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Vários – “‘Printemps de Bourges’ começa hoje em Lisboa – De França ao Sul de Portugal”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 9 MAIO 1990 >> Cultura


“Printemps de Bourges” começa hoje em Lisboa

De França ao Sul de Portugal


As companhias de Bernard Lubat e Philippe Genty, os Satellites e as novas polifonais corsas de Hector Zazou são os quatro espetáculos agendados para o 5º Printemps de Bourges de Lisboa. A pluralidade sintetizada em quatro propostas irrecusáveis.



Hoje às 21h30, na sala do grupo recreativo do BESCL, Bernard Lubat e a sua companhai de jazz farsante e fascinante apresentam “La Comedie Del Jazz”, “performance” que mistura virtuosismo e loucura sem pedir licença à academia. A “grande música negra” ganha o colorido do imprevisto e do improviso seriamente encenado, mero pretexto para a feérica exibição de liberdade criativa.
Bernard Lubat é colega de outros franceses da mesma escola em que o humor desempenha papel fundamental no discurso musical, como Michel Portal, Eddy Louiss, Bob Guérin, Louis Sclavis ou François Jeanneau, excêntricos, bem-humorados e nada preocupados em arrumar a sua música nos cacifos mortuários da catalogação precoce.
Bernard Lubat canta e toca teclas, acordeão, melódica e percussão. Acompanham-no cinco músicos, incluindo dois trombonistas e três percussionistas, empenhados em provar que a fanfarra pode ser farra libertária.
Com Philippe Genty e o ato de pura magia que é “Dérives”, passamos decididamente para o lado de lá da banalidade subsidiada e burocrática do funcionalismo “artístico”. O Universo de formas transitórias desta fantasmagoria materializada à custa de matemática minúcia e certamente das graças de todos os deuses do bom-gosto, confunde-se com a própria Arte, Movimento absoluto, Harmonia musical, incessante fluxo poético, Teatro da noite ancestral e primitiva iluminada feita dia.
Mulheres mundanas são devoradas por peixes e os peixes são devorados pelo mar que é o sangue da mulher. “Dérives” recria o ritual da morte e da vida, interligado na cruz do instante transformador. Metamorfose da Arte em Vida. Suspensão do tempo na eternidade da representação. No fim não acreditamos no que vimos.
“Dérives” tem genial coreografia de Mary Underwood, fabulosa música, indispensável à criação da atmosfera irreal da cerimónia, de René Aubry. Os atores são Pascal Blaison, Christian Carrignon, Kathy Deville, Gabriel Guimard, Eric de Sarria e uma infinidade de bonecos e outros seres menos facilmente identificáveis. Todos juntos lançarão o sortilégio amanhã, pelas 21h30, no Teatro Villaret. No sábado vão estar no Porto, no Teatro Carlos Alberto, integrados no Festival Internacional de Marionetas daquela cidade.
Os Satellites merecem um destaque relativo. Rock, Soul e Rhythm’n’blues, dançáveis, divertidos e destinados a fazer as delícias dos jovens menos preocupados com os labirintos existenciais que dão à vida um ar de respeitabilidade. Dança e festa estão programadas para a discoteca “Loucuras”, dia 18, de novo às 21h30.
Finalmente, a 19 no cinema Tivoli e ainda à mesma hora, Hector Zazou apresentará as suas polifonias corsas, aliando o canto tradicionalmente masculino desta região, aqui permeável à invasão vocálica do belo sexo, a um sinfonismo híbrido e eletrónico caro a toda a obra deste heterodoxo francês. Sintetizadores, violoncelo, sopros, percussão de orquestra e intrincados jogos vocais resultam numa música estranha como aquela registada em discos do compositor como “Géographies” ou “Géologies”. Hector Zazou produz música, segundo afirma, “para acabar de vez com a teoria do pós-modernismo”. Para já consegue acabar com perniciosos preconceitos estéticos, eufemismo encobridor da surdez.
Na 2ª parte tocam os Lua Extravagante que integram Janita Salomé, Vitorino, Pedro Caldeira Cabral, Filipa Pais e Carlos Salomé. De França até ao Sul de Portugal.

Vitorino – “As Mais Bonitas”

pop rock >> quarta-feira, 08.12.1993


Vitorino
As Mais Bonitas
EMI-VC



Sejam ou não as mais bonitas canções de Vitorino, a memória e o coração aceitam de bom grado a escolha do cantor. O começo é antigo e novo em simultâneo: uma versão, a quarta, já deste ano, do clássico “Menina estás à janela”, um original do álbum de estreia “Semear Salsa ao Reguinho”. Mesmo à quarta, continua bonita. “Ó rama ó que linda rama”, produzido por Vitorino para um álbum de Teresa Silva Carvalho, e “Laurinda”, do álbum “Romances”, ficaram igualmente com arranjos de 1993. Seguem-se mais 18 canções, retiradas dos álbuns “Flor de la Mar”, “Leitaria Garrett”, “Sul”, “Negro Fado”, “Lua Extravagante” (com a banda com este nome) e “Eu que Me Comovo por Tudo e por Nada”, além do maxi “Joana Rosa”.
Em todas elas a mesma elegância, o rigor e o pendor classicista que Vitorino tem vindo a aparar ao longo dos anos, entre a vastidão da planície e noite alentejanas e as vivências urbanas numa Lisboa do princípio do século que o cantor canta como se fosse a sua dama. Não vale a pena mencionar outros nomes de canções. São “as mais bonitas” e é quanto basta. (8)

Vitorino – “Vitorino No Centro Cultural De Belém – Comoções Sob Controlo” (concertos)

cultura >> sábado, 20.11.1993


Vitorino No Centro Cultural De Belém
Comoções Sob Controlo



O CENTRO Cultural de Belém, como o Braz & Braz, tem. Tem montes de modernidade. Tem uma programação cultural. Tem espaço. Tem luz. Tem vista para o mar. Mas não tem telefone. Quem quiser ou precisar de telefonar no intervalo, terá de se deslocar em contra-relógio até uma cabina no exterior (neste caso junto ao planetário), e regressar antes do começo da segunda parte. Senão arrisca-se a que, quando voltar, um arrumador zeloso das suas funções o impeça de reocupar o seu lugar, alegando o desconforto que tal irá causar aos outros espectadores.
Adiante. Vitorino ocupou, quinta à noite, com um concerto sóbrio e intimista, um Grande Auditório que não encheu. Ontem a lotação esgotou. Os nervos da maioria dos participantes eram evidentes, ressalvando-se a mestria do pianista João Paulo Esteves da Silva e o profissionalismo do quarteto de cordas Lusitância. Da primeira parte, que privilegiou as canções do álbum “Eu que me Comovo por tudo e por nada”, com as palavras de António Lobo Antunes, destaque para “Canção prá minha filha” (dedicada pelo escritor à filha, “quando tiver medo do escuro”9, que Vitorino interpretou de forma tocante, e para a canção que dá título ao álbum, em registo de tragédia de costumes.
Filipa Pais entrou super-elegante, em negro e vermelho, e híper-nervosa, para cantar a “Valsa das Viúvas” (da pastelaria Bénard), sozinha e quase angustiada, como se quisesse fugir. No final, valsou com Vitorino pelo palco. Na segunda parte entraram em cena os manos Janita e Carlos da Lua Extravagante. Bom, o dueto em “cante” alentejano travado entre o primeiro e Vitorino, em “Eu hei-de amar uma pedra”. Depois, Vitorino comoveu-se de verdade numa “Laurinda” inesquecível. Entre boleros, dedicatórias e um cheironho de “salsa” (em “Os maridos” – “que são sempre os outros”…) Vitorino e a Lua terminaram a cantar em coro com a assistência. “Queda do império” e o inevitável “Menina estás à janela”. O som, impecável, acabou por falhar já perto do fim, no precisomomento em que Vitorino pronunciava as temíveis palavras “Carbonária” e “anarquismo”. Até um dos holofotes explodiu de raiva…