela que poderemos classificar de reformismo patriarcal, que concentra todo o odioso sobre a mulher, convertendo-a num ser demoníaco (Lilith). Cabe aqui acentuar que a serpente, sendo na metáfora genesíaca considerada um animal diabólico, segundo as concepções da tal revolução patriarcal que lança o estigma sobre o grande emblema da ginecocracia, é, neste caso (testemunha-o ainda a nossa civilização dolménica), sinal de uma tradição em que, ao lado da polaridade masculina, avultava o aspecto feminino da divindade.”

Ser e conhecer. Como se manifestam então, ao nível gnoseológico, essas duas polaridades complementares, cuja atracção recíproca, amorosa, Natália Correia nomeia na conjunção da “Alma mater saudosa do pólo celeste como que consumava o todo (…) nas núpcias do céu e da Terra”? “A intuição é um elemento do sófico feminino (a ‘sofia’, como os gnósticos diziam e sabiam). A penetração, a demanda masculina, é o caminho para o sófico. Por isso a mentalidade masculina é mais filosófica. Ninguém percebeu isso melhor que os nossos trovadores. ‘Philo’ significa afecto, amor. O amor pela mulher (ou através dela), na qual viam reflectida a face divina. O sófico feminino revela-se no saber natural da alma mãe.”

A poetisa afirma-se “decepcionada” quando algumas das mulheres que conhece e considera “de grande responsabilidade intelectual” vêem na adoração da dama (a mulher) de que falavam os surrealistas, “uma forma de a aprisionar e manter acorrentada a uma situação tradicional”. “Fazer-se amar e venerar pelo homem”, afirma convictamente Natália Correia, “é hoje a obrigação mais imperiosa da mulher”. Que cada um perceba do que lê aquilo que for capaz de perceber.

Lentamente o mundo material reconstruiu-se de novo, na voz e na figura de Isabel Silvestre, solista do grupo de cantares do Manhouce. Música representativa da tal “teologia do feminino provectamente anterior à religião patriarcal dos hebreus”, a que Natália Correia alude, de que “em Espanha, o vascuense é testemunho linguístico e que em Portugal, se mantém perseverantemente enraizada sobretudo na Beiras”. Por isso as vozes da Terra, e em particular a de Isabel Silvestre, lhe provocam, quando ao ouve, “um frémito maior do que aquele causado pela música erudita”: “Quando se ergue o coral de Manhouce, ouço a voz dessa Mulher que nos chega do fundo dos séculos que formaram a nossa natureza cultural.” Assim se cumpriu o tempo certo, desdobrado nas curvas espiraladas do destino.


Depois a Crise, A Estabilidade

Pop Rock

6 FEVEREIRO 1991

DEPOIS DA CRISE, A ESTABILIDADE

Os retalhistas passaram um susto valente, quando as lojas quase se esvaziaram nos primeiros dias de guerra. Agora estão a aprender a gestão dos hábitos de guerra.

Mísseis Scud e Patriot lutam nos céus em versão “hardcore” da Guerra das Estrelas, com sangue e tudo, embora a televisão não mostre. Parece mais um jogo de xadrez. Ora acusa Bush, ora ameaça Saddam. Avança lá tu com um tanque que eu mando um avião. A princípio parecia apaixonante: uma guerra a sério, logo a seguir à telenovela. Bom pretexto para reunir a família, confraternizar, beber uns copos e mandar umas bocas “àquele bandido do Saddam”. Quando o Iraque resolveu lançar uns Scud sobre Israel foi o fim. Adivinhavam-se sangrentas retaliações, bombas atómicas em barda, o Apocalipse em directo, via CNN e Nuno Rogeiro. Tranquilizados pelo papá governante, com a garantia de que não “entraríamos”, mesmo que a Turquia fosse atacada, estavam reunidas todas as condições para um bom espectáculo.

Discos e latas de atum

Entretanto, Israel não retaliou, Saddam esconde-se num “bunker” impenetrável, os americanos vão gastando bombas a destruir maquetas e o campeonato de futebol vai prosseguindo com algumas surpresas. Entre o frémito inicial prenunciador de grandiosas catástrofes e o faz-que-ataca-mas-não-ataca actual, era inevitável que algo se alterasse nos hábitos consumidores dos portugueses. Por exemplo, nos discos. Falámos com os gerentes de três discotecas lisboetas para verificar até que ponto as pessoas sempre se teriam trancado em casa e comprado toneladas de margarina e latas de atum, em vez dos dispensáveis e supérfluos CD. Envergámos a nossa máscara e saímos para averiguar.
Começámos pela Roma. Assegurou-nos o gerente Simões Nunes que, enquanto não rebentou a guerra, não notou “qualquer diferença em termos de vendas”, quando comparadas comas do mesmo período do ano passado (primeira quinzena de Janeiro, data de início das hostilidades). É que “no princípio deste mês, a juventude ainda tem algum dinheiro para gastar, das prendas de Natal”. Depois é que foram elas, “com o início da guerra, houve sobretudo uma semana em que se notou um abaixamento acentuado, tanto no rock como nos outros géneros, o jazz ou a clássica”. Na discoteca Roma, este fenómeno tornou-se notado, sobretudo na sua filial de Cascais, “talvez porque as pessoas que aí vivem, por terem outro nível de vida, possuindo em casa antenas parabólicas, percam mais tempo junto da televisão e, portanto, seja menor a disponibilidade para ouvir música”. Mas agora tudo voltou a entrar nos eixos, como de resto parece ter acontecido nas restantes lojas que visitámos.

Fartos da televisão

Assim, também na Valentim de Carvalho das Amoreiras, coincidindo com o início do conflito, se notou uma quebra no nível de vendas. Segundo nos explicou Ana Luísa, gerente comercial, “as pessoas ficavam em casa agarradas à televisão, a querer saber o que se passava. O Centro andava deserto. Todas as lojas se ressentiram”. Nada de grave, porém, pois “recentemente a situação tem vindo a modificar-se. As pessoas vão ficando um bocado fartas de estar em frente à televisão, sobretudo as mais novas, talvez porque tenham uma tendência para se desligarem mais das coisas e sejam capazes de levar qualquer coisa. No início da crise compraram menos discos mas agora já reentraram no ritmo normal”.
João Guimarães, gerente das discotecas Hippodrome, afina pelo mesmo diapasão: “No dia imediatamente a seguir ao começo da guerra, as compras baixaram mesmo muito, bem como nos dias seguintes. Depois, à medida que o tempo ia passando, a situação começou a normalizar, até esta altura, em que é perfeitamente normal para a época do ano.” Curiosamente, ou talvez não (relembremos a actual vaga pacifista), na Hippodrome, a música dos anos 60 é que mais se tem vendido. Mas, se calhar, o fenómeno não tem nada a ver com a guerra, já que “normalmente, no princípio do ano, saem poucas novidades e as pessoas, quando querem gastar o seu dinheiro, recorrem normalmente ao fundo de catálogo”.
Com a guerra ou sem ela, o que é um facto é que os CD continuam a derrotar os seus adversários de vinilo. Numa das lojas geridas por João Guimarães, já se vendem 50 por cento mais compactos que discos convencionais. Mas que a guerra vai ser longa, ninguém duvide – “até Portugal deixar de comprar LP ainda devem faltar alguns dez ou quinze anos”.