Arquivo da Categoria: Pós-Rock

Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #37 – “TRANSCHAMPS”

#37 – “TRANSCHAMPS”

Fernando Magalhães
06.11.2001 160432

1ª audição dos TRANSCHAMPS (Trans AM + Fucking Champs)
“Double Exposure”

Trata-se de um mini álbum de 17 minutos, com apenas cinco temas.

Destes, há rock, pinceladas Tubeway Army (algo já visível em certos trabalhos dos Trans AM) e – pasmem – um par de temas que soam inconfudivelmente aos…YES (!!!!) da fase “Going for the One”/”Tormato”.

Pelo meio encontra-se um dos temas mais belos e misteriosos que ouvi nos últimos tempos: “First comes Sunday morning”. Suspensão de guitarra acústica, vibrafone e electrónica de nuvens.

FM

Andrew Poppy – “Compositor Heterodoxo Em Entrevista Ao PÚBLICO – Andrew E A Música Poppy” (entrevista)

PÚBLICO SEXTA-FEIRA, 10 AGOSTO 1990 > Cultura


Compositor heterodoxo em entrevista ao PÚBLICO

Andrew e a música Poppy


Andrew Poppy é inglês e pertence a uma nova geração de compositores que, partindo das premissas da escola minimalista, enveredou por vias mais heterodoxas e menos dogmáticas – entre o rock e o clássico. Esteve mais uma vez em Portugal e compôs a banda sonora do filme “Nuvem”, da cineasta Ana Luísa Guimarães.



PÚBLICO – Não é a primeira vez que visita Portugal e que trabalha com cineastas portugueses.
Andrew Poppy – Visito Portugal pela sexta vez. Gosto do país e dos portugueses e, sobretudo, de estabelecer relações de trabalho com pessoas interessantes. Há cinco anos, o realizador de cinema Vítor Gonçalves telefonou-me perguntando se podia utilizar o tema “32 Frames”, do álbum “The Beating of Wings”, no seu filme “Uma Rapariga no Verão”. Acedi.
P. – Tem algum método especial para compor partituras de filmes?
R. – Não tenho um princípio rígido. Uma das coisas que me interessa é a relação entre o som e a imagem, e as diferentes maneiras de trabalhar esta última. No caso de “Meia-Noite” – também de Vítor Gonçalves – tinha vários “bocados” de música gravados em cassette que se adaptavam às imagens. Já em relação a “Nuvem”, de Ana Luísa Guimarães, a música foi composta especialmente para o filme, tendo para tal utilizado dois estilos diferentes: um mais contemporâneo, com uma batida pop dançável, para as partes de maior ação, aquelas em que aparecem os elementos dos “gangs” de rua; outro mais romântico, em que idealizei uma peça com cerca de 12 minutos que se adapta ao tom geral do argumento. Em qualquer dos casos, dei inteira liberdade à realizadora de escolher as partes que quiser.

Lobo minimalista

P. – Incluem-no geralmente no grupo dos minimalistas, ao lado de nomes como Nyman, Glass ou Reich. Concorda com esta classificação?
R. – Eu e os músicos que referiu pertencemos a gerações diferentes. Temos em comum apenas a utilização de técnicas designadas como “repetitivas”. Nos finais da década de 70, toquei peças de Reich e Glass, com os Lost Jockey. Gosto bastante da música de Glass, atualmente transformada em moda.
P. – É verdade que trabalhou com os Psychic TV, preocupados com assuntos como a manipulação mental e a magia negra?
R. – Trabalho em projetos com os quais tenho diferentes graus de identificação. Colaborei com os Psychic TV por volta de 1982, mas não tenho nada de comum com Genesis P. Orridge. Gosto de algumas das suas colagens, em termos visuais, mas não nutro qualquer interesse pela sua música.
P. – Em “The Beating of Wings”, um dos temas intitula-se “The Object is a Hungry Wolf”. Pode especificar do que se trata?
R. – De certo modo o lobo sou seu. Só o título dava para um debate interminável, que do ponto de vista jornalístico soaria pretensioso. Tudo parte do trabalho de John Cage, do seu conceito de música considerada como um objeto e da tentativa de minar o facto de ela ser considerada como tal. Nesse tema, procuro situar a minha música e a dos minimalistas sediados em Nova Iorque, que se têm progressivamente afastado das visões extremistas e utópicas de Cage. É um músico que me influenciou bastante. Vejo na sua obra um “corpo de trabalho intelectual”, perfeitamente coerente.
P. – Na contracapa de “The Beating of Wings” pode ler-se: “A tarefa tradicional do profeta é denunciar os sistemas de vida e de poder que negam a liberdade da carne e da imaginação”. Quer comentar?
R. – A citação não é minha. Refere-se a Paul Morley, da ZTT, e aparece em todos os discos da editora. Penso que é um pouco pretensioso mas ele não quis retirá-la. Não sou nenhum profeta! Esse tipo de convencimento é uma fraude. Se as pessoas ouvirem a música e gostarem, tudo bem.
P. – Por que razão convidou a cantora Annette Peacock para participar no álbum “Alphabed (a Mystery dance)”?
R. – Admiro o seu trabalho. O seu carisma, modo de interpretação, entoação, sensualidade são muito especiais, ligando muito bem com a voz masculina que também aparece no tema.

A força da palavra

P. – A propósito desse tema: quem é o misterioso Sr. G?
R. – Gosto de jogar com o léxico (“The Beating of Wings” = “The Cheating of Things”, “Alphabed” = “Alphabet”…). A minha música pode considerar-se um jogo na medida em que trata de permutas, de interações, não no sentido pejorativo do termo “game” (brincadeira).
P. – Tem projetos para a gravação de um terceiro álbum? O que se passa com a anunciada composição “Songs of the Clay People”.
R. – A peça que refere está um pouco posta de parte. Foi acrescentada com mais música e texto, mas não tem ainda forma definitiva. Compus uma ópera que faz parte de uma série encomendada mas, de momento, não tenho planos para a gravar. Há outras peças escritas em diversos estilos que quero retrabalhar, de modo a sintetizá-las numa espécie de “concerto”. Para já, não me encontro ligado a qualquer editora. As companhias de discos não se querem envolver com o que não dá dinheiro e essa parece ser a sua única finalidade. No meu caso, tem sido difícil convencê-las de que a minha música é comercialmente viável. Com a ZTT foi diferente, tinha um estatuto especial. Não me preocupava o facto de ser apresentado ao lado dos Frankie Goes to Hollywood. Acho até divertido que considerem a minha música “poppy”.

John Zorn – “Film Works, 1986-1990” + God – “Possession” + The Carl Stalling Project – “Music From Warner Bros. Cartoons, 1936-1958”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 15.04.1992


A CÂMARA ASSASSINA e outros desenhos animados

JOHN ZORN
Film Works, 1986-1990 (8)
CD, Elektra Nonesuch, import. Contraverso

GOD
Possession (7)
CD, Venture, distri. Edisom

THE CARL STALLING PROJECT
Music From Warner Bros. Cartoons, 1936-1958 (7)
CD, Warner Bros., import. Contraverso



A música de John Zorn é por natureza cinematográfica. O saxofonista e compositor inglês disseca os sons, retalha-os e reconstrói-os segundo um processo de montagem em tudo semelhante ao do cinema. Sobretudo desde “Big Gundown”, Zorn tem vindo a entregar-se a um meticuloso reprocessamento sonoro de variadíssimos estilos e “inputs” musicais que, ao invés de tenderem para sínteses aglutinadoras, disparam em vertigem centrífuga, em direcção a uma “micro-música”, chamemos-lhe assim, de ampliação e revalorização de pormenores. Como se a Zorn interessasse estudar o filme, fotograma a fotograma. Estética de fragmentação já presente em obras como o citado “The Big Gundown” (ainda sustentada pelas partituras de Ennio Morricone) e “Spillane” (outra referência explícita ao universo cinematográfico, neste caso ao “filme negro”), na longa dissertação sobre Godard incluída no álbum de homenagem a este cineasta, editado pela Nato, e finalmente levada ao extremo na autodevoração de “Naked City” e “Torture Garden”. “Film Works” reúne as bandas sonoras compostas por Zorn para os filmes “Hite and Lazy”, de Rob Schwebwr, “The Golden Boat”, de Raul Ruiz, e “She Must be Seeing Things”, de Sheila McLaughlin, e uma versão “pastische” de “The Good, the bad and the ugly” para um anúncio da Camel. As imagens sonoras de Zorn são sinónimo de agressão. O desenho da capa – uma câmara que é ao mesmo tempo um revólver (símbolo / ícone já anteriormente presente em “Spillane”, “Deadly Waepons”, com Steve Beresford e David Toop, e “Naked City”) – ilustra bem o modo como o filme roda no cérebro do seu autor. Mais próximo de “Big Gundown” e “Spillane” do que das torturas sónicas dos Naked City, “Film Works” apresenta-se ainda como uma série de exercícios exploratórios sobre linguagens musicais autónomas (blues, country, jazz, ambiental, no caso das composições para Raul Ruiz, reproduzidas sob a forma de “géneros” anedóticos e arquivadas em títulos como “Jazz oboés”, “Horror organ”, “Slow” ou “Rockabilly”), com a diferença de que aqui cada um deles se compartimenta e arruma num tema específico, com tempo e espaço. Suficientes para respirar. Como se desta feita Zorn (acompanhado pela “troupe” do costume: Robert Quine, Arto Lindsay, Carol Emanuel, David Weinstein, Ned Rothenberg, Frissell, Previte, etc.) optasse por escrever o índice completo e detalhado da sua obra, de modo a facilitar ao ouvinte a decifração do labirinto. John Zorn figura como músico convidado em “Possession”, embora em termos sonoros os God não se afastem em demasia do universo estético / terrorista dos Naked City, com quem partilham uma especial preferência pelas virtudes do sadomasoquismo. No folheto interior, entre corações de metal, máscaras e vísceras sortidas, os God deixam clara a imagem que fazem do amor: “Being person who is owned and fucked becoming someone who experiences sensuality in being possessed.” Aqui o filme é de horror e o som abrasivo, feito de massas sonoras em descargas contínuas de ódio e distorção. De “Fucked “ e “Return to hell” a “Soul fire” e “Hate meditation”, os God mostram que são feios, porcos e maus. Registe-se como curiosidade a inclusão no grupo de Tim Hodgkinson, que integrou a formação original dos Henry Cow e agora se vê metido no inferno. Antecedente principal e referência paradigmática das estratégias Zornianas, a obra de Carl Stalling prefigura-se, entre os anos 30 e 50, como uma das mais revolucionárias da época na América. Vinte e poucos anos ao longo dos quais Stalling compôs as bandas sonoras para os desenhos animados de Tex Avery para a Warner. “The Carl Stalling Project” reúne gravações originais dessa era dourada da animação. Cinco anos antes da sua morte, referia-se nestes termos ao cinema de animação actual: “Têm tantos diálogos que a música deixa de ter significado.” Entre as tropelias de Bugs Bunny e Duffy Duck, a música destas pequenas sinfonias delirantes congrega em segundos toda a história da música americana que vai de Ellington a Copland, de Ives a Cage, intercalada pelo “Mickey mousing” – termo técnico que designa os ruídos onomatopaicos que acompanham a acção e os distúrbios das personagens animadas.