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Kraftwerk – “No Tour Da Pop Electrónica” (artigo de opinião) + “Tour De France Soundtracks” (crítica de discos)

(público >> y >> pop/rock >> artigo de opinião / crítica de discos)
1 Agosto 2003
capa


Kraftwerk
No tour da pop eletrónica


São os recordistas no “tour” da pop eletrónica. Mas “Tour de France Soundtracks” escapa à justa do carro-vassoura. Os homens-máquina regressaram.

O “Tour de France” terminou há dias com a 5ª vitória consecutiva do ciclista norte-americano Lance Armstrong. Os germânicos Kraftwerk não podiam desperdiçar a oportunidade para, uma vez mais, celebrarem o triunfo do homem-máquina.
Adeptos incondicionais do ciclismo, sabendo-se que um dos seus membros fundadores, Ralf Hütter, é mesmo colecionador e perito em bicicletas, encontraram na simbiose ciclista/bicicleta o perfeito exemplo dessa identidade entre o biológico e o orgânico que laboriosamente têm vindo a construir desde que, em 1974, puseram a rolar as suas roldanas embebidas em ácido desoxirrinbonucleico em “Autobahn” – auto-estrada musical cujas placas de sinalização apontariam para uma das principais direções que conduziria a pop até ao presente.
“Tour de France, Soundtracks” (disponível a 4 de Agosto), composto por originais e versões do primeiro “Tour de France”, apura o conceito de homem-máquina, cujo desenvolvimento se processou através de fases de montagem prévias – “RadioActivity”, “Trans Europe Express”, “The Man-Machine”, “Computer World” e “Electric Cafe”. Os títulos do novo disco alternam entre a análise do humano (“Vitamin”, “Elektro Kardiogramm”, “Regeneration”), da máquina (“Aerodynamik”, “Titanium”) e das “performances” obtidas da fusão entre ambos (as três “étapes” do “tour”, “Chrono”). A entidade mutante unificada é observada à lupa em “La forme”.
Homem-máquina, “the man-machine”, um novo corpo originado da fusão entre os neurónios e o “chip” (o “bio-chip”). Carne, plástico e metal. Pensa-se em filmes como “A Mosca” e “Crash”, de Cronenberg, pelo lado humano e existencialista, em “Tron” ou em “Matrix”, na perspetiva da inteligência artificial.

atenção: obras. Mas se a tecnologia parece ocupar o lugar central na obra demiúrgica dos quatro de Düsseldorf, é interessante verificar até que ponto os seus dois principais operadores, Ralf Hütter e Florian Schneider, optaram desde o início por uma abordagem artesanal, ou minimalista, do som eletrónico. Ao invés de complexas produções, os Kraftwerk preferiram a mesma diretiva do “less is more” posta em prática pelos Can, na sua “trip” de transe universal – uma concentração implosiva dos meios tecnológicos postos ao serviço da máxima simplicidade musical.
Antes, porém, do andróide e do robô, os Kraftwerk rodearam-se de quinquilharia, fios, lâmpadas e metal ferrugento, para construir o homem de lata, o autómato das fitas de ficção científica de série Z.
Em “Tonefloat” (1970), que constitui a estreia discográfica da dupla, ainda sob a designação Organisation, a música é uma cacofonia com pretensões psicadélicas de sons eletroacústicos diretamente inspirados em Stockhausen. “Kraftwerk” (1970) e “Kraftwerk 2” (1972), com os pinos de sinalização na capa, deram início às obras. O som de guindastes e escavadoras, ferro em brasa, cimento e martelo-pilão. Metal já a chocar contra o metal, a fazer faísca e a exigir máscaras de proteção. Obras violentas, mais próximas do rock industrial e da música concreta do que da pop ou do rock, permanecem como exemplos do melhor “krautrock” da região industrial da Alemanha, a par dos Cluster e dos Neu!. Com uma ponta de humor: Julian Cope, no seu livro “Krautrocksampler” define uma das faixas de “Kraftwerk” como “os Stooges na Toys’R’us”.
“Ralf and Florian” (1973), mostra na contracapa uma foto da dupla rodeada de néons e instrumentos musicais. Álbum de transição, inclui uma “clusteriana” música de baile e uma sinfonia ambiental de cristais e ananases, “Ananas Symphonie”, que é provavelmente o refresco de ácidos mais refrescante a alucinogénico que o “Krautrock” destilou. A obra máxima seria editada no ano seguinte e tem por título “Autobahn”, “Auto-Estrada”. Depois dela, a pop mudou. O longo tema de abertura é a banda sonora, via auto-rádio sintonizado nas estrelas, de uma viagem de automóvel pela auto-estrada. No entanto, cuidado com as cabeças: as auto-estradas alemãs permitem velocidades que as portuguesas nem imaginam. O “wahn wahn wahn” do refrão soa como o “Fun fun fun” dos Beach Boys, fonte inesgotável de inspiração, num álbum de tração às quatro rodas que pôs os sintetizadores a cantar e os “tops” em polvorosa. As duas “Kometenmelodies” finais desenham um arco-íris de beleza estonteante no espaço sideral. Antes de darem ao pedal, os Kraftwerk lançavam-se em quinta velocidade num Mercedes rumo ao futuro. Mas foram os álbuns seguintes, “Radio-Activity” (1975), “Trans Europe Express” (1977), “The Man-Machine” (1978) e “Computer World” (1981) que transpuseram para a música a noção de miniaturização e máxima potência que caracterizou a indústria informática no último quarto de século e, consequentemente, a música eletrónica, sempre dependente dos avanços da tecnologia. Os Kraftwerk foram o “Pocket calculator” da pop eletrónica do século XX, resta saber se lhes caberá ainda algum papel no século que agora se inicia.

ohm sweet ohm. Entremos porém, com a devida autorização, no estúdio Kling Klang, onde os germânicos têm arrumados os seus fornos alquímicos de raios laser. Há esquemas e fórmulas colados nas paredes. Não é só a ligação dos nervos do homem a circuitos elétricos artificiais que interessava à dupla alemã. O cérebro pensa e ordena: viagem, comunicação, forma e substância, energia, transmissão/receção. “You are the transmitter, I am the antenna” é um dos “slogans”, tão divertidos como acutilantes, proclamados no álbum “Radio-Activity” (1975). E “when airwaves swing, distant voices sing”. “Radioland”, “Airwaves”, “The voice of energy”, “Radio stars”, “Uranium” e esse fabuloso trocadilho que condensa a fusão entre a espiritualidade tradicional e a energia das novas divindades-eletrões: “Ohm sweet ohm”. Dentro de um contador Geiger, fervilha um microuniverso de fantasias hollywoodescas. O mundo de máquinas dos Kraftwerk é uma Dysneylândia quântica de Pinóquios que se divertem a entrelaçar os fios de força de um campo unificado. A música é simétrica, mas os seus demiurgos apresentam-na como número de circo.
Se “Radio-Activity” ilustra a propagação da radioatividade e, deste modo, prepara a mutação, física e psicológica da Europa, “Trans-Europe Express” é a viagem de comboio que modificou o imaginário pop do Velho Continente. Um dos passageiros chamava-se David Bowie e saltou em andamento a tempo de gravar a “trilogia de Berlim” – “Low, “Heroes” (o tema “V-2 Schneider” é uma dedicatória a Florian Schneider) e “Lodger”. Sem este álbum seminal, já se sabe, nem a pop eletrónica nem a música de dança seriam o que são hoje. Sobretudo a tecno, a “house” e o eletro viciaram-se na batida totalitária – mas tão romântica – de “Europe endless”, “Metal on metal”, “Franz Schubert” e “Endless”. A repetição, a produção em série, a viagem circular sem princípio nem fim (o logótipo de “Europe endless” é um círculo fechado em forma de pauta). O super-homem nietzscheano espreitava na esquina. “Radio-Activity” e “Trans-Europe Express” retratam as novas formas de comunicação (“Electric Cafe” reconheceria a sua falência, como nessa trágica interrupção telefónica que é “The telephone call”). Outro filme, “Ao Correr do Tempo”, de Wim Wenders, não filma outra coisa. O digital vinha a caminho.
“The Man-Machine” é o emblema. Os kraftwerk desistem de uma vez do invólucro de pele e transformam-se em robôs. A bordo de uma máquina de realidade virtual, saltam para o espaço, evocando em temas como “Spacelab”, “Metropolis” (evidente a conotação com o filme de Fritz Lang) e “Neon Lights”, uma versão cibernética da valsa de Strauss em “2001-Odisseia no Espaço”, de Kubrick. “We are the robots” passaria a ser a declaração de identidade que jamais abandonariam.
“The Man-Machine” é o espaço exterior. “Computer World” mergulha no interior de um “chip” para revelar a realidade observada e filtrada através de um monitor. Aqui a comunicação é já a das máquinas e entre as máquinas, processada através de sinais linguísticos e números codificados (“Numbers”). “Computer world”, “Computer love”, “Home computer”. Somos nós, a olhar de dentro do PC, com os olhos muito abertos de espanto. “It´s more fun to compute”? Cada um que digite a resposta que mais lhe convier.
No último capítulo relevante da história dos Kraftwerk, “Electric Cafe” assume-se como uma paródia ao universo criado pelo grupo. Paródia extensiva à pop eletrónica, ou tecnopop, de que eles próprios foram os criadores. “Boing boom tchak”, ou as onomatopeias da idiotia levadas com um “smile” para as “dance floors”. Faltava apontar o rato e carregar em “desligar”. E ficar de parte a observar o curso dos acontecimentos. “The Mix” seria mera operação de limpeza e diversão e “Tour de France”, na presente versão longa-duração, contenta-se em ser uma deslizante manobra de “charme”, umas vezes em cura de sono “chill-out”, outras bem-humorada, à maneira dos Telex, grupo belga que, paradoxalmente, foi a versão mais fiel e clownesca do original Kraftwerk.
Como dois respeitáveis anciãos, Ralf Hütter e Florian Schneider passeiam-se hoje de bicicleta pela Baviera florida, observando o cenário de florestas, nuvens e montanhas com a placidez de turistas na reforma. Se com uma íris biológica ou através de lentes biónicas, eis o enigma que eles próprios fazem questão de não esclarecer.


KRAFTWERK
Tour de France Soundtracks

EMI, distri. EMI-VC
6|10





Dossier Alemanha – “O Século Da Eletrónica Kraut” (artigo de opinião)

21 de Julho 2000


Dossier Alemanha

O século da eletrónica kraut


Existe um elo a unir a música eletrónica alemã dos anos 70, 80 e 90. O krautrock cedeu o lugar à “neue deutsche welle” e esta aos atuais magos do “powerbook”. Os sonhos da “kosmische muzik” transformaram-se em pesadelos industriais e estes deram lugar a brincadeiras de crianças. Mas há quem nunca tenha perdido a última carruagem deste comboio. O PÚBLICO traçou o mapa dos principais músicos, conceitos, movimentos que ao longo das últimas três décadas, na Alemanha, desenvolveram novas relações entre o Homen e a máquina.



ANOS 70: O SONHO

Tínhamos ficado em meados dos anos 70, na Alemanha (ver “dossier” sobre Krautrock na edição do SONS de 7 de Maio de 1997). A eletrónica (pela via dos mestres “eruditos”, como Karlheinz Stockausen e Oskar Sala ou do space-rock-psicadélico excretado dos Pink Floyd de “Atom Heart Mother” e “Meddle”) mandava. Kraftwerk, Klaus Schulze, Tangerine Dream, Ashra, Faust, Can, Amon Düül II, Popol Vuh, Harmonia, Cluster, Yatha Sidhra, Mythos, Agitation Free, Eiliff, Wallenstein, Dzyan, Eroc, Achim Reichel, Embryo, Sand, Annexus Quam, Cornucopia, Brainticket, Cosmic Jokers viajavam pelos novos espaços abertos pelos osciladores e filtros LFO e VCF.
As palavras de ordem eram: Kosmische, freakout, psicadelismo, planante, cogumelos mágicos, jam, space rock, experimentalismo, zen, meditação, free rock, LSD, improvisação, alucinação, sintetizadores gigantescos usados também como elementos estéticos/decorativos, agit rock, romantismo, vida em comuna, underground, ficção científica…
Editoras principais: Ohr, Kosmische, Muzuk, Baccilus, Bellaphon, Brain, Kuckuk, Pilz, Sky.
Quando o punk rebenta em Inglaterra o krautrock agonizava já com o rock sinfónico e o hard rock FM de bandas como os Atlantis, Eloy, Birth Control, Message, Jane e Triumvirat. Os clássicos que resistiram e prosseguiram carreira traçavam o seu próprio caminho alheios aos movimentos e às correntes de estilo: os Tangerine Dream vendem milhões e batizam a new age; Klaus Schulze troca de equipamento e regula pela 346ª vez os seus sintetizadores para tocar o mesmo tema na sua viagem sem fim pelo cosmos; os Can hipnotizam-se a eles próprios e Holger Czukay é o único que se mantém acordado; os Popol Vuh meditam numa igreja; os Embryo descobrem o jazz e a world music; os Faust entram num período de hibernação de 20 anos; os Kraftwerk transformam-se em robôs e inventam o som da modernidade.
Mas era necessário fazer a transição do krautrock para os anos 80, acompanhando as novas revoluções da tecnologia, da sensibilidade e das ideias. Os principais transmissores do testemunho foram – depois da papinha ter sido toda feita pelos Neu!, punks “avant la lettre” – os La Dusseldorf, os Cluster e os D. A. F. Os La Dusseldorf fizeram a adaptação germânica da “new wave”, a chamada “neue deustche welle”, colando-lhe a batida electro-rock conhecida como “motorika”. Os Cluster abriram caminho ao “dark ambient” e ao industrialismo; os D. A. F. foram militantes do “disco” na versão sadomaso/militarista, escancarando as portas da cultura das discotecas. Uma última palavra de novo para os Cluster, que teriam de esperar mais uma década para verem o sentido lúdico da sua obra-prima, “Zuckerzeit”, ser reconhecido como absolutamente fulcral para o desenvolvimento de grande parte da produção eletrónica europeia dos nossos dias. Não estavam sós nesse papel: Kurt Dahlke, enquanto Pyrolator ou com os Der Plan, fazia com dez anos de antecedência a eletrónica brincalhona dos anos 90.

ANOS 80: A ENERGIA

Desbravado o território, o cinzento e o niilismo dos anos 80 abateram-se com violência sobre os novos “eletrónicos” alemães. A música industrial (preconizada de forma exemplar na década anterior pelos Kluster/Cluster, em todos os álbuns até “Cluster II”, pelos Kraftwerk até rolarem na auto-estrada, e por Conrad Schnitzler na solidão da sua obra a vermelho, em “Rot”) foi rapidamente assimilada e posta em prática, como sempre acontece com a maior parte dos músicos alemães, na sua vertente mais radical e experimentalista. Como os Einsturzende Neubauten e a sua declaração de intenções de destruição não só do rock como de toda a música em geral, à frente de todos os outros. Ao lado deles, Dieter Moebius, em paralelo com o seu trabalho nos Cluster, punha igualmente em funcionamento a sua própria indústria de metalurgia, com o auxílio da eminência parda Conny Plank.
Mas outros nomes emergem como pilares da eletrónica que vingou até aos nossos dias. Holger Hiller, vindo dos Palais Schaumburg, assina um trabalho, tão pioneiro como genial, de manipulação dos samplers. Holger Czukay investe com mais moderação na mesma área que corta a golpes de “dub”. Asmus Tietchens e Peter Frohmader perfilam-se ao lado de Conrad Schnitzler na elaboração de músicas sombrias que combinam as arquiteturas e o imaginário gótico com a maquinaria industrial e um ambientalismo do inferno que era o negativo da “cosmic music”. Michael Rother percorre a década a desenhar modelos românticos, adaptando a “motorika” a um “neo-easy listening” que mal se adivinhava nos dois principais grupos a que pertencera, os Neu! e os Harmonia. O segundo Cluster, Hans-Joachim Roedelius, hesita entre o piano impressionista, o ambientalismo de Eno e sonoridades mais experimentais.
Com menor projeção internacional, mas representativos de uma originalidade assumida a cem por cento, destacam-se ainda: Klaus Kruger (considerado por alguns o Brian Eno alemão), H. N. A. S. (Hirsche Nicht Aufs Sofa), Die Krupps, Die Todliche Doris (lançaram uma edição composta por sete minúsculos discos de brinquedo, onde esses discos podiam ser tocados…), Propeller Island, Hubert Bognermayer & Harald Zuchrader, Camera Obscura, Cranioclast, Michael Obst, Peter Schaefer, Sträfe Für Rebellion, Jörg Thomasius, Uludag, Harald Weiss, Die Vögel Europas.
Palavras de ordem: industrial, teatro, cabaré, maquilhagem, sintético, disciplina, uniforme, tecnologia, motor, bandeira, eletricidade, metal, vida na cidade, heroína, bizarro, máscara, homem-máquina, sampler, apocalipse.
Principais editoras: Ata Tak, Badland, Erdenklang, Innovative Communications, Sky, Warning, Zick Zack.

ANOS 90: O PRAZER

Tudo se vai, literalmente, misturar, nos anos 90. Logo no início da década, em 1991, os Kraftwerk cumprem pela última vez o seu papel de profetas, com o lançamento de “The Mix”. Pela primeira vez na sua música, a eletrónica, que durante duas décadas fora ensinada a emancipar-se no seio da música popular, nasce do reprocessamento e reciclagem de material antigo. Não é um ato de preguiça mas um ato de visão. Os Kraftwerk remisturavam os Kraftwerk. A música dos anos 90 remistura e remistura-se “ad infinitum”. Ralf Hutter e Florian Schneider tinham completado a sua obra. A partir daí o futuro deixaria de lhes pertencer.
O computador, utensílio musical por excelência da década de 90, mostrava nesse álbum o seu rosto de grande reciclador, produtor de clones infinitos, enumerador, arquivador, programador. A música abandonava o conceito de colagem (de que o sampler fora o derradeiro e absurdo instrumento musical humanista) para se abandonar à ideia de síntese.
Sínteses múltiplas de todas as músicas e de todas as tradições. É a era das “remixes”, das fusões outrora impossíveis, da aglutinação das experiências eletrónicas acumuladas nas quatro décadas anteriores. Trautoniums e theremins juntam-se aos Macs e PCs. O pós-rock junta os Moogs e ARPs analógicos às aparelhagens digitais. No fim, o powerbook (computador portátil) tudo domina e concentra nas suas mãos. Os grupos são alter-egos de um-músico-só. A eletrónica torna-se manipulação pura. Virtual. Mas haverá quem resista.
Ao grandes armazéns e fábricas dos anos 90 vem substituir-se o escritório. A eletrónica alemã, uma vez mais, vai tão longe quanto pode. “Grupos” como os Oval e Microstoria tomam conta dos sistemas de ar condicionado, dos scanners e das fotocopiadoras para criarem a banda sonora, já não dos “novos edifícios em colapso” dos Einsturzende Neubauten, mas de edifícios doentes, infetados pela poluição digital. Os suíços The User tomam o conceito à letra e compõem uma sinfonia construída a partir dos sons processados das entranhas de fotocopiadoras de agulha em funcionamento.
Mas, à semelhança do que aconteceu nas décadas de 70 e 80, a eletrónica alemã diverge em vários ramos. Três editoras em particular representam outras tantas tendências em vigor: a-musik, Mille Plateaux e a mais recente Storage Secret Sounds. No site da Mille Plateaux encontramos catalogações de estilo como “clickhouse”, “electronic listening”, “abstract hip hop”, “Elektroakustik”, “Noise” e “Musique concrete”. Pratica-se uma estética abstrata, conceptual, sistemática. Não sobram motivos de diversão nem para sorrir, mas , ao invés, para sofrer e ter medo. É a casa dos “powerbooks” de cenho fechado, dos estalidos de estática, das frequências puxadas até ao limite do inaudível, das programações sem piedade. No seu catálogo da net a música de um dos álbuns dos “operadores de escritório” Microstoria (de Markus Popp e Jan St.Werner) é definida simplesmente como “digital processing”, de resto um dos “géneros” preferenciais desta editora. A música já não como obra composta mas como o próprio processo “a priori”. A Mille Plateaux tirou a camada de tinta de cima da “man machine” dos Kraftwerk até deixar à vista apenas a estrutura de metal, como acontecia a Arnold Schwarzenegger em “O Exterminador Implacável”, título que poderia bem aplicar-se aos propósitos ideológicos e musicais da Mille Plateaux.
Principais nomes desta editora: Microstoria, Curd Duca, Gas, Terre Thaemlitz, SND, Porter Ricks, Christian Vogel, Pluramon.
A este reino do terro contrapõe-se a a-musik, uma tendência que ameaça tornar-se dominante. Aqui a eletrónica redescobre o prazer do som, das brincadeiras infantis, das programações Lego, das “private jokes”, das carícias dos ritmos e das melodias de carrossel. E do prazer que deriva, não da manipulação, mas do “velho” ato de “tocar”. Alguém na a-musik tinha guardados em casa “Zuckerzeit” dos Cluster e “Wonderland” dos Pyrolator e com esses dois discos construiu um mundo.
A a-musik surgiu na sequência da fusão de dois projetos: o coletivo de música industrial Kontakta, do qual faziam parte Christian Schulz e Frank Dommert, dos H.N.A.S., e a editora Erflog, fundada, entre outros, por Schulz, Dommert e Marcus Schmicker, dos Oval. Com a intenção de fazer “música industrial sem as imagens de atrocidade”, “techno sem o funk”, “new wave sem os penteados ridículos” e “eletro-acústica” sem a acústica”.
Principais nomes desta editora: F.X. Randomiz, Holosud, L@n, Sator Rotas, Schlammpeitziger, Felix Kubin.
Esta faceta lúdica é levada às últimas consequências na Storage Secret Sounds, no seio da qual artistas como Feliz Kubin (fica aqui melhor instalado do que na a-musik…), Nova Huta e Mikron 64 de deliciam a brincar numa cerca para bebés com plasticina, ursos de peluche e carrinhos de corda, e a ler histórias aos quadradinhos. A única regra é a do passeio pela feira popular. Feliz Kubin faz desenhos animados acústicos, histórias de BD para os ouvidos. Os Nova Huta (de Oleg Kostrow que não é alemão mas russo…) embrulham o easy-listening na banda sonora de um filme-negro e acompanham com uma orquestra sinfónica. Os Mikron 64 apanham o automóvel a technopop e programam melodias infantis em microcomputadores da primeira geração.
Outros nomes importantes: Arovane, Atom Heart, Bernd Friedmann, Bluthsiphon, Fetisch Park, Funkstörung, Konrad Kraft, Pole, Rechenzentrum, Sack & Blumm, Schneider TM, Sciss, Soul Center, Tele:Funken, Thomas Köner, Tied+Tickled Trio, Workshop.
Na Áustria cabe um papel importante aos Orchester 33 1/3, agora separado nas suas duas principais parcelas: Christian Fennesz e Christof Kurzmann, este último sob o pseudónimo B. Fleischmann. A editora que fundaram, a Plag Dich Nicht, transformou-se na Charhizma, para onde também gravam os Shabotinski.
No meio da confusão, alguns dos “velhos” continuam imperturbáveis: os Faust, ressuscitados pela mão de Jim O’Rourke, tornaram-se ainda mais os maus da fita, destruindo e incendiando os palcos por onde passam. Moebius prossegue nos Ersatz o seu percurso inigualável. Roedelius compõe sinfonias de eletrónica bizarra. Os Neu! e os La Dusseldorf fundiram-se na entidade coletiva dirigida por Klaus Dinger sob o genérico La! Neu?. Holger Czukay continua a esburacar. O espírito do “krautrock” revive nos Space Explosion, supergrupo formado por Moebius (Cluster), Mani Neumeier (Guru Guru), Jürgen Engler (Die Krupps), Chris Karrer (Amon Düül II) e Zappi Diermaier e Jean-Hervé Peron (ambos dos Faust). Quanto aos Einsturzende Neubauten, garantem que o silêncio é sexy e compões canções de amor…

10 álbuns dos anos 80

D.A.F. Gold und Liebe (1980)
EINSTÜRZENDE NEUBAUTEN Halber Mensch (1985)
HOLGER CZUKAY On the Way to the Peak of Normal (1980)
HOLGER HILLER Oben im Eck (1986)
KRAFTWERK Computer World (1981)
MOEBIUS & PLANK En Route (1986)
DER PLAN Es Ist ein Fremde und Seltsame Welt (1987)
PROPELLER ISLAND The Secret Convention (1988)
PYROLATOR Wonderland (1984)
DIE VÖGEL EUROPAS Best Before (1989)

20 álbuns dos anos 90

B. FLEISCHMANN Pop Loops for Breakfast (1999)
ERSATZ Ersatz II (1992)
FUNKSTÖRUNG Appetite for Destruction (2000)
F. X. RANDOMIZ Goflex (1997)
HANS-JOACHIM ROEDELIUS Sinfonia Contempora No. 1 (1994)
HOLOSUD Fijnewas Afpompen (1998)
KONRAD KRAFT Alien Atmospheres (1996)
KREIDLER Appearance and the Park (1998)
L@N L@n (1996)
MICHAEL ROTHER Esperanza (1996)
MOUSE ON MARS Iaora Tahiti (1995)
ORCHESTER 33 1/3 Orchester 33 1/3 (1997)
SCHLAMMPEITZIGER Spacerockmountainrutschquartier (1997)
SHABOTINSKI (B)ypass (K)ill (1999)
TELE:FUNKEN A Collection of Ice Cream Vans vol.2 (2000)
THOMAS KÖNER Nunatak Gongamur (1990)
TIED & TICKLED TRIO EA1 EA2 (1999)
TO ROCOCO ROT CD (1996)
WORKSHOP Meiguiweisheng Xiang (1997)

Rococós

Começou por ser o nome de uma galeria de arte de Berlim, dirigida pelos irmãos Ronald e Robert Lippok, antes de se tornar o nome de um dos grupos mais interessantes e criativos da nova eletrónica alemã: To Rococo Rot. Os dois decidiram começar a fazer música chamando um terceiro elemento, Stefan Schneider, de outra banda recém-formada, neste caso oriunda de Dusseldorf, os Kreidler. Da primeira sessão realizada pelos três resultou o álbum “CD”, de 1995, uma coleção de sons eletrónicos plenos de força e originalidade, onde eram detetáveis as influências dos Can e de Dieter Moebius, dos Cluster. Ronald Lippok integrava ao mesmo tempo os Tarwater enquanto o seu irmão se dedicava a trabalhos de remistura e djing. Em “Veiculo”, segundo álbum dos To Rococo Rot, o som e as batidas tornam-se mais suaves, numa transição semelhante à dos Kraftwerk, de “Ralf and Florian” para “Autobahn”. Colaborações com Move D, da Source Recods, e D, da Soul Static, culminam na participação do DJ I-Sound numa das faixas do terceiro álbum da banda, “The Amateur View”.

Marcianos

Entre os inúmeros nomes da nova escola eletrónica alemã destaca-se o dos Mouse on Mars, dupla composta por Andi Toma (natural de Colónia) e Jan St.Werner (Dusseldorf). Cedo abandonaram a cena techno para se concentrarem na produção de sonoridades eletrónicas mais abstratas mas não menos desprovidas de “groove” que alternam o paisagismo alucinado e programações ora raivosas ora subliminares, nas quais são percetíveis as marcas deixadas pelos Cluster e pelos Kraftwerk. Eles gostam de citar igualmente os Can e os Neu!, com os quais dizem ter aprendido a “usar instrumentos ‘vivos’ como a guitarra, o baixo e a bateria”. Mas quem já os viu atuar ao vivo pode verificar que os instrumentos “vivos” que Andi e Jan utilizam estão mais de acordo com o espírito dos anos 90: um emaranhado de circuitos e dispositivos eletrónicos dispostos sobre uma mesa de trabalho a partir dos quais os dois alemães constroem uma barreira sónica que vai da hipnose ao massacre, do minimalismo brutal a cadências “clusterianas” em suspensão. Para ouvir com urgência são os álbuns “Vulvaland”, as danças mentais do novo “Niun Niggung” e, sobretudo, o disco que entrará para os anais do novo electrokraut, “Iaora Tahiti”.

NOTA (do SONS – dia 28 Julho): Algumas correções relativas ao texto “Um Século de Eletrónica Kraut” publicado na última edição do Sons. É Markus Popp o mentor dos Oval e não Marcus Schmickler, elemento dos Pluramon e “alter ego” dos projetos Wabi Sabi e Sator Rotas. Os The User compuseram uma sinfonia eletrónica, não para fotocopiadoras, mas para impressoras de agulha. Finalmente, Oleg Kostrow não faz parte dos Nova Huta.



Raymond Scott – “Manhattan Research Inc.”

28 de Julho 2000
REEDIÇÕES


Scott, o explorador

Raymond Scott
Manhattan Research Inc. (10/10)
2xCD Basta, distri. Ananana



Peter Buck, dos R.E.M., Adrian Utley, dos Portishead, Cornelius, Y. Konishi, dos Pizzicato Five, Holhger Czukay, Eric Harris, dos Olivia Tremor Control, Matt Black, dos Coldcut, e John Zorn contam-se entre os músicos que ficaram de cara à banda ao ouvirem “Manhattan Research Inc.”. Conhecido sobretudo pelo seu trabalho na área do jazz, através das gravações dos anos 30 e 40 com o seu Quintette, recentemente recriadas de forma admirável pela banda holandesa The Beau Hunks, Raymond Scott desenvolveu a partir da década seguinte um trabalho notável no domínio da criação tecnológica, composição e execução de música eletrónica.
Se “Soothing Sounds for Baby”, uma trilogia de música eletrónica destinada a crianças “Kraftwerk for kiddies”, como alguém lhe chamou) revelava já uma mente fervilhante e uma atitude pouco convencional na abordagem desta área musical, a presente antologia confirma o seu autor como um génio excêntrico e um criador visionário que – percebe-se agora com toda a nitidez – antecipou em quase meio século correntes como o pós-rock ou as “funny electronics” de bandas como os Messer Fur Frau Muller e Nova Huta.
“Manhattan Research Inc.” era o nome de um imenso estúdio espalhado por 32 divisões (“um labirinto eletrónico”, nas palavras de Alan D. Haas, da revista “Popular Electronics”) onde Raymond Scott dava livre curso à sua criatividade delirante. “Mais do que uma fábrica de pensamento, uma central de sonhos onde a excitação do amanhã se encontra disponível já hoje”, como o compositor se lhe referia. Foi neste complexo de aparência e conteúdo futuristas que Scott desenvolveu e utilizou de forma brilhante instrumentos por ele próprio inventados, como o “Clavivox”, a “Circle Machine”, o “Bass Line Generator”, o “Rhythm Modulator” e o mítico “Electronium” (a “máquina de composição instantânea”), mas também o “Karloff” (onde elaborava os sons mais assustadores…) e… o “Bandito the Bongo Artist”.
Com estas máquinas, o seu humor e o seu talento desmesurado construiu Raymond Scott uma obra diversificada e inclassificável, que aqui se reúne pela primeira vez em disco, num conjunto de 69 composições que vão 1953 a 1969. Desde jingles publicitários (Nescafé, Vicks, Sprite, Companhia de Gás e Eletricidade de Baltimore, IBM, etc.), a música para desenhos animados (“County fair”, de 1962, na verdade o único tema composto por Scott para “cartoons”, embora as pessoas o associem a este tipo de cinema e a sua música tenha, sem dúvida, sido aproveitada por Carl Stalling, compositor oficial dos “cartoons” de Tex Avery para a Warner Bros…) ou ainda a banda sonora da instalação “Futurama” construída e idealizada pela General Motors para a Feira Mundial da Nova Iorque de 1964, a par de composições mais conceptuais que abrangem a pop sintética, música industrial e colaborações com Jim Henson, criador dos Marretas.
A apresentação é admirável e inclui um livro de 144 páginas onde pode ser lida uma entrevista com Robert Moog, inventor do sintetizador com o seu nome que fez furor nos anos 70. Moog não hesita em declarar que Scott esteve “na vanguarda do desenvolvimento da tecnologia e do seu uso comercial em termos musicais”. Fotos inéditas, planos do estúdio/laboratório e registos de patente são outros dos itens incluídos no livro.
A emoção imediata provocada pela primeira audição de “Manhattan Research Inc.” é o espanto. Por verificar a incrível atualidade e modernidade não só dos sons com da música de Raymond Scott. Um tema como “Bendix 1: the tomorrow people” revela num ápice a fonte, então obscura, onde os Negativland foram buscar inspiração. E os Stereolab já não podem de igual forma esconder que ouviram a música do compositor norte-americano e – com base em peças desta antologia como “Backwars overload”, “The rhythm modulator”, “Cindy electronium” ou “The pygmy táxi corporation” – qual o compêndio onde foram buscar os títulos para as suas canções.
“The rhythm modulator” transforma o estúdio inteiro num gigantesco maquinismo de relojoaria. Robert Moog ficou siderado quando ouviu. “Lightworks” é “Música no Coração” misturada com “lounge” do séc. XXI. Os eletrotropicalismos de Atom Heart são ofuscados por “Vim”, “Sprite” faz borbulhas num cenário da era espacial. “Limbo: The organized mind” utiliza música concreta na recriação da atmosfera de um filme negro transposta para um enredo alucinatório que descreve o modo de funcionamento do cérebro de Limbo, a personagem principal, com as suas fantasias, memórias e medos. Filme realizado e aqui com a narração de Jim Henson.
Os Residents não fariam melhor.
Descobrem-se em “Manhattan Research Inc.” “easy-listening” assobiado no tapete da Via Láctea, uma assombrosa sinfonia eletro-industrial, “IBM MT/ST: The paperwok explosion” (os Negativland fizeram anos mais tarde explodir as suas próprias bombas em “Car bomb”, do álbum “Escape from Noise”, por sinal acabado de reeditar pela Seeland, com uma nova capa e uma gravação, “exacto-mastered”, exatamente igual à da anterior reedição na SST…), melodias e efeitos eletrónicos que deixam os Kraftwerk de rastos e uma coisa assustadoramente experimental, se pensarmos que foi feita em 1968, intitulada “Backwards overload” que pretende ser o equivalente eletrónico de uma guerra nuclear! “Night and day”, de Cole Porter, renasce sob a forma de pop eletrónica.
O segundo CD, com composições mais recentes dos anos 60, é mais melódico e, nalguns casos, “romântico”, com uma utilização sistemática dos ritmos eletrónicos, elaborados noutro aparelho inventado por Scott cujas capacidades em nada ficavam a dever aos atuais sequenciadores. Emulações da “música clássica em sintetizador” de Walter Carlos, mas “easy listening” da era espacial (“Portofino”). O “esmagamento” dos Kraftwerk dos dois primeiros álbuns confirma-se em “The wild piece”, de 1969, outra peça de inacreditável originalidade produzida na íntegra no Electronium.
A “dark ambient” emerge em “Cyclic bit”. “Ripples”, de 1966, bate aos pontos os To Rococo Rot. Uma segunda versão de “County fair” e “Cindy electronium” destroem o mito do pioneirismo de “Zuckerzeit” dos Cluster. Ouvir para crer!
Mas quaisquer definições e comparações ficam aquém do que “Manhattan Research Inc.” realmente é e representa: uma obra visionária onde se inscrevem praticamente todas as tendências do presente e a consagração definitiva de um dos génios da música eletrónica deste século.