Arquivo da Categoria: Críticas 1996

Kate and Anna McGarrigle – “Matapedia”

POP ROCK

16 de Outubro de 1996
world

Kate and Anna McGarrigle
Matapedia
HANNIBAL, DISTRI. MVM


kate

As irmãs McGarrigle formam um par importante da música acústica de sabor doce, sendo os seus álbuns tanto melhores quanto melhor conseguem integrar o elemento de estranheza proveniente das diversas tradições musicais do Quebeque em que mergulham as suas raízes, em particular a elegância directamente herdada da influência francesa. Algo que tornou “Dancer with Bruised Knees” e “The French Record”, respectivamente de 1977 e 1981, em clássicos. Kate e Anna já trabalharam com Richard e Linda Thompson, Albion Band, Chieftains, Gilles Vigneault, Emmylou Harris e Daniel Lanois. As suas relações mais recentes incluem Joan Baez, convívio do qual parecem ter aproveitado algumas lições menos desejáveis. Em “Matapedia” (designação de uma cidade do Quebeque), álbum que quebra um intervalo de silêncio discográfico de seis anos, não desapareceram nem as típicas harmonias que se banham de forma fantasmagórica nos pântanos da música “cajun” ou nas baladas da tradição franco-canadiana dos Apalaches, nem o registo intimista que é timbre das irmãs. Só que a esta ligação não interrompida com a “folk” corresponderam desta vez algumas cedências de sabor mais “mainstream”. Estão neste caso o título-tema, em termos rítmicos, uma cópia bastante fiel de “Mrs. Robinson”, de Simon e Garfunkel, e o tema seguinte, “Goin’ back to harlan”, que funciona como se tivesse sido segredada por Joan Baez. Ultrapassado, porém, este pequeno impasse inicial, “Matapedia” não pára de inocular o seu “charme” perfumado, obrigando a uma e outra audição. “I don’t know”, “Hang out your heart”, “Arbre” (única vocalização em francês), “Jacques et Gillies”, “Why must we die” (um “hit” em qualquer região fantasma que se preze…), “Talk about it” (Laurie Anderson na folk?…) e “The bike song” estão ao melhor nível do duo. Quem procura os lugares por onde Sandy Denny andaria se ainda fosse viva deverá encontrá-los aqui. Um aquário de água doce onde nadam pequenos peixes perdidos. (7)



Évasion – “Cantos do Mundo”

POP ROCK

16 de Outubro de 1996
world

Évasion
Cantos do Mundo
ED. EL TATU


ev

As meninas cantam. E bem. São todas filhas de emigrantes, duas delas de pais portugueses. Por esse motivo, as Évasion acrescentaram, nesta reedição aumentada do álbum “Vous et Nous…”, três temas cantados em português, “O ladrão”, um original dos Madredeus (aqui com a companhia de Tim, dos Xutos e Pontapés), o tradicional “Anda cá, Manuel” e “Grândola, vila morena”, de José Afonso. O método das Évasion é simples: ouvem a maior quantidade possível de polifonias vocais de todo o mundo, escolhem as que gostam mais e procuram reproduzi-las o mais fielmente possível. São, por este motivo, uma espécie de catálogo, uma viagem barata pelos folclores do planeta, empreendida com razoável discernimento, apesar da ausência de um enquadramento que permita entender estes “Cantos do Mundo” como a integração da “world music” numa visão personalizada (como acontece com as Zap Mama), e não como uma colecção aleatória de temas avulsos. Importa, no entanto, realçar a pouca idade dos elementos do grupo, espantando, por isso, a maturidade das interpretações e a intuição revelada na diversidade de registos exigidos pelas várias tradições. As Évasion possuem a ginástica vocal e o bom gosto, condições que lhes permitirão, a curto prazo, atingir um patamar ainda mais elevado. Para já fica o gozo do passeio pelas polifonias do Louisiana, África do Sul, Japão, Bulgária, Córsega, Catalunha, Hungria, Argélia, Nápoles, Haiti, Geórgia e Oceânia, além dos três temas cantados em português. A capa é um horror, sendo de toda a conveniência ignorá-la, sob pena de se cercear pela raiz qualquer possibilidade de evasão. (7)

Carlos Nunez – “A Irmandade das Estrelas”

POP ROCK

9 de Outubro de 1996
world

Ovo estrelado

CARLOS NUÑEZ
A Irmandade das Estrelas (6)
BMG Ariola, distri. BMG e import. Disco 3


cn

Nos festivais internacionais para que é, com frequência crescente, convidado, Carlos Nuñez eclipsa geralmente toda a concorrência, rendida ao seu quase sobrenatural virtuosismo – como aconteceu, inclusive, em Portugal, quando da sua apresentação na última edição do Intercéltico do Porto. O músico galego é, de facto, um predestinado, atingindo níveis de desempenho, na “gaita” ou no “tin whistle”, verdadeiramente de excepção. Esta evidência não apaga, no entanto, o pouco acerto que tem presiddido ás suas opções musicais, das quais o folk(?)-rock-“reggae” dos Matto Congrio constitui no exemplo mais gritante pela negativa. É verdade que a dimensão e o estatuto internacionais entretanto alcançados pelo músico galego porventura o impedem de se dedicar a uma música eventualmente mais do agrado dos puristas mas cujo destino mais provável, em termos comerciais e no terreno do “mainstream”, onde hoje se movimenta, seria o fracasso.
“A Irmandade das Estrelas” não resolve a questão, embora procure ultrapassá-la através da fórmula, dispendiosa, do recrutamento do maior número possível de “estrelas”, conferindo, neste caso, ao título, um segundo sentido que apenas desvaloriza o seu conteúdo iniciático. Da lista de lustres da irmandade fazem parte os Chieftains (Paddy Moloney é o padrinho aceite por Carlos…), Ry Cooder, os Nightnoise (de Triona e Michéal Dhomhnaill), a Vieja Trova Santiaguera cubana, o grupo de vozes e pandereteiras Xirabela, Amancio Prada e o guitarrista de flamenco Rafael Riqueni. E os portugueses Dulce Pontes, Paulo Jorge e Yuri Daniel, em “Lela”, uma serenata de Santiago de Compostela que toca no fado de Coimbra. Um ovo estrelado com excesso de condimentos. Obra e pretensões universalistas, como se vê, na linha dos fundamentalismos célticos agora tão em voga, que procuram estender o círculo druídico a todas as épocas e lugares.
No meio de tantas manobras de conquista, quase se escondem num outro mundo – menos iluminado por “estrelas” mas enraizado numa genuína ligação da terra ao firmamento – as vozes solitárias, de Luz Casal, em “Negra sombra”, e colectivas, das Xirabela, em “Cantigueiras”. Carlos poderia fazer sozinho o foguetório, acendendo as velas nos lugares mais altos do tecnicismo e do bom-gosto. Assim, deite quem quiser os foguetes e apanhe as canas deste arraial de gente fina que, sem chegar aos calcanhares da obra de referência neste capítulo, a “Symphonie Celtique”, de Alan Stivell, deixa a milhas de distância a pastelada, não menos megalómana e com idênticos propósitos, de Dan Ar Bras, em “L’Heritage des Celtes”.