Arquivo da Categoria: Críticas 1993

Oyster Band – “Holy Bandits”

pop rock >> quarta-feira, 01.12.1993


Oyster Band
Holy Bandits
Cooking Vinyl, distri. MVM



A crítica tem sido benevolente, por vezes entusiástica, para com os Oyster Band: Até “R.E.M. with balls” lhes chamaram. A culpa é da energia com que invariavelmente recheiam cada disco (e, sobretudo, cada concerto) e das letras, quase sempre interessantes, de Ian Telfer. Foi com eles que June Tabor experimentou a sua costela de “rocker” e foi graças a eles – e a grupos como os Pogues e The Men They Coudn’t Hang” – que por cá se ganhou a perniciosa mania de se associar em exclusivo a música tradicional irlandesa à desbunda alcoólica nos “pubs”. Lá, na Irlanda, eles sabem e por cá até pode ser um bom caminho para se chegar ao não menor teor energético daquilo a que os britânicos chamam “the real thing”. “Holy Bandits”, no tom de entusiasmo dominante, mostra que os Oyster Band conservaram mais tempo as tal “balls” no lugar que os seus colegas Pogues desde que saiu o desdentado. Mostra, de igual modo, que a banda não perdeu o jeito nem o gosto pelos temas tradicionais. Neste caso, “Here’s to you”, a clássica e efusiva saúde de copo ao alto, quando, por virtude da ingestão do conteúdo do dito, a humanidade parece ser boa em geral, e, no registo oposto de nostalgia e contenção, o também clássico tema de emigração “Rambling irishman”. (6)

Palma’s Gang – “Ao Vivo No Johnny Guitar”

pop rock >> quarta-feira, 01.12.1993


Palma’s Gang
Ao Vivo No Johnny Guitar
Ed. Polygram



Uma das correntes dominantes no panorama discográfico nacional passa pela reciclagem da forma das canções, experiência formal em que a criatividade se desloca da composição para se concentrar nos arranjos. “Ao Vivo no Johnny Guitar” é um álbum de rock, cheio de músculo e acidez. Um “álbum de guitarras”, como agora se costuma dizer. Há quatro: uma a guitar do canal esquerdo, de Flak, outra do lado direito, de Zé Pedro, e duas ao centro, de Alex e do próprio Jorge Palma. “Shut up and play your guitar” – é Palma a citar Zappa num disco que, de certa forma, podemos comparar a “Nadir’s Big Chance”, de Peter Hammill (um autor sempre próximo no espírito do português), na maneira como ambos recuperam para um formato rock uma obra em que a palavra, fulcral em ambos, recusa por norma o espartilho de um estilo determinado.
A utilização do rock, com a sua rítmica própria e primária, funciona então emparte como um desafio (aguentarão as canções serem reduzidas à sua forma mais simples?) em que se procura transmutar as limitações do género em acréscimo de energia. Por um lado, é uma certa forma de escapismo, no sentido não depreciativo de libertar tensões acumulads. Catarse necessária. Um exercício de ginástica.
“Com Uma Viagem Na Palma Da Mão”, “Té-Já”, “Acto Contínuo”, “O Lado Errado da Noite” e “Bairro do Amor” contribuem todos com canções sistematicamente esventradas pelas guitarras em quase permanente distorção. Momentos de calma só quando a guitarra acústica de Jorge Palma estanca a fúria em “Maçã de Junho” e num “Bairro do Amor”, que surge como um abrigo no meio de uma tempestade que atinge a máxima violência numa “Razão de Estado” de fazer ranger os dentes. (7)

Paul McCartney – “Paul Is Live”

pop rock >> quarta-feira, 01.12.1993


Paul McCartney
Paul Is Live
Parlophone
Distri. EMI-VC



Uma brincadeira que não deixa de ser divertida esta do regresso, depois de “Off the Ground”, de Paul McCartney, num registo ao vivo de uma digressão realizada no princípio deste Verão pelos “States”. O gozo começa logo pela capa, na qual Paul se deixou fotografar a atravessar a mesma passadeira de peões de “Abbey Road”, desta feita acompanhado apenas por um cão. Depois, o folheto refere a digressão como tendo sido realizada “in the new world”, recorrendo ao velho chavão que serviu para designar a América do Norte, dando a entender tratar-se da primeira vez que Paul aí actuou. Mas o gozo maior vem sobretudo da música. “Paul Is Live” é o álbum mais “beatleano” de toda a carreira a solo ce “Macca”. Ao lado de êxitos pessoais como “Here, there and everywhere”, “My love”, “Live and let die” ou o recente “Hope of deliverance” surgem velhos temas dos Beatles interpretados – e isto é que é espantoso – com arranjos e vocalizações bastante fiéis aos originais: “All my loving”, “We can work it out”, “Michelle”, “Magical mystery tour”, “Lady nna”, “Paperback writer” e “Penny Lane”. Como se Paul fosse de súbito acometido por um desejo incontrolável de voltar a aninhar-se no útero materno. Um jogo de gato e rato com a memória. Para a graça ser total, o ex-Beatle atira-nos no final com 45 segundos de zumbido de um ensaio de som, seguido de três ensaios de canções. O homem, diga-se o que disser, não perdeu o sentido de humor. (6)