Arquivo da Categoria: Críticas 1996

The Chieftains – “Santiago”

POP ROCK

23 de Outubro de 1996
world

Irlanda em louvor a São Tiago

THE CHIEFTAINS
Santiago (9)
BMG Classics, import. Disco 3


chief

Nos últimos anos e nos últimos álbuns, os Chieftains transformaram-se em predadores. Se o repasto resultou em indigestão, no anterior “The Long Black Veil”, em “Santiago” a refeição tem o requinte cerimonial de uma festa de Babette. “Santiago” está para a música da Galiza como “Celtic Wedding” estava para a música da Bretanha. Um e outro são, como explica o, hoje, líder incontestado da banda, Paddy Moloney, a tentativa de captação de uma essência. Em termos práticos, “Santiago” resultou dos múltiplos espectáculos e digressões realizadas em conjunto com Carlos Nuñez (“por vezes, quase podia ser considerado o sétimo elemento dos Chieftains”) pelos mais diversos locais do globo. Nuñez funciona como um guia e um catalisador, sendo ele quem, actualmente, conduz os Chieftains à redescoberta de uma “juventude” que ameaçava definhar nos verdes “reels”, mil vezes revisitados, da Irlanda.
“Santiago” é pois uma peregrinação, não só a Compostela como ao mítico centro universal do mundo celta. Estão em voga projectos deste tipo. Basta recordar a ainda fresca “A Irmandade das Estrelas”, de Carlos Nuñez, precisamente sobre idêntica temática. Igualmente em voga está uma perspectivação da música tradicional segundo cânones que remontam à Idade Média, constituindo uma novidade o modo como os Chieftains vão ao encontro desta tendância, aqui maravilhosamente exemplificada na parte inicial de “Arku – dantza/Arin-arin” (na segunda, pode escutar-se a “trikitixa” de Kepa Junkera), “El besu” e, ainda com maior profundidade, em “Dum paterfamilias/Ad honorem”, do Códice Calixtino, gravado ao vivo no convento de San Paio de Antealtares, em Santiago de Compostela, com o coro Ultreia, três das cinco partes que compõem a “suite” “Pilgrimage to Santiago”. A quarta, “Não vás ao mar, Toino”, tem a de há muito aguardada participação de Júlio Pereira, no cavaquinho.
A partir daqui, o percurso alarga-se, saltando da Galiza para o México, em “Guadalupe”, com as participações de Linda Ronstadt e Los Lobos, e Cuba, em “Santiago de Cuba” e “Galleguita/Tutankhamoen”, ambos com a participação de Ry Cooder. A Galiza sacra e tradicional surge em todo o seu esplendor numa “Galician overture”, composição orquestral escrita por Paddy Moloney para a Xoven Oquestra de Galicia, que se estende através da Irlanda, Escócia e Bretanha. Mais do que uma homenagem, um cerimonial iniciático, dos mais sublimes alguma vez oficiados na catedral dos Chieftains.
Para os apreciadores da velocidade e de duelos, “Santiago” tem para oferecer o “combate” entre dois gigantes da gaita-de-foles, Paddy Moloney “contra” Carlos Nuñez, em “Dueling chanters”. O vencedor, cabe ao auditor decidir… “Minho waltz” é um tema de inspiração minhota da autoria de Matt Molloy, onde este deixa patente o seu virtuosismo e “Tears of stone” um momento de introspecção, no diálogo entre “tin whistle” de Carlos Nuñez e a harpa de Derek Bell.
O encontro da Irlanda com a Galiza fica selado a fogo no derradeiro “Dublin in Vigo”, uma sessão ora delirante, ora comovente (aquela comoção que só o álcool torna plausível…) em forma de “medley” galaico-irlandês, gravada ao vivo num “pub” de Dublin à cunha, após um concerto em Vigo, com a participação de toda a gente, incluindo cantores e bailarinos galegos. Como costuma acontecer nestas ocasiões, os nossos vizinhos tomaram, por assim dizer, conta da ocasião. Pura excitação. Música no seu estado mais puro.
E assim, em Compostela ou em casa, no templo ou no “pub”, os Chieftains conquistaram o sete-estrelo a Eternidade.



Any Old Time – “Crossing”

POP ROCK

16 de Outubro de 1996
world

Any Old Time
Crossing
DARA, DISTRI. STRAUSS


aot

Outro só para os adeptos. A questão, em termos de crítica, coloca-se em termos simples: para aquela camada de público já familiarizada com a linguagem e as diversas tipologias da música tradicional irlandesa, só existe um método de aferição da qualidade (ou falta dela) de uma determinada obra; a audição. Como no jazz, com os seus subestilos particulares, não é o domínio do virtuosismo técnico ou da escolha de reportório que faz a diferença, mas sim a sensibilidade, a maior ou menor capacidade de expressar algo que, no caso da música tradicional, tem raízes no colectivo. E essa capacidade expressiva só a sensibilidade e a intuição do auditor permitirão uma avaliação qualitativa, que, em qualquer caso, nunca radicará na análise. Assim se compreende que o leigo arrume toda a música tradicional irlandesa no mesmo saco, apanhando as formas – por regra de elevado nível, tal como no jazz – sem lhes apreender o fogo. “Crossing” é mais um disco de “Irish traditional music”, sem nada de especialmente inovador que o distinga de dezenas de outros. Com base em material oriundo condados de Cork e Galway ou do “midwest” norte-americano, o trio composto por Matt Cranitch, na rabeca, Dave Hennessy, no “melodeon” (variante de concertina) e Mick Daly, voz, guitarra e banjos, faz, com apreciável dose de interiorização, a reinterpretação, em moldes clássicos, de “reels”, mazurkas, polcas, “jigs” e “barndances”, suavizados por canções com sabor a emigração e a distância, com raízes no legado de gente antiga e ilustre como Pete Seeger, Woody Guthrie e Tom Paxton. Não dá para grandes parangonas mas, lá está, haverá provavelmente um cantinho para ele na estante do adepto. (7)

Vai De Roda – “Polas Ondas”

POP ROCK

16 de Outubro de 1996
world

As ondas de estranho nome

VAI DE RODA
Polas Ondas (10)
Alba, distri. MC – Mundo da Canção


vdr

No início, é um poema de Rosália de Castro, “Follas Novas”. Os mesmos versos que inspirara os Milladoiro, em “As Fadas de Estraño Nome”. Elas, as fadas, e “cores de transparência húmida”, fundiram a Galiza e o Porto, esse “glaciar de granito que desce até ao Douro”, num álbum de águas, fogueiras, maquinismos e danças. “Polas Ondas” é o terceiro álbum dos Vai de Roda, projecto de Tentúgal, um universo próprio tão mergulhado nos sonhos do seu autor quanto distante de quaisquer abordagens convencionais na recriação da música tradicional, neste caso portuguesa e galega. Não se procure em “Polas Ondas” nem reproduções de museu nem angústias de utópicas fidelidades a linguagens que o tempo se encarregou de devorar. O vínculo dos Vai de Roda e do seu mentor com a tradição processa-se pelo lado do mito, do simbolismo iniciático, da fusão dos sons com a memória.
É um álbum de contradições assumidas, de enigmas, de extrapolações mágicas. O som é o do búzio (símbolo e instrumento da música imaginária do mar que escutamos a borbulhar no nosso inconsciente) e das ondas electrónicas do sintetizador. A capa sobrepõe uma imagem marítima (uma rede de pesca) à cor do sangue. Tentúgal é um “louco”, no sentido “tarotiano” do termo. Um buscador de unidade que não hesita em se quedar diante do abismo. Neste seu terceiro trabalho, cruzou Álvaro de Campos com contradanças e fanfarras e António Silva Leite (1759-1833), Afonso X, “o Sábio”, com um aluno seu de 11 anos, Vasco Bruno, numa leitura da tradição galaico-portuguesa que, em termos estéticos e de produção, está mais próxima de projectos galegos de fusão paralelos (Armeguin, Milladoiro, Luar na Lubre) do que das coordenadas portuguesas mais comuns.
Da Galiza, desceram polas ondas, a cantora Uxia (que em “A roupa do marinheiro” rubrica uma das suas interpretações mais tocantes de sempre) e Xúlio Vilaverde. Do lado português estiveram na Roda, Abílio Santos, Cristina Martins, Helena Soares, Sérgio Ferreira, Eduardo Coelho e Jorge Lira, o “irlandês”…
Gaivotas, o mar, percussões do longe, arcos afagando violinos e violoncelos, abrem alas à gaita-de-foles e à sanfona, em “Polas ondas”, o tema cinco vezes recorrente que dá sentido a uma nova música de câmara, com raízes na música tradicional, que parece querer fazer escola entre nós. Um terreno que se encetou com “Terreiro das Bruxas”, anterior trabalho dos Vai de Roda, prosseguiu com o disco de estreia dos Realejo e agora culminou em “Polas Ondas”.
Álbum de recriação de ambientes relacionados, mais do que com os espaços, com um tempo mítico e imemorial, “Polas ondas” compõe pequenas odes à imaginação, num “puzzle” construído sob a forma de labirinto. Um disco de estações, de divisões de um extenso palácio onde em cada uma é possível escutar um eco. Seja numa contradança, no gemido de um velho sem idade ou na música antiga – medieva de “Rosa das rosas” de Afonso X, ou renascentista, de “Floripes na terra chã” –, dando à costa em sintetizadores, seja na serenidade “new age” alando numa harpa, ou numa Irlanda chegando-se numas “uillean pipes” à Terra anterior à divisão, “Finis Terrae” – porto de uma nova idade além-mar.
Ondas são as do mar, do movimento do verde das folhas das árvores batidas pelo vento, das nuvens e, talvez mais, da mente, essas águas eternamente fluindo nos domínios da Grande Mãe.
Não se abarca “Polas Ondas”de uma vez só, se alguma vez for possível abarcar a dimensão do sonho. Repetimos, não é música tradicional, mas uma viagem, musical e poética, através de um povo e de uma cultura recuperados, redimidos e recriados pela visão de Tentúgal: visão universalista, excessiva, receptiva a todas as vozes, mas milagrosamente unida por fios invisíveis que ligam o coração à vontade, o sopro ao barro. Ouviremos em “Polas Ondas” tão fundo quanto formos capazes de nos ouvir. A Roda mergulhou “nas ondas para um outro cais”. Se Fausto traçou, em “Por este Rio acima”, a rota de uma viagem de navegação, de regresso à nascente, os Vai de Roda – nos antípodas da perspectiva de ruptura proposta pelos Gaiteiros de Lisboa – levaram-na a bom porto, pelas ondas, por cima do mar, conduzindo a música portuguesa ao Outro lado. Um clássico.