cultura >> segunda-feira, 06.11.1995
Pascal Comelade Hipnotiza O S. Luiz Com Música “Infantil”
O Que É Que Eles Fizeram À Minha Canção, Mãe’
Para Pascal Comelade a música não está nas notas mas guardada na nossa memória, pronta a ser desenterrada na nossa memória, pronta a ser desenterrada, como um tesouro escondido. Na sua primeira passagem por Lisboa, o francês mandou o compasso para o lixo e a afinação às urtigas. Num passe de magia, no matraquear baixinho das teclas de um piano de brinquedo, velhas canções desceram suavemente, nuas, como neve, sobre uma plateia de crianças crescidas.

Por quatro vezes o público exigiu, no final, a presença no palco do S. Luiz, de Pascal Comelade e da sua Bel Canto Orchestra. O que justifica tamanho entusiasmo e receptividade a uma música onde as notas se atropelam, a desafinação é uma constante e nem sequer existe uma componente espectacular? A resposta só pode estar, não no que os ouvidos escutam, mas no que o coração abraça e a imaginação fabrica. A música de Comelade, o modo como desarticula os “standards” de várias épocas e estilos, vive do seu poder de sugestão, da sua faculdade de evocar recordações difusas, ressuscitando pedaços esquecidos da música popular mas também da nossa própria existência. Comelade trata a música da mesma maneira que uma criança desmonta metodicamente os seus brinquedos com um martelo. Destrói para ver como cada canção é por dentro, sem se importar depois em voltar a montá-la da maneira certa. Em seu lugar coloca na prateleira maquinismos frágeis, caixas de música partidas, de onde pingam estilhaços de som do que sobrou da forma antiga.
O aspecto lúdico sobrepõe-se a qualquer veleidade de ordem intelectual ou de rigor de execução. Pascal Comelade é um executante limitado, bem como os seus três companheiros da Bel Canto Orchestra. Se quiséssemos analisar o concerto por uma perspectiva técnica teríamos que o definir como medíocre. E, no entanto, isso não impediu que o fascínio funcionasse. Quando, a abrir e a fechar o espectáculo, um coelhinho branco de brinquedo – dos que duram uma vida inteira a tocar com pilhas Duracel – marcou no seu minúsculo tambor o ritmo de “Egypcian reggae” (um tema de Jonathan Richman), as pessoas sorriram, embevecidas, entrando de imediato no jogo de toca e foge.
Os tais pianos de brinquedo, (o piano a sério era apenas outro brinquedo, grande), os apitos, o reco-reco, a pandeireta a fazer de bateria, os sopros “de verdade” com sonoridades de plástico ou em trôpegas surdinas, não foram mais do que as tais ferramentas de desmontagem metódica com que as crianças esquartejaram os objectos da sua curiosidade. Do lado de cá ofereceu-se ainda o jogo de adivinhas com o nome das canções: “The sad skinhead”, dos Faust, “Sunny afternoon”, dos Kinks, “Like a rolling stone”, de Dylan, iríamos jurar que “Alifie”, de Robert Wyatt, até um alinhavado de “Grândola”, de José Afonso, lado a lado com um “Bolero callajero”, “4 roses pour Marie” ou um “Tango del rossello”. Em todas elas sempre o mesmo perfume a violetas mortas, a mansões abandonadas, a retratos de rostos que atormentam, a charutos mal queimados. Momentos fugazes de felicidade que, de tão intensos, fazem dor. A caixa-de-música de Pascal Comelade tem esse efeito poderoso de nos fazer recordar mesmo de coisas que nunca chegámos a viver de facto mas que, apesar de tudo, somos capazes de sentir. Num “bistrot” de Paris, numa tasca de Acapulco, num hotel de Veneza, numa fantasmagoria de ópio pintada numa lanterna de Xangai. “What have they done to my song, ma?” (“o que é que eles fizeram –á minha canção, mãe?”), cantava Melanie Safka já lá vão vinte e seis anos. O que é que este pianista com cheiro a mofo fez às nossas canções? Fê-las chorar.





