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La Reverdie – “O Tu Chara Sciença – Musique de la Pensée Médiévale”

pop rock >> quarta-feira >> 08.06.1994


La Reverdie
O Tu Chara Sciença – Musique de la Pensée Médiévale
Arcana, distri. Megamúsica



“O Tu Chara Sciença” é um manifesto sublime da chamada “Ars Musica”, da Idade Média. Tudo começou muito antes de serem construídas as catedrais da Europa, quando um grego chamado Pitágoras ensinou que a essência de todas as coisas era o número. Uma matemática não exclusivamente conceptual e abstracta, embora obviamente lidando com relações e equilíbrios, logo, com harmonias. A ideia de harmonia era muito importante na Idade Média. A música (movimento, vibração), por via de Pitágoras e, mais tarde, de Platão, era considerada (e muito bem, como diria o compositor contemporâneo Xenakis), a expressão das relações matemáticas entre os sons. A “Ars musica”, expressão latina da escolástica medieval, aplicável a uma série de conhecimentos matemáticos em geral, estudava e procurava pôr em prática estas relações. Havia três modalidades: a “musica mundana” ou “musica celestis”, que estudava as relações e a música produzida pelos corpos celestes (Holst partiu desta ideia para compor a sua célebre composição “Os planetas”), a “musica humana”, que estudava as relações entre o corpo e a alma e as proporções entre ambos que regulavam a personalidade humana, e, finalmente, a “musica terrestres” ou “instrumentalis” – referindo-se o termo “instrumento” tanto aos artefactos sonoros artificiais como à voz humana -, que buscava o entendimento das relações possíveis entre os sons que podiam ser produzidos neste mundo. Em “O Tu Chara Sciença”, a voz (quatro vozes femininas e uma masculina) ocupa o lugar de maior proeminência, em cânones e floreados intricados em conjunto com onomatopeias, gritos e interjeições que procuravam reproduzir cenas ou acontecimentos bucólicos como um cantar de um pássaro, cenas de caça e de pesca, ou uma rapariga colhendo uma flor. “A poste mese” e “Or sus, vous dormez trop” demonstram até que ponto certas técnicas vocais de Meredith Monk são devedoras desta música. Os restantes instrumentos – alaúde, symphonia (sanfona medieval), flautas de bisel, “vielle”, rabeca, “cornetto” e harpa – funcionam como contraponto ou pano de fundo ambientais. Há uma complexidade formal que estabelece o contraste entre este disco e uma segunda obra dos La Reverdie, também disponível em Portugal, “Speculum Amoris – Lyrique de l’Amour Médiéval du Mysticisme à l’Érotisme”, na qual a depuração e a meditação contemplativa estabelecem outros paradigmas da arte medieval, enquanto o disco agora em análise recria formas como o “virelai” o “conductus” e o madrigal, culminando, em termos da tal complexidade, no motete, estrutura harmónica coincidente com o grau máximo da polifonia na “ars musica”. Dividida em três partes – “Musica terrestres”, “Ars musica” e “Laudatio Dei” -, “O Tu Chara Sciença” inclui composições de autores franceses e italianos do século XIV e proporciona o vislumbre, sobre um céu azul sem nuvens, da beleza no seu estado mais elevado. Fechemos os olhos e percamo-nos neste labirinto de harmonias que conduzem ao paraíso. Sem fazer contas. (8)

Pedro Caldeira Cabral – “Pedro Caldeira Cabral” + “Duas Faces”

pop rock >> quarta-feira, 08.09.1993
REEDIÇÕES


PEDRO CALDEIRA CABRAL
Pedro Caldeira Cabral (6)
Duas Faces (6)
CD EMI – VC



Considerado, com Carlos Paredes, um dos expoentes da guitarra portuguesa, de Pedro Caldeira Cabral sempre se comentou que o seu estilo, por comparação com o do autor de “Verdes Anos”, é demasiado frio e cerebral. O que se torna tanto mais incómodo quanto existem de facto semelhanças estilísticas entre ambos. Mas enquanto Paredes se “perde”, no sentido em que se deixa arrastar pela inspiração do momento, numa postura interpretativa em que o corpo funciona como uma extensão biológica da guitarra, Pedro Caldeira Cabral coloca-se no pólo oposto, o da distanciação. O que, se por um lado retira à sua música alguma expressividade emocional, lhe permite, por outro, percorrer áreas e registos musicais inacessíveis a Paredes. É assim que em “Pedro Caldeira Cabral”, na companhia de elementos do Opus Ensemble e dos “jazzmen” Carlos Bica e Carlos Martins, Caldeira Cabral leva a guitarra aos salões de música de cãmara (a par de incursões na Andaluzia e no minimalismo africano de “Uimbe”) e em “Duas Faces”, com João Nunes Represas e Rui Luís Pereira, “Dudas”, ex-Resistência e Ficções, se aproxima das cadências étnicas – portuguesas (em que aflora por vezes a vizinhança com Júlio Pereira), árabes, brasileiras – e do fado. Num e noutro caso, a diversidade e o tecnicismo demosntrados não arrastam consigo a paixão, soando certos temas a exercícios formais que os próprios títulos sugerem: “Jogo dos sons”, “Estudo em harpejos”, “Ostinato”. Um caso a exigir uma certa dose de loucura.

Vários – “Festa Da Música Em Bourges, Entre 30 De Abril E 5 De Maio – Sagração Da Primavera”

Secção Cultura Domingo, 31.03.1991


Festa Da Música Em Bourges, Entre 30 De Abril E 5 De Maio
Sagração Da Primavera



Festa da música em Bourges, pequena cidade medieval francesa. É o “Printemps de Bourges”, ponto de encontro e convívio da França com o resto do mundo, na descoberta e partilha de um espaço cultural europeu comum.

Este ano no “Printemps de Bourges”, entre 30 de Abril e 5 de Maio próximos, como de costume, o programa é aliciante e diversificado, num leque que vai do classicismo pós-moderno de Wim Mertens e a música antiga dos Hespérion XX, ao jazz de Manu Dibango (vertente “afro”) e Carla Bley com Steve Swallow, sem esquecer, obviamente, o rock representado pelos House of Love e Elliott Murphy, ou o universo múltiplo das músicas étnicas.
Com o apoio e patrocínio de entidades oficiais (o Ministério da Cultura e Comunicações, a Secretaria de Estado para a Juventude e Desportos ou a “Maison de la Culture de Bourges) e instituições particulares (MCM – Euromusique, L’ARCAM, Coca-Cola, Air France, etc.), o “Printemps de Bourges” conta entre os seus objectivos “encorajar os jovens artistas e possibilitar ao maior número de pessoas possível a descoberta de novos músicos e a audição das suas vedetas preferidas”.

Espectáculo Na Rua

À semelhança do que aconteceu no ano passado, o centro das operações localiza-se na parte antiga da cidade, num périplo que inclui as suas principais zonas históricas, impecavelmente servido em termos de infra-estruturas habitacionais e comerciais. Quando despertar ao som de músicas estranhas, invadida por milhares de forasteiros atraídos pela curiosidade, pela festa ou pela magia única doo acontecimento, a habitualmente pacata cidade de Bourges transfigurar-se-á, adquirindo a aura luminosa e o prestígio das grandes galas culturais.
O Palácio dos Congressos, o “Grand Théatre” e o Pavilhão, salas menores como as “Gilles Sandier”, “Duc Jean” e “Germinal”, e a própria catedral, preparam-se para abrir as portas à música, ao espectáculo e às inúmeras surpresas capazes de transformar o festival em qualquer coisa de inesquecível. Mas nem só nos recintos fechados haverá que ver e ouvir. Como é da praxe, também as ruas da cidade serão palco para o que der e vier, através dos designados “Hors Jeu” – actividades paralelas que este ano vão desde o “cosy disco centre d’art”, estranho acampamento completo, espécie de festival dentro do festival, que junta os conceitos de circo, dança e centro cultural alternativo, ao desfile dos chamados “trens eléctricos” brasileiros – orgia carnavalesca sobre rodas.

“Troupe” Surrealista

Despoletar e encantar a imaginação infantis é a tarefa a cargo da “troupe” surrealista “Maximomes”. Mas que ninguém se espante se deparar com um camião orquestra, uma agência noticiosa (“L’Agence Tartare ‘La Chaine’”), encarregada de confundir e difundir notícias e acontecimentos fantasiosos (!) ou com a possibilidade de aprender, “in loco”, a disparar um canhão napoleónico. Os “Generik Vapeur et la grande petarde nocturne motorisée” prometem tornar as ruas num pesadelo povoado de criaturas estranhas e cerimónias apocalípticas. Por vezes acontecerá tudo ao mesmo tempo.

Nomes Importantes

Para quem preferir o conforto dos recintos fechados, o mais difícil será escolher. Todos os dias, entre as duas da tarde (no “Germinal – découvertes” – à descoberta dos novos valores do rock) e as tantas da manhã, a música não para e a excitação muito menos. Entre os concertos agendados com nomes de cartaz, destaque para Eliott Murphy (rock americano urbano) e Manu Dibango (jazz + funky = cataclismo rítmico), dia 30; Bel Canto (pop norueguês da “nova idade”) e Carla Bley com Steve Swallow (duo piano/baixo por dois expoentes no jazz actual), dia 1; Guesh Patti (animal de palco em “music-hall” revisitado), Wim Mertens (minimalista, classicista, pianista, monárquico e doido genial) e os House of Love (guitarras e canções da nova geração Pop britânica), dia 3; Juliette Greco (grande dama da “chanson française”), dia 4; Jimmy Sommerville (ex-Communards, porta-voz das emoções “gay”), dia 5. Realce muito especial para a actuação do grupo de música antiga Hespérion XX, dirigido por Jordi Savall e onde pontifica a voz sublime de Monserrat Figueras, dia 1, na catedral.
A lista continua: UB 40 (“reggae” em corte inglês), Geoffrey Oriema (dos nomes mais importantes da actual música africana, Brian Eno e Peter Gabriel não lhe regateiam elogios), os franceses Les Rita Mitsouko e Les Negresses Vertes, New Model Army (os novos “Clash”, para o “Times”), Flying Pickets (vocalizações “a cappella”), Kanda Bongo Man (rumbas zairenses transvertidas em música de dança). Depois, partir à descoberta dos nomes novos e novas emoções: Elmer Food Beat, Victims Family, Sons Of The Desert, Noise Gate, Bat Attack, Patrick Bruel, Reynaldo Anselmi, Bratsch, Paris Musette… Em Bourges, a música faz a Primavera.