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John Cale e Tod Browning – “John Cale E Tod Browning – Braço-De-Ferro No Tivoli”

cultura >> domingo, 04.06.1995


John Cale E Tod Browning
Braço-De-Ferro No Tivoli


“THE UNKNOWN”, “o Homem Sem Braços”, é uma obra-prima. A história de um homem que se faz amputar os braços por amor a uma mulher que não suporta nem vê-los, quanto mais ser tocada por eles, mas que afinal acaba por ir parar aos braços de outro, não perdeu um milionésimo do seu fascínio, 68 anos depois de Tod Browning a ter realizado. A diferença, decorridos estes anos todos, no cinema Tivoli, em Lisboa, e nos seus “Mistérios”, está em que desta vez teve John Cale a dar-lhe música ao vivo. De início foi irritante, com grandes vagas electrónicas a desviarem a atenção e a sobreporem-se às imagens. Depois, à medida que o filme ia destilando o seu veneno e o enredo se aproximava da tragédia, a música pôs-se no seu lugar, perdendo em ostentação o que ganhou em poder de sugestão. E é assim que deve ser. A função de uma banda sonora, seja ela qual for, não é sobrepor-se mas sim marcar presença a um nível subliminal.
Para acompanhar musicalmente “The Unknown”, num Tivoli muito perto da lotação esgotada, Cale tinha à sua disposição uma panóplia de teclados electrónicos. Abusou deles que se fartou. Logo de entrada carregou forte no lado neoclássico – que, na sua pessoa, atira regra geral para o pesado (uma vez alguém afirmou que Cale toca piano “como se usasse luvas de boxe”) – enquanto se ficava a saber que Nanon não suportava que braços masculinos a tocassem, que Malabar, o homem dos bíceps avantajados, estava preso pelo beicinho, e que Alonzo, – interpretado por um Lon Chaney fabuloso – fingia não ter braços só para impressionar a pequena. Estava mesmo a verse que a coisa ia dar para o torto.
Entretanto, a acção avança e a música vai perdendo embalagem. Ou éramos nós que nos íamos esquecendo dela. Quando Cale utiliza o computador para simular um piano, sente-se uma sintonia, um mistério partilhado. Aliás, o ex-Velvet Underground, também ele se terá deixado prender pela força do filme, o que teve a virtude de, até ao final, sons e imagens não entrarem num braço-de-ferro declarado.
Quando Alonzo (e não Malabar, como por lapso, escrevemos no texto de apresentação do espectáculo) decide cortar os braços e, noutra cena, vemos Nanon já liberta do seu complexo, feliz e apertada num amplexo pelo seu amado Malabar, adivinha-se o desenlace trágico. É nesta altura que a música adquire tonalidades surreais, disparando ruídos e vozes parasitárias, o que acentua o ambiente de loucura crescente. Lon Chaney desmultiplica-se em esgares, tornando o seu rosto num palco de mil emoções desencontradas, num desempenho de antologia, enquanto Cale, durante toda a projecção, não consegue uma única vez recuar até ao silêncio.
O final é de apoteose, embora se possa dizer também que seja de corte. Alonzo, amputado, decide vingar-se. Nanon saltita dos braços do amado para os cotos do outro que nessa altura se assume como vilão declarado (antes já estrangulara o pai da rapariga, mas fora por amor). Malabar não sabe o que o espera.
Mesmo, mesmo, no fim, quando o número de Malabar com os cavalos é sabotado, há uma cena que não se percebe. Vê-se um dos seus braços já praticamente arrancado por um dos equídeos, estilo asa de frango para chupar, com a carninha à mostra. Mas não, tudo acaba num “happy-end”, com o par enlaçado, que é como quem diz, com tudo no sítio, incluindo o tal braço (um homem não é de ferro mas só um braço pode ser?). Seja como for, “The Unknown” é, para todos os efeitos, um filme espantoso. Tomara a música de John Cale chegar-lhe, já não dizemos aos braços, mas aos calcanhares.

John Cale – “John Cale Em Lisboa Para Acompanhar Ao Vivo ‘The Unknown’ – A Europa Sem Braços”

cultura >> sexta-feira, 02.06.1995


John Cale Em Lisboa Para Acompanhar Ao Vivo “The Unknown”
A Europa Sem Braços


O cinismo é, para John Cale, a característica que mais o impressiona em “The Unknown” (“O Homem Sem Braços”), obra-prima do cinema mudo realizada por Tod Browning, para a qual compôs uma partitura. “Tirei partido desse cinismo”, disse o antigo elemento dos Velvet Underground em conferência de imprensa dada ontem logo após a sua chegada ao aeroporto de Lisboa.



A ideia para John Cale compor e tocar ao vivo durante a projecção de “The Unknown” surgiu a partir de uma encomenda que lhe foi feita pela organização das “Jornadas do Cinema Mudo” realizadas em Pordenone. Uma ilustração sonora, em simultâneo com as imagens, para os amores cruéis entre Nanon e Malabar, com um circo por cenário, um espectáculo para ser visto e ouvido hoje às 22h no Cinema Tivoli, nos “Mistérios de Lisboa”, iniciativa da Associação Cultural Saldanha com o patrocínio da Expo-98.
“The Unknown”, a “banda-sonora”, alterna a linguagem electrónica dos sintetizadores, “indicada para pôr em relevo o lado sobrenatural da música”, com o piano e gravações de arquivo de vozes como as de Ezra Pound, T. S. Elliott e Winston Churchill, ou um excerto, a que chama “The hypnotist”, um discurso, “numa voz muito calmante”, com “conselhos às pessoas que sofrem de asma”.
Cale enfrentou o desafio que é dar uma nova coloração sonora a um clássico do cinema, reconhecendo que, neste caso, pela sua antiguidade, “foi preciso ter muito cuidado”. “Não é a mesma coisa”, disse, que “fazer uma digressão rock ‘n’ rol”. “Uma vez começada, não se pode parar a música”, disse ainda John Cale, referindo-se ao modo como trabalhou na partitura para a obra de Tod Browning que, de resto, constituirá a próxima edição discográfica do autor que no ano passado assinou “Last Day on Earth”, de parceria com Bob Neuwirth.
“É a história de um circo, uma alegoria sobre a Europa entre as duas guerras, e das deslocações das suas populações. Na minha juventude, no País de Gales, sempre achei os filmes passados em circos muito deprimentes. Tive sempre a ideia que as pessoas do circo não tinham uma verdadeira casa, que andavam sempre à deriva. Num circo cada um desempenha um papel determinado, de padre ou de polícia. No filme é como se não houvesse nenhuma lei. O cinismo da história está na maneira como a credulidade é levada ao extremo. É difícil acreditar que alguém possa pensar como a personagem desempenhada por Lon Chaney [Malabar, o homem dos músculos que se faz voluntariamente amputar os dois braços por amor de Nanon – Gloria Swanson, por esta não suportar que algum homem a tocasse]. Há uma sensação de claustrofobia no desenrolar da acção à qual a música não consegue fugir”.
Sobre a sua antiga companheira nos Velvet Underground, Nico, a cantora alemã presente no seminal “The Velvet Underground & Nico” e com a qual colaborou em vários dos seus discos a solo (“The Marble Index”, “Desertshore”, “The End…”) Cale referiu a sua personalidade metódica, enquanto actriz”, a aprendizagem no Actor’s Studio e os ensinamentos que lhe foram ministrados por Elia Kazan. “Vivia de acordo com o seu próprio relógio, o que fez sempre até ao fim da sua vida. O seu sentido de ‘timing’ era imaculado. E perturbante!”.
Nico era a actriz emblemática dos filmes de Philippe Garrel, o qual costumava dizer que fazia filmes “para não se suicidar”: “A Cicatriz Interior”, “Athanor” e “O Berço de Cristal”. Os três serão exibidos no cinema Monumental, integrados na programação dos “Mistérios de Lisboa”. John Cale, por seu lado, fez a música de “La Naissance de l’Amour”, deste mesmo cineasta, e mais recentemente “Paris s’Éveille”, do Oliver Assayas, e “N’ Oublie pas que tu vas Mourir”, de Xavier Beuavois, vencedor do prémio do Júri no Festival de Cannes deste ano.
No Tivoli teremos um John Cale “desconhecido”. A sua música do cinismo e da crueldade.

Teresa Tarouca – “Teresa Tarouca Comemora 33 Anos De Carreira, No Tivoli – Morte E Ressurreição Do Fado”

cultura >> quinta-feira >> 26.05.1994


Teresa Tarouca Comemora 33 Anos De Carreira, No Tivoli
Morte E Ressurreição Do Fado


TERESA TAROUCA celebra neste ano 33 anos de carreira. Este aniversário será comemorado com um espectáculo intitulado “33 Anos a Cantar Portugal”, que se realizará hoje no cinema Tivoli em Lisboa, com produção das Edições Ledo.
Acompanhada à guitarra por João Torre do Vale e Pedro Veiga, e à viola por D. Segismundo de Bragança e Jaime Santos, Teresa Tarouca contará ainda com a presença de dois convidados – Gonçalo da Câmara Pereira e o actor Tó Zé Martinho, que vão cantar dois ou três fados cada. Ao todo, a fadista interpretará 26 fados, entre os quais alguns inéditos, como uma versão de “Lágrima”, imortalizada por Amália, ou “À minha mãe”. Parte dos lucros deste espectáculo – que poderá ser repetido em Paris e noutras cidades portuguesas – reverte a favor do Instituto Português de Oncologia.
Não vai ser um espectáculo qualquer. Porque Teresa Tarouca tem pergaminhos na canção nacional, porque pertence a uma família ilustre de cantadores – é prima de Vicente da Câmara e foi D. Teresa de Noronha quem a iniciou nas lides fadistas – e, acima de tudo, porque canta o fado com a emoção que ele exige.
Vale a pena citar uma das suas declarações à revista “Olá! Semanário”, publicada em 24 de Julho do ano passado: “Estive a cantar em França, para um auditório de jovens universitários. Ao fim de umas horas senti as pernas dormentes, coisa que nunca me tinha acontecido. E das duas uma: ou tirava os sapatos ou caía. Tirei os sapatos e pedi-lhes desculpa por ter de cantar descalça, explicando o que estava a acontecer. Foi impressionante! Todos se levantaram e aplaudiram.”
Por aqui se vê a raça da artista que, curiosamente, canta um fado intitulado “Não sou fadista de raça”.
Além disso Teresa Tarouca é uma pessoa bastante religiosa. Diz que Deus a ajudou na sua carreira e faz mesmo notar que o número 33, correspondente ao seu aniversário como fadista, é igual ao da idade de Jesus Cristo quando morreu e, três dias depois, ressuscitou. Até porque, como avisadamente nos é explicado no folheto de promoção do espectáculo, “o acto de criação artística é simultaneamente um acto de morte e de ressurreição”.
Entra-se depois no território da filosofia (de inspiração cristã) e aqui as elipses são obscuras e de mais difícil decifração, como que a querer dar um sentido ao título de um dos fados mais célebres de Teresa Tarouca, “Saudade, silêncio e sombra”. “A Arte deve procurar estas correspondências em símbolos que transcendem a própria natureza humana.”
Teresa Tarouca, à sua maneira, com o sentimento e a voz que Deus lhe deu, foi isto que fez e continua a fazer ao longo de 33 anos de carreira. É verdade que o fado não é símbolo de nada e que não há nada menos simbólico do que a música, seja ela qual for. Quando muito, os portugueses é que são símbolo do fado.
Quem, no entanto, tiver dúvidas o melhor que tem a fazer é ouvir os discos de Teresa Tarouca – de preferência os de fado, uma vez que a artista também tem uma queda pelo folclore. “Portugal Triste” ou o recente “Teresa Tarouca canta Pedro Homem de Mello”. E dar hoje à noite no Tivoli toda a atenção a composições como “Não sou fadista de raça”, “O meu bergantim”, “Zé sapateiro”, “Povo que lavas no rio”, “Canção verde”, “Deixaste a vida de outrora” e o maior êxito da fadista, “Saudade, silêncio e sombra”.