Arquivo da Categoria: Críticas 1993

Júlio Pereira – “Cavaquinho”

pop rock >> quarta-feira, 08.12.1993


Júlio Pereira
Cavaquinho
Companhia Nacional de Música, distri. MVM



Regressa com capa amputada o clássico da guitarra em miniatura que empurrou para debaixo dos projectores o nome de Júlio Pereira. “Cavaquinho”, entre outras virtudes, é o responsável pela recuperação, para a música popular contemporânea, do som e personalidade de um instrumento feito à dimensão dos portugueses, acrescentando-lhe uma linguagem inovadora e o tecnicismo aprendido e desenvolvido com os mestres minhotos (poderemos chamar-lhes, sem ofensa, cavaquistas?) Bernardo Silva e Domingos Machado. Isso foi bom e devemo-lo a Júlio Pereira.
Por outro lado, é igualmente o disco responsável por, a partir dele, todos os grupos de música de raiz tradicional portuguesa passarem a utilizar um cavaquinho, até por ser um instrumento maneirinho e, lá no juízo deles, fácil de tocar. O que teve como resultado já não haver paciência para ouvir um cavaquinho (o próprio Júlio o compreendeu, passando rapidamente para a braguesa…). Também, graças ao arranjo, aqui incluído, de um “Catar galego” (ouve-se sempre em todos os comícios e festas do PCP ou nas feiras de ecologia), nunca soara tão amaricado o som de uma gaita galega. Consequência de um estilo de produção asséptica, que fez escola, cá e na Galiza. Isso foi mau e devemo-lo a Júlio Pereira.
Mas devemos louvá-lo por nunca ter voltado as costas à experimentação – nem sempre, é certo, com os melhores resultados, como aconteceu nos discos recentes, que se diria terem sido feitos em laboratório – e reconhecê-lo como um dos maiores intérpretes de instrumentos de cordas do nosso país. Que, ainda por cima, se afdisposto a, ao que parece, num futuro próximo, dar rédea menos larga ao computador, no que a sua música só terá a ganhar.
“Cavaquinho”, se ignorarmos os temíveis entretantos, soa hoje tão fresco como em 1981 e recomenda-se como uma entrada convidativa e bem decorada para quantos ainda permanecem do lado de fora da música tradicional portuguesa e querem entrar. (6)

Jethro Tull – “Nightcap”

pop rock >> quarta-feira, 08.12.1993


Jethro Tull
Nightcap
2xCD Chrysalis, distri. EMI-VC



Surpresa das surpresas: “Nightcap” não provoca qualquer tipo de alergia auditiva, ao contrário da maioria dos discos recentes da banda de Ian Anderson, conseguindo mesmo suportar ser ouvido com prazer na totalidade, de preferência com um intervalo pelo meio. Trata-se de mais um disco desenterrado dos arquivos, de “unreleased material”, neste caso de estúdio e de muito razoável qualidade. Temas que ficaram de fora da discografia oficial dos Tull ou por serem demasiado parecidos com alguns dos escolhidos (e a pecha principal) deste disco reside precisamente num excesso de previsibilidade de alguns deles), ou, pela razão oposta, demasiado diferentes, como é o caso do estranhíssimo “Law of the bungle, part II”. São canções dos Jethro Tull de primeira apanha, da época dos épicos “Thick as A Brick” e 2ª Passion Play”, com tudo o que fez a sua glória de então: a flauta encantada, as vocalizações de trovador alucinado e a pose de Ian Anderson, o “progressivismo” entendido como uma mistura de “nursery rhymes”, blues, rock e a tradição folk inglesa. Os lucros de venda do disco revertem para a Balnain House, Home of Highland Music, na Escócia, e The Animal Health Trust. A ouvir por partes, de preferência à hora do chá. (6)

Castro & Barius – “Tributo”

pop rock >> quarta-feira, 08.12.1993


CASTRO & BARIUS
Tributo
Edição Sonovox



Que belo nome para um grupo musical, Castro & Barius! Eles dão uma explicação: Castro porque o seu elemento principal, guitarrista e vocalista, se chama Fernando Castro (tocou com Fernando Pereira), Barius porque a banda costuma tocar em bares, “bários” também porque significa “rapazes”. Os restantes bárius são Paulo mento, baixo, Eduardo Salgueiro, bateria, e Jorge Nascimento, guitarras. Com convidados como José Salgueiro, irmão célebre do Eduardo, em percussões, e Zé Barros, braguesa e cavaquinho, que já passou pelos Romanças e Ronda dos Quatro Caminhos. Ah sim, e o pai do Jorge, que toca acordeão.
“Tributo” é uma homenagem e, como tal, convinha escolher bem o homenageado. Jogando pelo seguro, os Castro & Barius resolveram homenagear três de uma vez, todos valores seguros: José Afonso, Fausto e Vitorino. Bem jogado!
Escolheram-se então, para total segurança, tudo temas fortes, na maioria sobejamente conhecidos: “Mulher da erva”, “A morte saiu à rua”, “Redondo vocábulo” e “A formiga no carreiro”, de José Afonso, “O barco vai de saída”, “Lusitana” e “Navegar, navegar”, de Fausto, “Menina estás à janela” (popular), “Queda do Império”, “Tragédia da Rua das Gáveas” e “Leitaria Garrett”, de Vitorino. Mais um punhado de pemas populares como “Maria Faia” e “Rouxinol”.
Como forma de homenagear os visados (que, comovidos, agradecem, sobretudo Vitorino, que se comove por todo e por nada), os Castro & Barius optaram por “vestir” os temas com “roupagens novas”, para “poder agradar a todos”. Decerto que sim, até porque o som é agradável e sem sobressaltos, muito “music-hall”. Música que, embora “recuperada em toda a sua beleza melódica”, devrá ser “ouvida devagarinho”. Sem dúvida, para aí três segundos de cinco em cinco anos. Força Barius! (2)