Arquivo da Categoria: Críticas 1996

Steeleye Span – “Time”

Pop Rock

29 de Maio de 1996
world

Steeleye Span
Time
PARK, DISTRI. MEGAMÚSICA


ss

Vá lá, dêm um voto de confiança aos velhotes. Em “Time”, os Steeleye Span, pioneiros do “folk rock”, tentam a todo o custo recuperar o tempo perdido em recentes tropeções por uma “modernidade” que não casa bem com a sua figura de gerontes. A esta ginástica de reconversão da anterior reconversão, que permite ao grupo de Maddy Prior e Peter Knoght manter-se acima da linha de água, passados tantos anos de bons e alguns (poucos) maus serviços, deve acrescentar-se o regresso da filha pródiga Gay Woods, 26 anos depois de ter abandonado o grupo após a gravação do álbum de estreia “Hark! The Village Wait”. As duas põem a conversa em dia em duetos que fazem todo o encanto deste álbum, a excelência e a prática nunca interrompida da grande senhora Prior com a rudeza, mas também um singular tom naturalista e “naif”, de Woods, que finalmente pôs cobro a um quarto de século de vida doméstica, trocando-a pelas canseiras da vida “on the road”. Em 1996, os Steeleye Span já não revolucionam nada, como revolucionaram a “folk” inglesa ao lado dos Fairport Convention e dos Pentangle, à entrada dos anos 70, mas podem orgulhar-se de terem conseguido recuperar a frescura e a dignidade que tinham perdido pelo caminho. Temas como “The old maid in the garrett”, “Underneath her apron”, “The cutty wren” e “Corbies” estão ao nível dos clássicos do grupo, acreditem. Talvez o tempo esteja de novo favorável para eles. (7)



Ray Lema – “Green Light”

Pop Rock

29 de Maio de 1996
world

Ray Lema
Green Light
BUDA, DISTRI. DARGIL


Ray Lema – “Green Light”

Há um certo preconceito que pretende que toda a música composta por africanos deve soar “africana”, isto é, obedecer a esquemas imediatamente identificáveis como africanos e com produções que, embora condescendendo na sofisticação do estúdio, devem mergulhar fundo na tradição, leia-se, folclore, africano. É a mesma lógica que obriga a que um músico nascido no Minho esteja condenado a compor chulas ou que um parisiense tenha de usar boina e bigode e tocar uma valsa “musette” junto às margens do Sena. Precisamente, o cantor zairense está-se nas tintas para se a sua música é africana ou não. “Green Light” é “apenas” um lote de boas canções, interpretadas nos dialectos “douala”, “kikongo”, “swahili”, “mango” e “lingala” (sim, claro, mas nada impede um cantor venezuelano de cantar em “kikongo”…), com acompanhamento de piano e retocadas por percussões discretas, apoios vocais femininos em aguarela e um didjeridu. O segundo tema, “Soma loba”, por exemplo, é introduzido pelas notas de “Bonny & Clyde”, o qual, muito sinceramente, se duvida que seja um tradicional do continente negro. Esqueça-se então a proveniência geográfica da pessoa para nos concentrarmos na doçura da voz e na subtileza da composição. Não é um álbum de antologia, mas não é todos os dias que se faz História. Luz verde para Ray Lema, de quem se fica à espera de um próximo álbum de música irlandesa. (7)



Bùrach – “The Weird Set”

Pop Rock

29 de Maio de 1996
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Bùrach
The Weird Set
GREENTRAX, DISTRI. MC – MUNDO DA CANÇÃO


burach

I-m-p-r-e-s-s-i-o-n-a-n-t-e é o mínimo que se pode dizer da velocidade de execução e da excitação provocada pelo violino de Gavin Marwick, elemento dos electrofolkers The Iron Horse, que aqui, na qualidade de músico convidado, incendeia por completo a estreia dos Bùrach, grupo escocês vencedor, em 1994-1995, do “Scottish folk group competition”. O “set” de “three reels” é, neste particular, qualquer coisa de épico e de cortar a respiração, remetendo para a lendária prestação do velho “fiddler” dos Fairport Convention, Dave Swarbrick, no “medley” “Dirty linen”, de “Full House”. Marwick desvaira e, a meio do tema, parte a galope na direcção dos Balcãs. Poucos grupos rock conseguirão provocar tamanha descarga de adrenalina, por obra e graça de um violino em estado de furiosa aceleração. Além do “bonus” da presença de MAarwick, os Bùrach dispõem ainda de uma magnífica acordeonista, Sandy Brechin, e uma vocalista com alguma graça, Alison Cherry, ainda que pouco inspirada. Para aguentarem a pedalada, sempre que o violino ataca, os Bùrach chamam em seu socorro a velha batida binária “ceilidh”, pobre mas incomparavelmente útil à míngua de outros argumentos. De falta de sentido de humor é que ninguém os pode acusar, os safados. Chamar “Is our brain a house? No, it’s a life enhancing intergalactic electro virus” a um tema merece uma medalha. Interessante de ouvir, óptimo para dançar. (7)